Brasília – Uma vitória do povo negro e do Brasil. Foi assim que o Frei Leandro Antonio da Silva, diretor executivo da Rede Educafro e coordenador do Fórum São Paulo da Igualdade Racial, classificou a maratona de visitas e audiências as autoridades dos três Poderes da República para a entrega das 100 mil assinaturas coletadas em defesa do Estatuto da Igualdade Racial, do PL 73/99 e da PEC 02/2006.
As conversas com as autoridades – que começaram pela manhã com uma audiência com a ministra Elen Gracie, presidente do Supremo Tribunal Federal e com uma reunião com a ministra Matilde Ribeiro, da Seppir e terminaram com reuniões na Casa Civil e na Secretaria de Articulação Política do Governo – já surtiram pelo menos um resultado: reabriram o debate sobre o Estatuto no Congresso e no Governo e quebraram o silêncio sobre o tema.
No Senado, onde entraram entoando as palavras de ordem “Estatuto, já!” e “Cotas, já!”, acompanhados do senador Paulo Paim (PT-SP), o presidente Renan Calheiros (PMDB-AL) prometeu fazer gestões para que as matérias sejam votadas e manifestou apoio às reivindicações.
No Supremo, a ministra Ellen Gracie, disse a uma comissão formada pelo Frei, por Marco Antonio Zito Alvarenga e Regina Silveira, da OAB/SP e pelo jornalista Dojival Vieira, Editor de Afropress e da coordenação do Movimento Brasil Afirmativo, que o Poder Judiciário acompanha com simpatia o debate no país sobre a superação do preconceito e da discriminação e lembrou o papel das Escolas de Magistraturas que já incorporam aos seus currículos essa preocupação. Na Seppir, Matilde se comprometeu a ampliar o debate para envolver setores do Movimento Negro na luta colocar o Estatuto, o PL Cotas e a PEC 02 na pauta.
Autoritarismo e truculência
Nem as cenas de autoritarismo e truculência exibidas pelo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-S), que chegou a mandar o advogado Sinvaldo Firmo, do Instituto do Negro Padre Batista e assessor do deputado estadual José Cândido (PT-SP) “calar a boca” apenas pelo mesmo ter tentado justificar as palavras de ordem “Estatuto Já”, “Cotas já!”, puxadas pelo frei Leandro num gesto de saudação, tiraram o ânimo dos manifestantes. “Hoje ficou demonstrado mais uma vez que o Estatuto só será aprovado com mobilização e pressão”, afirmavam, ao final do dia, lideranças de várias cidades de S. Paulo, que viajaram toda a noite de quarta-feira para estar em Brasília.
Desrespeito e desculpas
No incidente criado por ele próprio, Chignaglia também investiu contra o presidente da CONAD/SP, Zito Alvarenga, afirmando que a OAB não representava toda a sociedade, pelo fato de Zito ter argumentado que todos estavam ali, em nome de um anseio da sociedade brasileira.
Na sessão que presidiu na Comissão de Direitos Humanos do Senado, o senador Paulo Paim – autor dos projetos do Estatuto e da PEC/02 – pediu desculpas em nome do Congresso Nacional pelo ocorrido no gabinete de Chinaglia. Paim liderou uma pequena passeata, do gabinete do presidente da Câmara até a Comissão de Direitos Humanos do Senado para abrir a sessão. “Aqui todo mundo pode falar”, afirmou, acrescentando nunca ter visto tal comportamento na Casa. “Voltem tranqüilos para seus Estados: a vinda de vocês aqui não foi em vão. A repercussão deste fato há de ser positiva. Mas vamos torcer para que isto não volte a acontecer”, afirmou.
Ânimo redobrado
A sessão teve como convidados para compor a mesa o presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, o presidente da Comissão do Negro e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB/SP, Marco Antonio Zito Alvarenga, Inês da Silveira, do Fórum do Alto Tietê, representando a mulher negra, o Frei Leandro Antonio da Silva, coordenador do Fórum SP da Igualdade Racial e o jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress e da coordenação do Movimento Brasil Afirmativo. Também a assessora especial da Seppir, Ivonete Carvalho, e os deputados Carlos Santana e Janete Pietá estiveram presentes.
Patah levou números: mostrou pesquisa encomendada ao Dieese, demonstrando que o desemprego atinge três vezes mais negros do que não negros e afirmou. “O Brasil só será uma democracia com o fim da discriminação contra os negros. O Sindicato e a Central que eu presido está nesta luta. Vamos vencer”. Patah liderou a luta por cotas e ações afirmativas no mercado de trabalho, protagonizando o acordo de cotas com as Camisarias Colombo.
No início da noite, o ônibus com os manifestantes deixou a frente do Palácio do Planalto, sob uma enorme lua cheia nos céus de Brasília. Cansados ainda comentavam o incidente protagonizado pelo presidente da Câmara. “Nada vai nos cansar. Nada vai nos parar. Nada vai nos desanimar. Voltaremos”, afirmavam Heber Fagundes e Thiago Thobias e João Bosco Coelho e Isabel Kaus dos Reis, respectivamente da Rede Educafro, do Movimento Brasil Afirmativo e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que durante todo o dia estiveram à frente dos manifestantes. Agora, a meta de assinaturas será ampliada para 500 mil, que devem ser coletadas até o 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra. O balanço da mobilização e a nova caravana à Brasília poderá ser anunciada na Parada Negra, marcada para a Avenida Paulista, caso até lá, os projetos permaneçam parados no Congresso.

Da Redacao