O que não me agrada na jornalista global é a contradição trágica entre a sua defesa da justiça racial no Brasil e sua posição radicalmente conservadora, irritante, na defesa do Deus-Mercado. Quem vê a Miriam nos telejornais da ‘grobo’ defendendo a ditadura do mercado (e aqui se inclui o pacote da violência neoliberal: cortes sociais, aperto nos gastos públicos, privatizações, flexibilizacão das leis de trabalho….) não entende tamanha disparidade de raciocínio.
A justiça social para o povo negro não pode e não é dissociada da ruptura com um modelo perverso que joga nossa gente nas ruas, nas favelas, no desemprego, nas prisões, nas estatísticas da morte. Defender ‘as regras do jogo’ do mercado – e sua ética da conveniência como se vê na atual (eterna) crise – e ao mesmo tempo defender a bandeira do povo negro é brincar com uma luta histórica pelo direito à existência; uma luta que tem na distribuiçao dos bens econômicos e na reconfiguração de poder uma das principais razões de ser.
Quando ocupamos ruas e praças na luta pela igualdade de condições, não estamos apenas buscando o direito à diferença e à igualdade abstrata em um modelo de sociedade inerentemente anti-negritude. Queremos um outro modelo de sociedade que tenha a justiça como princípio. O modelo atual – tão bem defendido pela/os jornalistas do mercado – representa a antítese da libertação do povo negro! O Deus-Mercado é a outra face da “doutrina que seduz”!
O título original do artigo é “Miriam Leitão, as Cotas Raciais e o Mercado: a doutrina que seduz”

Jaime Alves