Salvador – Foi enterrado nesta sexta (03/04), às 16h, no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, o corpo do poeta negro, professor da UNEB e um dos fundadores do Movimento Negro Unificado na Bahia, Jônatas Conceição. Jônatas, que era diretor do Ilê Ayê, morreu pela manhã. A causa da morte do poeta, que estava internado há uma semana no Hospital da Cidade, foi um câncer no aparelho digestivo.
A morte do líder e poeta negro foi lamentada por todos os que o conheceram em vida e na luta contra o racismo. Um dos seus últimos textos, por ironia, foi uma saudação a Oliveira Silveira, outro poeta também negro, morto no dia 1º de janeiro deste ano.
“Oliveira Silveira, liderando o Grupo Palmares de Porto Alegre, remexeu com o Brasil mais do que profundo: nada de passividade, nada de paz e harmonia. Ou me dá o que é meu – a liberdade – ou lutaremos pelo poder até o fim”, escreveu Jônatas no jornal Irohin.
História de vida e de lutas
O poeta negro, que era doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e responsável pela coordenação do Projeto de Extensão Pedagógica (PEP, que orienta projetos sociais do Ilê, como a Escola Mãe Hilda, a Banda Erê e a Escola Profissionalizante, nasceu em 8 de dezembro de 1.952 e escreveu os livros “Miragem de Engenho”, “Outras Miragens” e o ensaio “Reflexões sobre o Ensino de Português para a Escola Comunitária”.
Jônatas esteve presente em várias frentes na luta contra o racismo e valorização da identidade e culturas negras: movimento social, literatura, Carnaval e academia.
“Jônatas era um poeta profundamente ligado às suas raízes em Saubara. Eu sempre disse que ele vivia ‘saubariando’ a vida”, disse, emocionado, o poeta José Carlos Limeira, um dos grandes amigos de Jônatas e companheiro nas letras.
“Era um guerreiro incansável na sua aparente quietude. Acho que era como a própria água, um elemento ao qual ele era muito ligado. Ele ia operando transformações profundas de uma maneira na maioria das vezes silenciosa”, destaca o também poeta e grande amigo de Jônatas, Landê Onawale.
Era nos textos que Jônatas deixava transparecer seu pensamento sobre questões como o racismo e desigualdade.”No seu jeito calado ele era radical, no sentido, de como diz sua irmã Ana Célia, de quem segue as coisas com horizontalidade e profundidade, como uma raiz. Neste sentido Jônatas realmente deixou marcas profundas em todos os ambientes nos quais atuou”, completa Landê.
Da Alemanha, onde vive, o jornalista e poeta negro, Marcos Romão, escreveu um poema de saudação e despedida:
Lembrei que desde de 72 que o 20 de novembro é um feriado nacional interno pra todos nós, e resolvi depois do choque não dormir logo.
Paremos a Bahia.
Paremos o Brasil.
Decretemos luto nacional por tres dias.
Este decreto conta pra gente.
Sem a cabeça de Jônatas aos tambores do Ilê faltaria uma nota.
Arriemos a meio-pau as bandeiras silenciosas que carregamos.
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Jônatas deixa um filho de 12 anos, Kayodê.

Da Redacao