Rio – O presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio, o ex-deputado Marcelo Dias (foto), militante de base do Movimento Negro Unificado (MNU), afirmou que a organização vai apoiar a socióloga Luiza Bairros, convidada pela presidente eleita Dilma Rousseff para chefiar a SEPPIR, e disse esperar que a nova ministra “ouça os movimentos sociais negros, democratize a gestão e atue em sintonia com o Movimento Negro”.
“Temos consciência de que a própria esquerda branca é uma das principais adversárias da agenda negra, por sua incompreensão do binômio raça e classe. Esperamos que a SEPPIR dê um grande salto de qualidade e promova uma política transversal que ajude a empoderar a militância negra em todos os espaços do Governo, principalmente naqueles que podem acelerar políticas de promoção da igualdade racial como os Ministérios da Saúde, Educação, Reforma Agrária e Cultura, por exemplo”, afirmou.
Dias reconheceu que o MNU não tem mais a mesma força de quando foi criado em 1.978, “que convive com vários grupos e congrega ativistas em vários Partidos e também sem partido”, porém, foi duro ao acusar a ala liderada pelo Coordenador nacional de Organização, Reginaldo Bispo, que defendeu o voto nulo pelo fato da então candidata e atual presidente eleita não ter dado respostas a um programa de vinte e cinco pontos com as reivindicações do movimento.
“Esta história de apoiar a presidente eleita Dilma Rousseff sem pré-condições é uma balela, um desrespeito. Somos militantes históricos de longa data e reconhecemos que o Governo Lula implementou políticas de promoção da Igualdade racial”.
Na entrevista concedida ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Dias disse que a defesa do voto nulo nas eleições significou fazer o jogo da direita. “É simples assim.Voto nulo era jogar o MNU no gueto sectário que é o que este senhor [Bispo] e o seu grupo minoritário queriam. A cada dia que passa este senhor se desmoraliza internamente e cai no ridículo”, afirmou.
Procurado por Afropress Bispo não quis se manifestar e disse que se posicionará no momento que considerar adequado.
Afropress – O MNU é uma organização histórica do Movimento Negro brasileiro, criada em 1.978, porém, hoje já não tem a mesma força de quando surgiu. O que é o MNU hoje, quais as correntes de opinião e pensamento que existem na organização, como convivem e como se dá a unidade de ação no Movimento, que na prática, é uma frente política?
Marcelo Dias – Na verdade, o MNU não é ainda uma organização política. É uma entidade que tem características de uma organização, que realiza Congressos bi-anuais para discutir suas teses, seu plano de lutas, a conjuntura política do país, a eleição de sua direção etc, etc.
Porém, temos que reconhecer que falta uma longa caminhada para sermos caracterizados como uma organização, que requer uma ampla democracia interna, o direito das suas forças internas se constituírem em tendências ou fração, se assim o desejarem, e ter uma sólida intervenção na conjuntura.
A verdade é que não temos a mesma força política de 1.978, vários quadros valorosos saíram da entidade, novas entidades foram criadas, passamos por várias crises internas e estamos sobrevivendo e nos reconstruindo.
O MNU hoje é uma entidade que procura exercitar a democracia interna e isto nos permite conviver com vários agrupamentos políticos, culturais e religiosos. Temos militantes de vários setores que fazem parte do campo “A Nossa Luta Unificada – ANLU”. No MNU temos militantes do PT, PSTU, PSOL, PDT, PSB, independentes – um grande setor – e de diversos credos religiosos.
O MNU desde a sua fundação conviveu com diversos grupos distintos internamente. A ANLU é um desses grupos.
Temos a saudável prática de realizar Congressos bi-anuais, de realizarmos plenárias estaduais e municipais, periodicamente, de atuarmos em grupos de trabalho (GTs) e o direito sagrado de opinião, de discussão, de divergência, que tem garantido a nossa unidade.
Afropress – Quais as diferenças – do ponto de vista ideológico – entre os grupos que apoiaram a presidente eleita Dilma Rousseff sem pré-condições, e o grupo liderado pelo Reginaldo Bispo que defendeu o voto nulo?
Dias – Primeiro, esta história de apoiar a Presidente eleita Dilma Rousseff sem pré-condições é uma balela, um desrespeito ao nosso setor. Somos militantes históricos de longa data e reconhecemos que o Governo Lula implementou políticas de promoção da igualdade racial, indicou Joaquim Barbosa para o STF, tinha Benedita da Silva, Gilberto Gil, Marina Silva, Orlando Silva e Matilde Ribeiro como ministros no primeiro Governo.
No segundo, continou com Orlando Silva, Gilberto Gil, que saiu porque quis, Marina Silva, que saiu do PT e do Governo, Matilde, depois Edson Santos e Elói Ferreira.
Como diz um conhecido político bastante popular nunca antes um Presidente foi tantas vezes ao continente africano, levou tanta ajuda e parceria comercial, subiu e investiu em tantas comunidades faveladas no Estado do Rio, festejou com catadores de papel o Natal, levou milhares de jovens negros às Universidades, apoiou com a presença de várias figuras do primeiro escalão as políticas de ações afirmativas participando da audiência pública no STF.
Então que história ridícula e sectária é essa que demos apoio sem pré-condição?! Temos um velho militante do Rio que disse que Dilma não me agradeceu o apoio. Veja que coisa ridícula! O maior agradecimento que este Governo e o Governo Dilma pode fazer a mim, ao meu campo político, ao povo negro é cumprir a promessa de erradicar a miséria e a fome neste país que se abate principalmente sobre o povo negro. É continuar levando os jovens negros as universidades, é dando voz e vez ao Movimento LGBT como fez recentemente o presidente Lula, é criando milhões de empregos e muito mais coisas que eu poderia citar.
Porém, reconheço que avançamos pouco em algums questões como, por exemplo, na questão quilombola que é uma luta histórica de todo militante antirracista.
Voto nulo quando o DEM indicou um jovem fascista para vice-presidente [Indio da Costa, o vice de José Serra], que pertence a um Partido que é contra Agenda a favor do povo negro, quando o PSDB se uniu ao que há de pior em nossa sociedade, usando o passado militante contra a ditadura de Dilma, para acusá-la de terrorismo, que usaram a questão do aborto com um discurso obscurantista, que atacaram sem piedade as bandeiras dos militantes da causa LGBT, que usaram o conservadorismo religioso como nunca em uma disputa política, que usaram métodos fascistas contra nossa candidatura – candidatura essa que uniu todo o Movimento progressista e popular em torno de si, Voto nulo naquela conjuntura, na verdade, era fazer o jogo da direita. É simples assim.
Voto nulo era jogar o MNU no gueto sectário que é o que este senhor e o seu grupo minoritário queriam, que como eu disse anteriormente, tiveram somente 12 assinaturas em dois Estados de apoio ao voto nulo, mas que felizmente a nível nacional a militância está dando as respostas devidas.
Afropress – Qual é a posição do Movimento Negro Unificado em relação ao nome escolhido pela presidente eleita para a SEPPIR – a socióloga e ex-dirigente da Organização Luiza Bairros?
Dias – A ANLU já divulgou uma Carta parabenizando Luiza Bairros pela sua indicação para a SEPPIR (veja matéria em Afropress). Na Carta colocamos os motivos de porque a saudamos e desejamos sinceramente que ela ouça os movimentos sociais negros e democratize a gestão da SEPPIR. Que atue em sintonia com o Movimento Negro porque temos consciência de que a própria esquerda branca é uma das principais adversárias da Agenda Negra, por sua incompreensão do binômio raça e classe.
Esperamos que a SEPPIR dê um grande salto de qualidade e promova uma política transversal que ajude a empoderar a militância negra em todos os espaços do Governo, principalmente naqueles espaços que podem acelerar políticas de promoção da igualdade racial como os Ministérios da Saúde, Educação, Reforma Agrária e Cultura, por exemplo.
Afropress – Como a organização pretende se posicionar em relação a direção da SEPPIR no novo Governo?
Dias – Dialogando, levando nossa visão de gestão democrática, participativa, crítica, apresentando um plano de ação que contemple as demandas do Povo Negro.
Afropress – Qual é a pauta do Congresso Extraordinário marcado para 2011? Há o perigo de um racha na organização?
Dias – A direção nacional não discutiu nenhum Congresso Extraordinário. Este Congresso não está na pauta. O que acontecerá em 2011é o Congresso previsto estatutariamente. Nosso setor defende a democracia interna que é o remédio para garantir a unidade do MNU, mas não somos ingênuos. Tem setores que discutem e estão na prática construindo alternativas ao MNU. Isto é da vida, o MNU não irá acabar.
Afropress – Qual a visão que o MNU tem das demais articulações (UNEGRO/PC do B, CONEN/PT, CEN, entre outras)? O que impede uma unidade do movimento negro em torno de um programa de lutas comum e de uma direção nacional unificada que se desdobre em direções por Estados/regiões e cidades?
Dias – A ANLU defende a mais ampla unidade de ação com todas as entidades co-irmãs. Não temos a pretensão de sermos os donos da verdade. Não estamos em condições de impor visões a ninguém. O que precisamos é nos reconstruirmos para dialogar com humildade e fraternalmente com a UNEGRO, CONEN, CEN, APNs, Educafro e tantas outras entidades e grupos antirracistas em nosso país.
O sectarismo, a falta de respeito, a visão maniqueísta, a falsidadade, são as doenças que impedem a unidade do Movimento Negro e da Causa Negra. Somos a metade de uma população de 190 milhões de seres humanos. Há espaço para todos. Há milhões e milhões de negros e negras neste país que nunca ouviram falar em nossas entidades.
Com democracia interna, com respeito as diferenças, é possível construirmos a unidade tão necessária para enfrentarmos nossos reais adversários que nos mantém excluídos há mais de 500 anos.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Dias – Dojival, você é testemunha que pouco entro em discussão partidária nestas listas que participo. Vejo um monte de gente ligada a partidos ou não sempre criticando o PT e o Governo Federal.
Porém, temos que reconhecer que o Partido que mais elegeu negros e negras para os diversos parlamentos foi o PT, três senadores negros (Benedita, Paim e Marina).
Na Câmara Federal idem e assim sucessivamente.
No curso Governo Benê no Rio [a ex-governadora e atual deputada federal Benedita da Silva] tivemos mais de 20% de negros no primeiro escalão, sem contar as empresas de segundo escalão. Tivemos diversos ministros negros no Governo Lula. Lamentavelmente fui obrigado a me posicionar na rede expondo uma divergência interna do MNU, o que não é uma prática dos militantes da ANLU, quando, após cerca de 40 militantes do MNU, ter participado do Encontro Nacional do PT, fomos surpreendidos com uma avaliação sectária deste senhor que se acha dono do MNU e tivemos que respondê-lo na rede.
Depois fomos surpreendidos com o tal ultimato a candidata Dilma, ultimato que não foi dado aos candidatos do PSTU, do PSOL, PCB e PCO.
Ninguém da ANLU discorda dos 25 pontos. A nossa posição é que um programa é para ser apresentado a todos os candidatos e negociarmos com todos, repito todos, e não apresentar um ultimato tipo “dá ou desce”.
Mas aquele ultimato sectário nos obrigou a fazer um manifesto de apoio a Dilma, o que não estava previsto, tanto é que só o escrevemos depois de lermos o absurdo que estava se pregando em nome do MNU.
Agora, quando Luiza Bairros é anunciada como ministra da SEPPIR este sujeito corre para divulgar em primeira mão que a direção do MNU se reuniu em S. Paulo e desautorizou qualquer membro do MNU a participar do Governo. Isto, participação no Governo, não estava em discussão.
A cada dia que passa este senhor se desmoraliza internamente e cai no ridículo.
Este senhor delira o tempo todo e está induzindo este prestigiado meio de comunicação a divulgar inverdades. Aos fatos: quando divulgamos a Carta de Apoio a Dilma, ele afirmou que éramos uma minoria no interior do MNU.
A nossa Carta teve a assinatura de sete membros da direção nacional entre os nove. Tivemos a assinatura de 154 dirigentes e militantes em 13 dos 14 Estados em que estamos organizados.
A carta dele, do Voto Nulo, só teve a assinatura dele enetre os nove membros da Coordenação Nacional e de 12 militantes restritos a dois Estados, mostrando que era um blefe a posição de que “ou atende o nosso ultimato ou votamos nulo”.
Outra coisa: não tem nenhum Congresso extraordinário marcado como ele divulgou. O que existe é uma proposta da Plenária do Rio de Janeiro e de uma Reunião ampliada do mesmo Estado que precisa ser aprovada pela Direção Nacional – Coordenação Nacional.
Ele afirma que a direção nacional reunida no dia 12 de dezembro em S. Paulo desautorizou qualquer membro do MNU a estabelecer negociações com a SEPPIR. Pura mentira, no dia 12/12 estavam reunidos em S. Paulo na reunião da ANLU vários dirigentes nacionais. Assinamos documentos da ANLU, cinco entre os nove membros da direção nacional, portanto, não tem resolução da direção relativa a SEPPIR. É tudo mentira.

Da Redacao