S. Paulo – O coordenador Estadual do Movimento Negro Unificado e militante histórico do MNU, Milton Barbosa, Miltão, disse que o Movimento – do qual foi um dos fundadores, em 1.978 – está unido em torno do dia 22 de novembro, como a data da Marcha Zumbi + 10, prevista para novembro.
A Marcha celebra 10 anos da primeira manifestação que reuniu cerca de 30 mil negros em Brasília para a entrega de um documento de reivindicações ao então Governo Fernando Henrique.
Miltão acusou Edson Cardoso – dirigente e coordenador editorial do jornal Irohin, que lidera uma articulação de entidades na defesa da realização da Marcha dia 16 de novembro – de “ser divisionista, inconseqüente e de só pensar no umbigo dele”.
“Essa conversa de autonomia e independência é uma falácia porque ele tem por trás a Ford Foundation”, afirmou, numa referência ao apoio da Fundação Ford a Marcha.
O MNU, juntamente com entidades como a CONEN, a UNEGRO, as Associações Pastorais Negras e setores do movimento sindical ligados a CUT – são acusadas por Cardoso de defenderem “uma contraproposta governista” (veja matéria).
“Isso é uma bobagem. É um argumento que ele está usando. O Movimento Negro já vinha discutindo esse assunto, vai além da questão partidária”, afirma Miltão, ao refutar a acusação de que a data é manobra governista para esvaziar a proposta de uma Marcha autônoma e independente em relação ao PT e ao Governo Lula.
Ele também enfatizou que, apesar de ser filiado e militante do PT, tem uma conhecida em relação à crise política. “O Movimento Negro é majoritariamente de esquerda porque a nossa luta é anti-capitalista. O que nós exigimos é que seja apurada a corrupção e que os corruptos sejam punidos. Também queremos mudanças na política econômica, como a queda dos juros e mais investimentos na área social”, afirmou.
Segundo Miltão, porém, não é possível ignorar os avanços da população negra neste Governo. “Reconheço que há um esforço desse governo m relação à população negra. Claro que o Lula não vai conseguir fazer isso num passe de mágica, e também sabemos que há um grupo majoritário que tentou aparelhar o Estado e vai pagar o preço por isso”, afirmou numa referência ao Campo Majoritário – a ala que controla o PT e tem no ex-ministro José Dirceu, seu principal dirigente e articulador.
“Eu também sou do Partido, mas sou da base e também sou sacaneado por esses setores”, acrescentou.
Segundo o dirigente do MNU, a crise tem um lado positivo porque o movimento social vai exigir novos rumos não apenas para o PT, mas para a esquerda de um modo geral. “Quando nós criamos o MNU o negro era reserva de mão de obra no mercado. Hoje com o desenvolvimento tecnológico, setores reacionários falam abertamente em excedente da população no mundo; falam em controle da natalidade. Todo esse discurso é uma forma de atacar a população pobre. Há um genocídio em marcha contra a população negra. O excedente que eles se referem somos nós. Esta nossa luta é uma luta de curto, médio e longo prazo. Não cabem divisionistas e inconseqüentes como senhor Edson Cardoso que só pensa no umbigo dele”.
Embora reconhecendo que existem Organizações Não Governamentais comprometidas com a população negra e que realizam um trabalho sério, Miltão também criticou as ONGs, a quem chamou de “capitães do mato modernos. “As ONGs são intermediárias entre o Estado e a sociedade. Pagam alguns milhões para ONGs pra fazer esse papel. Muitos desses dirigentes são freqüentadores dos bares da moda e moram em apartamentos duplex. São verdadeiros capitães do mato, fazendo o jogo do neoliberalismo”, concluiu.

Da Redacao