Vitória da Conquista/BA – O radialista Hérzem Gusmão, das Rádios 96 FM e Cidade AM, de Vitória da Conquista – a terceira maior cidade do Estado, a 509 Km de Salvador – poderá ter que explicar na Justiça o teor de declarações consideradas depreciativas e injuriosas à comunidade pelo Movimento Negro local.
No programa Resenha Geral que comanda e que tem grande audiência em Conquista e cidades do entorno, Gusmão, ao comentar o desaparecimento de uma criança negra – Marcelle Yasmin Cardoso, de 5 anos – cujo corpo foi encontrado no dia 22 do mês passado, seis dias depois de ser raptada de sua casa, fez o seguinte comentário. “Uma criança negra… Raptar uma criança negra, prá que? A gente fica a indagar”.
Prisão e comoção
A prisão dos acusados de matar e esconder o corpo da menina – Francisco Diacísio Sousa, de 33 anos, um conhecido da família e que já responde por um homicídio, e o pedreiro Claúdio Adão, 31 – provocou comoção na cidade. Populares enfurecidos tentaram linchá-los, o que só não aconteceu porque a Polícia deu tiros para o alto a fim de dispersar a multidão concentrada em frente ao Distrito Integrado de Segurança Pública (Disep) e a 1ª Delegacia de Polícia.
O radialista nega qualquer conotação racista no comentário e diz está sendo vítima de uma armação de adversários políticos, porque é pré-candidato a deputado federal pelo PMDB. “Eles utilizaram uma frase fora de contexto sobre o comentário que eu fiz no meu programa de rádio a respeito do rapto da garota Yasmin, de apenas 5 anos, para divulgarem que eu sou racista. Isso é uma tremenda tolice. Sou neto de negros. Não tem nem cabimento”, refutou.
Emenda pior que o soneto
Lideranças negras da cidade, contudo, o contestam e querem levar o caso adiante. Segundo Fábio Sena, do Movimento Negro de Conquista, as explicações não convencem porque, ao tentar se explicar no dia seguinte, Gusmão “acabou botando os pés pelas mãos”. “Entre outras coisas, ele afirmou que a menina poderia ser alvo de magina negra ou teria sido raptada pela exploração sexual. A emenda saiu pior que o soneto”, afirma Sena.
A Coordenadora da Associação Cultural Agentes de Pastoral Negros de Vitória da Conquista e ex-integrante do Conselho Nacional da Igualdade Racial (CONAPIR), Elizabeth Ferreira Lopes, a Beta, anunciou que acionará o Ministério Público para que cobre explicações do radialista.
“A gente sabe que o racismo está impregnado nas pessoas e, muitas vezes, até sem querer, esse sentimento salta da boca. Mas é pior quando declarações racistas saem da boca de pessoas que, pela própria condição, deveriam estar usando os espaços de que dispõem para educar a sociedade sobre a gravidade que é esse tipo de crime”, afirmou.
Beta defendeu “punição exemplar” ao radialista “porque o Brasil não pode nem deve mais assistir calado agressões à maioria de sua população, especialmente quando se trata de crianças, como foi o caso que estamos denunciando”.
Sem saber ainda que tipo de ação adotarão, as lideranças pretendem se reunir nos próximos dias com a Promotoria da Infância e da Adolescência e de Justiça e Cidadania para pedir as providências contra o que consideram “uma atitude racista” do radialista.

Da Redacao