Brasília – Contestado por setores do Movimento Negro que o criticam pela defesa do Estatuto da Igualdade Racial, que entrou em vigor no dia 20 de outubro passado, o ministro chefe da SEPPIR, Elói Ferreira de Araújo, considera que "foi precisamente o Estatuto a maior conquista da gestão e da população negra brasileira".

Na entrevista ao editor de Afropress, Elói fez um balanço dos oito meses à frente da Secretaria, revelou ter ficado “surpreso e envaidecido” pela defesa do seu nome para que permaneça à frente da SEPPIR, e – demonstrando confiança nessa hipótese – anunciou planos. Entre eles está a construção de um Museu da Escravidão no Brasil. “Na África do Sul há o Museu do Apartheid, na Alemanha, o Museu do Holocausto, em Angola, o Museu da Escravidão. No Brasil, nós não temos um grande Museu para lembrar a Escravidão de negros e índios. Já temos esse desenho para fazer essa grande obra; obra que vai preservar a memória, a auto-estima e lembrar a escravidão negra e indígena em nosso país”, afirmou, sem dar detalhes do projeto, quando será erguido, e qual o orçamento.

Segundo o ministro, o detalhamento da obra ainda será objeto de estudos caso permaneça no cargo. “Tudo isso é para ser cumprido num próximo tempo tempo de realização, se a presidente vier a me convocar”, assinalou.

Veja a entrevista concedida pelo ministro ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Ministro, como o senhor está recebendo o lançamento do seu nome para continuar na SEPPIR?

Elói Ferreira de Araújo – Confesso que fiquei honrado e envaidecido com essa manifestação de apoio. Tenho apenas a preocupação de não criar constrangimentos à Presidente Dilma. O Presidente Lula sempre nos falou a todos os ministros: “ninguém aqui é Faraó prá ficar dois mil anos”. Mas, é claro, recebo com profunda alegria e vejo nisso o reconhecimento ao trabalho desenvolvido. Agora, claro, quem vai escolher os seus colaboradores é a Presidente Dilma. Se a Presidente Dilma me convidar terei orgulho de ser seu colaborador. Mas se também não for convidado, estarei na torcida pelo sucesso do seu Governo.

Afropress – O ex-ministro Edson Santos (deputado federal reeleito pelo PT do Rio), tem conhecimento desse movimento em defesa do seu nome?

Elói – O Edson já manifestou que quer ficar na Câmara Federal. Se ele desejasse retornar, porém, e se for essa a decisão da Presidente Dilma, será sem dúvida de grande qualidade, porque ele é um homem muito qualificado. Mas, ele já me disse e a outras pessoas, do desejo de permanecer na Câmara. Mas, se qualquer momento desejar voltar terá em mim um companheiro que tem por ele o mais irrestrito carinho e respeito político e pessoal.

Afropress – Quais as principais conquistas que o senhor destacaria da sua gestão, que foi uma continuidade da gestão do ex-ministro?

Elói – Fundamentalmente o Estatuto da Igualdade Racial. O Estatuto é um marco histórico e agora é preciso que a população brasileira se aproprie dele. É preciso dar concretude a ele, dar relevo e concretude. O Estatuto dá a população negra as condições de acesso aos bens materiais, culturais e econômicos. É o primeiro documento que o Brasil dispõe que não trata de repressão à população negra, mas abre as portas para conquistas. É uma alavanca extraordinária. Também destaco obras como a Ponte sobre o Rio Ivaporunduva, que vai permitir melhoria da qualidade de vida aquela comunidade quilombola no Litoral paulista, na medida em que lhe permitirá escoar a produção. Também estamos avançando para a tradução e a impressão da História Geral da África por meio de parceria Unesco/MEC, o que vai permitir o crescimento da auto-estima das nossas crianças negras, a implementação da Lei 10.639/2003. Tudo isso é de extremo valor.

Afropress – E com relação a regulamentação do Estatuto, fica para a Presidente eleita?

Elói – A regulamentação deve ficar com a Presidente Dilma. Caberá a Presidente Dilma fazê-lo.

Afropress – Com relação a polêmica em torno da obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato?

Elói – A Seppir, por meio da sua Ouvidoria, fez o que tinha de fazer. Encaminhou o caso ao Conselho Nacional da Educação (CNE), que já deu seu parecer. Não estamos defendendo veto a obra, mas é preciso fazer o grande debate. É fato que a obra tem um conteúdo fortemente discriminatório, racista. Na ocasião em que foi lançada, já havia racismo, mas quem é que ia dizer? Agora, já há quem diga, que aponte, o movimento social se mobiliza. O caminho é esse.

Afropress – Há na sua equipe outros nomes que estariam se articulando para ocupar o posto de ministro [fala-se no sociólogo João Carlos Nogueira e no Secretário de Ações Afirmativas, Martvs Chagas]. Sua equipe já sabe do seu desejo de continuar, caso venha a ser convocado pela Presidente Dilma?

Elói – Eu acredito que a equipe está bastante coesa. São colaboradores muito qualificados. São pessoas muito qualificadas como colaboradores do Presidente Lula até o dia 31 deste mês. Tenho tido o apoio a toda a condução que temos dado a SEPPIR, por parte da nossa equipe e acho que a equipe tem uma grande sintonia e uma afinidade muito grande.

Afropress – À época da sanção do Estatuto, o senhor defendeu que, na regulamentação, se garantam cotas. Continua defendendo essa posição?

Elói – O Estatuto no seu artigo 1º, inciso VI, parágrafo único dá a definição mais firme mais segura do que são Ações Afirmativas, combinado com o art. 15. Cota é uma espécie de ação afirmativa. Se assim é, assim deve constar na regulamentação. Estamos ganhando esse debate na sociedade.

Afropress – Na condição de ministro da SEPPIR como está companhando a guerra das forças de segurança com o tráfico nas favelas de Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão em que as famílias de trabalhadores, na sua maioria, negras, são alvos dos efeitos colaterais?

Elói – Meu sonho, minha prioridade é formatar políticas públicas para a juventude negra brasileira. Aquelas imagens [a fuga de menores armados da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão] são de doer e estão gravados na nossa retina para sempre. Senti muito aquilo. Tenho conversado com a Ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, no sentido da criação de um Grupo de Trabalho específico para pensar e adotar medidas para a juventude das periferias das cidades brasileiras, para que os jovens tenham presente e futuro. Desde a formação profisisonal e técnica, até a criação de condições para a empregabilidade dessa meninada. O combate ao uso de drogas e a construção de uma equipe interministerial para pensar e executar medidas, programas, ações, para que os jovens das periferias, de cada área popular, possam ter futuro. Aquelas imagens não saem da minha mente.

Afropress – Qual a nota que o senhor daria para a sua gestão à frente da SEPPIR?

Elói – Minha avó, que era uma negra de muita sabedoria dizia duas coisas que eu não esqueço: a primeira era que “passou de branco, preto é”. E a outra era: “coruja que “gava” o toco, pau nela”. Vou deixar que vocês atribuam a nota para a nossa gestão. Só posso dizer que estou muito satisfeito com o reconhecimento que temos tido pelo nosso trabalho.

Da Redacao