Porto Alegre – Documento lançado pela coordenação Política do Congresso Nacional de Negros e Negras do Rio Grande do Sul, no último final de semana de 2007, faz duras críticas a Coordenação Política Nacional e propõe uma mudança de rumos para que o Congresso seja “a expressão da organização das bases e não de algumas cabeças, que se pretendem “donas” do Movimento Negro brasileiro”.
Entre as críticas, os subscritores apontam o não cumprimento do calendário, o descumprimento de acordos e a postura mandonista de algumas lideranças que, a partir de S. Paulo, passaram a se comportar como se fossem “donas” do Congresso e do Movimento.
A Coordenação Política Nacional é dirigida por Flávio Jorge, da Coordenação Nacional das Entidades Negras (CONEN), Milton Barbosa, do Movimento Negro Unificado (MNU), e Edson França, da União dos Negros pela Igualdade (UNEGRO). Os três concentram as decisões, com respaldo, até aqui, das organizações que dirigem. Ernesto Luiz, do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), bem como outras entidades também participam da coordenação política, porém, tem peso apenas relativo nas decisões.
A Afropress telefonou para os celulares de França e de Barbosa, sem sucesso. Flávio Jorge foi localizado, porém, se encontra em recesso no interior e disse não ter tido conhecimento do documento. Prometeu se posicionar até o final desta semana, assim que retorne à São Paulo.
O documento é assinado por lideranças das mesmas organizações que dirigem o Congresso (CONEN, MNU e UNEGRO), o que revela a insatisfação das bases e do ativismo com os métodos adotados pelo que passou a ficar conhecida como a cúpula dirigente do Congresso.
Pseudo-lideranças
A coordenação política gaúcha não poupa o que chama de “pseudo-lideranças que carregam histórico individual de transgressão de princípios éticos devido aos seus próprios referenciais de orientação política, que culturalmente mantêm uma relação sistemática de surrupiar os processos democráticos”.
Acrescenta que as entidades e organizações foram até agora isoladas de uma construção coletiva pelo “individualismo de dirigentes” a quem também acusa de “tentarem ocupar espaço político de visibilidade e decisão à revelia de uma relação transparente e verdadeiramente construtiva”. E alerta para o “alto risco de manipulação e enfraquecimento induzido e premeditado por atores reacionários do movimento negro que tem como tarefa como tarefa o uso do Congresso para o fortalecimento de partidos e correntes partidárias, ou para tratar de interesses institucionais que não querem externar a verdadeira situação social e política do racismo no Brasil e suas contradições que resultam na exclusão racial da população negra”.
O documento amplifica o descontentamento que se acentuou na Assembléia de S. Paulo, em outubro, com a postura de lideranças que vem monopolizando a direção do Congresso e restringindo o debate.
A próxima Assembléia Nacional será, precisamente, em Porto Alegre nos dias 28, 1º e 2 de março e a pauta dos debates deverá ser marcada pelas diferenças que agora se tornaram públicas. O embate político deve se intensificar porque, em maio, a Seppir realiza a II Conferência de Promoção da Igualdade Racial, um evento do Governo, que deverá atropelar o calendário do Congresso. Algumas lideranças vêem no desinteresse da coordenação política em encaminhar as deliberações, uma forma de submissão à pauta do Governo.
Incapacidade e incompetência
O documento dos negros gaúchos aponta ainda que as entidades e organizações do movimento negro foram até agora isoladas de uma construção coletiva pelo individualismo de dirigentes. “A incapacidade e a incompetência dessas pseudo-lideranças exige com urgência o restabelecimento da participação das entidades e organizações políticas do movimento negro num processo de avaliação interna do CONNEB/2007, identificando a responsabilidade de tanta inoperância e os seus respectivos atores”, afirma.
Sem citar nomes, o texto vai além: “Esses militantes há décadas vem sendo os responsáveis por grandes equívocos e contradições que tem levado o movimento negro brasileiro a um verdadeiro retrocesso estratégico principalmente pelo seu vinculo institucional partidário e governamental aquém dos interesses do movimento social negro”, afirma.
Repercussão
Ontem, (02/01) José Antonio dos Santos (foto), dirigente da UNEGRO gaúcha, presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade do Rio Grande do Sul (CODENE) e membro da Executiva do Congresso, um dos articuladores do documento, evitou apontar nomes, porém, confirmou os termos duros do texto, fruto, segundo ele, de reunião de avaliação ocorrida no dia 28 de dezembro. A coordenação gaúcha é composta pela própria UNEGRO, pelo MNU, pelo Centro Cândido Velho, do sociólogo e sindicalista da CUT, Luiz Mendes, e por entidades sindicais e negras envolvidas com a organização do Congresso.
“Nós estamos sentindo que, desde a assembléia de Abril, em Minas Gerais, estão começando a prejudicar o andamento do CONNEB. Defendemos que se cumpram os acordos e não se atropele o calendário”, afirmou, lembrando que o calendário tirado em Belo Horizonte foi completamente ignorado.
Inicialmente, as Assembléias Nacionais haviam sido agendadas para S. Paulo, em julho, Porto Alegre, em outubro, Belém, em dezembro, e a de encerramento em abril, em Salvador.
José Antonio disse que tem esperanças de que uma reunião proposta para os dias 26 e 27 deste mês, em Vitória, Espírito Santo, ajude a resolver alguns entraves e salve o Congresso. “Nós esperamos que a Coordenação Política providencie transporte e a infra-estrutura para a reunião de Vitória, para que não se coloque em risco a credibilidade do próprio Congresso”, afirmou.
O dirigente negro gaúcho fez ainda um apelo às lideranças do Movimento Brasil Afirmativo para que não se afastem da Coordenação Política e contribuam de forma crítica para a mudança de rumos. Na última reunião do ano passado, lideranças do Brasil Afirmativo decidiram suspender a participação no Congresso até seminário que realizarão em 16 de fevereiro, em S. Paulo, em protesto pelas atitudes da cúpula dirigente durante as manifestações de 20 de Novembro, em S. Paulo.

Da Redacao