Brasília – “Vamos em frente e firmes na luta”. Com estas palavras e sob o som do Hino à Negritude, cantado pelos delegados, o ministro chefe da Seppir, deputado Edson Santos, encerrou às 20h55 deste domingo (28/06), a II Conferência Nacional da Igualdade Racial, iniciada na quinta (28), no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, em Brasília.
Na entrevista que concedeu pouco antes aos jornalistas, o ministro falou sobre os dois momentos mais tensos da Conferência – a proposta de criação do Forum Nacional de Religiões de Matriz Africana, e a proposta do Estatuto da Igualdade Racial -, que alguns setores do Movimento Negro, consideram ter sido desfigurado durante a tramitação no Congresso.
“Consideramos inadequada a criação de um Fórum dentro da Conferência. Eles (os religiosos de matriz africana) vão se organizar no tempo e no local mais adequado para eles. A Seppir não quer tutelar o Movimento reliigoso, nem católico, nem protestante. Eles devem caminhar com os próprios pés” afirmou, sobre a criação do Fórum, proposta defendida pelo (CEN) Coletivo de Entidades Negras e por dezenas Yalorixás, como Mãe Beata e Mãe Torody, de São João do Merety, no Rio.
Tumulto
A apresentação da proposta provocou tumulto no plenário, só contornado graças a negociações de bastidores, conduzidas por Marcos Rezende, do CEN, e Rafael Pinto, da CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras) e também ogã de terreiro.
O ministro considerou a Conferência, convocada pelo Governo em parceria com a sociedade civil, positiva, porém, admitiu que é necessário repensar a metodologia. “A questão da metodologia, agente pode chegar num nível melhor de troca com a sociedade civil. Eu acho que ainda não chegamos a uma metodologia adequada. É uma lacuna. É preciso aperfeiçoar para a próxima”, acrescentou.
Estatuto
Em relação ao Estatuto da Igualdade Racial, Edson Santos, disse respeitar as posições contrárias – algumas em termos duros, o texto aprovado. No final da Conferência, militantes negros da Bahia como Hamilton Borges Walê, do Movimento “Reaja ou Será Morto. Reaja ou Será Morta”, de Salvador, e do Movimento de Mulheres, como Silvany Euclênio, de Ribeirão Preto, interior de S. Paulo, redigiam um manifesto para protestar contra a proposta aprovada que, segundo eles, desfiguro o Estatuto. Alguns, mais exaltados, chegaram a falar de “traição à posições históricas do Movimento Negro”.
“Setores do Movimento Negro não entendem que a correlação de forças no Congresso não é aquela que agente gostaria. Eu encaro com naturalidade as críticas. Agente respeita a crítica. Porém, a maioria da plenária, entendeu de forma adequada. Na votação, uma maioria expressiva se posicionou”, ponderou Santos.
Texto possível
Segundo ele, muita gente não entende o conteúdo da proposta aprovada pela Conferência e que ele considerou “o texto possível, com o qual o Governo se compromete” para levar à votação do Congresso. Ele acrescenta que a mesma incompreensão se dá em relação a questão dos quilombolas – tratada na nova redação do Estatuto de uma forma que desagradou várias lideranças – e também ao papel de uma Secretaria como a Seppir, no debate das políticas públicas.
“Alguns setores pensam que deveríamos ter uma Secretaria só para negros no Governo. Isso cria um verdadeiro gueto. É uma visão equivocada. As políticas da igualdade racial devem ter caráter transversal a todo o Governo. Tem esse debate no Movimento Negro é bom que aconteça. Mas nossa posição é que o mais importante é que se insira a agenda racial num projeto de desenvolvimento econômico do país”, acrescentou.
Delegação do Presidente
O ministro também falou de setores que ainda não o absorveram pelo fato de não ser um quadro oriundo do Movimento Negro. “A questão da minha aceitação ou não, é democrática. Entendo, absorvo. Estou procurando cumprir essa delegação do Presidente da República”.
Em tom bem humorado, apesar do cansaço depois de três dias de intensos debates e acirradas polêmicas, respondeu ao questionamento de líderes como o dirigente da CONEN, Marcos Cardoso que, no encerramento da Conferência, dizia em altos brados achar estranho “que um ministro dirigisse a mesa dos trabalhos”.
“Eu tenho de ficar até o fim e tenho que apresentar os resultados ao Presidente da República. Disso não abro mão. Mas, é democrático. Não se pode agradar a todos”, afirmou.
Sobre a ausência dos ministros convidados aos painéis da Conferência (todos os escalados faltaram) e do Presidente Luis Inácio Lula da Silva, ao ato de abertura, foi sucinto. No primeiro caso, respondeu: “Os convites foram enviados”. No caso do Presidente resumiu. “Seria bom que ele tivesse vindo. Mas considero a não vinda também uma delegação da confiança dele”, concluiu.

Da Redacao