S. Paulo – O Movimento, que reúne entidades, lideranças negras, sindicalistas e pessoas indignadas com o caso de tortura com motivação racial a que foi submetido o funcionário da USP, Januário Alves de Santana, suspeito de roubar o próprio carro – um EcoSport – tende a crescer e está em total sintonia com a posição dos advogados da vítima.
Quem garante é o jornalista Gerson Pedro (foto), do Fórum Metropolitano Oeste da Igualdade Racial, que reúne 19 cidades da região metropolitana, responsável pela manifestação em frente à loja do Carrefour, na Avenida dos Autonomistas, em Osasco, no último dia 05, a mais numerosa das três já realizadas.
“O Movimento Social atua em total sintonia com os advogados de Januário, porque os mesmos representam os mais altos interesses da vítima e pugnam para que a mesma seja reconhecida como pessoa humana, merecedora de respeito em todos os sentidos e que seja ressarcida de todos os direitos de que foi lesada”, afirmou.
Segundo Pedro, as manifestações tendem a continuar porque “até o presente momento não vimos uma resposta adequada, tanto por parte do Carrefour, tanto por parte do Estado”. “O Movimento Social, as entidades negras devem continuar atuando em uníssono com os defensores de Januário. A punição deve ser exemplar e o ressarcimento também”, acrescentou.
Os advogados Dojival Vieira e Silvio Luiz de Almeida – que defendem Santana – foram convidados a participar das três manifestações, porém, embora considerem positivo a mobilização em torno do caso, entendem que o seu papel será o de fazer a defesa técnica da vítima – em todos os fóruns e instâncias, inclusive no diálogo e nas negociações com o Carrefour – e não o de ativistas.
Para o jornalista, que também esteve à frente da segunda manifestação em frente à sede Central do Carrefour, em S. Paulo, na última sexta-feira, dia 11, que contou com a participação de entidades negras e de centrais sindicais, a agressão com conotação racista ao funcionário da USP representou um limite.
“O caso Januário, para nós negros, foi o transbordamento do copo d’água que vem se enchendo no dia a dia e repentinamente transbordou e o movimento negro como um todo sentiu o sinal de alerta, pois basta ser negro para saber que a qualquer momento, nos locais mais inusitados poderemos ser confundido com marginais”, afirma.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida à Afropress pelo jornalista, que liderou a manifestação em frente à loja do Carrefour
Afropress – Qual a avaliação que você faz dos primeiros protestos que refletiram a indignação do Movimento Negro, em particular, e da sociedade, em geral, em relação à violência racista praticada contra Januário Alves de Santana?
Gerson Pedro – É importante salientar que de fato o Brasil como um todo se indignou e continua indignado com a brutalidade e covardia da qual Januário foi vítima. Mas a população negra, em especial, não consegue mais esconder a sua indignação com o racismo e com o preconceito com os quais são tratados no dia a dia. O caso Januário, para nós negros, foi o transbordamento do copo d’água que vem se enchendo no dia a dia e, repentinamente, transbordou e o movimento negro como um todo sentiu o sinal de alerta, pois basta ser negro para saber que a qualquer momento, nos locais mais inusitados poderemos ser confundido com marginais.
Portanto, a avaliação que faço é de que os protestos são positivos e refletem a nossa total indignação, e que vamos lutar com todas as nossas forças contra essa pseudo elite despreparada, pretensiosa, racista, que quer a qualquer custo nos submeter e nos manter enjaulados nos guetos, nas favelas e nas periferias. Pelas reações que continuam pipocando por todos os lados, está sinalizando que tais fatos não mais serão tolerados.
Afropress – Há espaço para outros atos e para o crescimento dessas manifestações?
Gerson Pedro – Sem dúvidas, sinto a cada momento a indignação aumentando, primeiro porque queremos um basta nessas atitudes e segundo porque até o presente momento não vimos ainda uma resposta adequada tanto por parte do Carrefour, assumindo que, no interior de uma de suas lojas, um homem indefeso foi massacrado, humilhado pelo simples fato de ser negro. Não vimos também uma resposta firme por parte do Estado e isso, esse silêncio atordoante, está maturando novas manifestações, novos protestos.
Entendo que o tempo de engolir em seco e de temer por retaliações por parte de quem quer que seja já passou. Tenho conhecimento, sim, de outros atos, de outras manifestações que estão sendo preparadas.
Afropress – Qual, na sua opinião, deve ser o papel do Movimento Social, em
relação à negociação que está sendo conduzida pelos advogados de Januário junto à alta direção do Carrefour, por solicitação da empresa?
Gerson Pedro – O papel do Movimento Social, em especial o do Movimento Negro é, em primeiro lugar, estar solidário com a vítima. Em segundo lugar, é estar plenamente afinado com os advogados que o representam e atentos para que a empresa Carrefour de fato promova o ressarcimento em todos os aspectos legais, além de amparar moral e psicologicamente a ele e aos seus familiares que, de certa forma, acabaram por se tornar vítimas também.
E, finalmente, ficar atento e cobrar severas punições dentro da lei para os agressores e demais responsáveis, e ajudar, se for o caso, a empresa a mudar seus métodos no trato com os diferentes, até mesmo com a implantação de projetos de diversidade e políticas de ações afirmativas.
Entendo, com total lucidez que, o papel que vem sendo exercido pelo Movimento Social e que tende a crescer vertiginosamente, é o de atuar em total sintonia com os advogados de Januário, porque os mesmos representam os mais altos interesses da vítima e pugnam para que a mesma seja reconhecida como pessoa humana, merecedora de respeito em todos os sentidos e que a mesma seja ressarcida de todos os direitos de que foi lesada.
Portanto, o movimento social, as entidades negras devem continuar atuando em uníssono com os defensores de Januário. A punição deve ser exemplar e os ressarcimentos também.
É importante ressaltar que a alta direção do Carrefour já sinalizou o interesse em estar criando novas políticas para o trato com a diversidade e, tanto é assim, que teremos uma reunião com eles no próximo dia 22 de setembro, e para tanto já estamos formando uma comissão composta de competentes profissionais das mais diversas áreas de atuação, para darmos início às discussões. E digo mais, se as mesmas vierem a ser implantadas servirão de modelo para o resto do Brasil e quem sabe até para o mundo.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Gerson Pedro – Dizem que as pessoas aprendem determinadas coisas ou pelo amor ou pela dor. No odioso episódio que envolveu Januário, nós do movimento social estamos aprendendo pela dor. A dor de ver um homem ser espancado pelo fato de ter ousado ser um cidadão, por ter ousado ter ousado pensar que é possuidor de direitos iguais, por ousar entrar em uma loja supostamente não reservada a ele, por ousar ter comprado um veículo bonito.
O episódio do Carrefour está fazendo com que o Movimento Negro esqueça um pouco as suas divergências ideológicas e parta em defesa de um homem que muitos de nós sequer conhece, porém, todos nós negros sentimos na pele esse gosto horrível da discriminação, mesmo que não tenhamos apanhado, mesmo que não tenhamos necessitado passar por cirurgia.
O episódio Januário é para nós do Movimento Social, do Movimento Negro um marco, um divisor de águas que está demonstrando claramente que esse tipo de prática não mais vingará entre nós.

Da Redacao