Salvador/BA – O Movimento Negro brasileiro está organizado sob um modelo esgotado, em que as entidades e organizações passaram a se subordinar aos partidos e perderam completamente autonomia para influenciar na agenda política do país. A opinião é do ex-presidente da Fundação Palmares, o arquiteto Zulu Araújo (Edvaldo Mendes Araújo), que abriu nesta quarta-feira (04/09), na Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador, o Seminário “Somos Africanos?”, em que propõe discutir um novo pensamento negro para o Brasil.

Zulu, que é presidente do Centro de Estudos e Pesquisas Mário Gusmão (Cemag), entidade organizadora do Seminário graças a uma emenda parlamentar de R$ 189 mil apresentada pela senadora Lídice da Mata, do PSB baiano, disse que “a subalternização do movimento aos interesses partidários” é o resultado da "cooptação violenta e gigantesca do Movimento Negro”.

“O movimento perdeu autonomia e deixou de ser suprapartidário. O Movimento Negro, de Mulheres, de Direitos Humanos em essência é suprapartidário. Os modelos nos quais estão assentados as organizações do Movimento Negro são modelos esgotados para os desafios que estão postos. E preciso que a gente use a nossa criatividade para criar novos instrumentos de pressão, de mobilização, assim como para cobrar das instituições públicas aquilo que elas acordaram conosco quando do processo eleitoral. Assim estão fazendo os ruralistas, os indígenas, os empresários, porque nós não estamos fazendo? Não podemos acreditar que só a sensibilidade vai fazer o nosso movimento avançar", acentuou.

Segundo Zulu (primeira foto abaixo) o movimento LGBT, "tem dado uma aula de organização, confrontando de maneira aberta e clara as estruturas conservadoras da sociedade". "Tem avançado e feito as maiores mobilizações sociais do país e o Jean Willis [deputado federal do Psol] virou uma referência nacional", sublinhou.

"Há uma necessidade do Movimento Negro encontrar uma nova agenda política para que possa construir novas alianças e fazer avançar aquilo que a gente conquistou. E prá entender essa nova agenda a gente precisa entender que essa situação é mais complexa do que a gente possa imaginar”, completa.

Novo rumo

O Seminário também pretende discutir propostas e ações para o fortalecimento das relações da América Latina com os países africanos. Na abertura participaram da mesa o embaixador Paulo Tomás Lubisse, de Moçambique, representando a União Africana (foto abaixo), o embaixador Paulo Cordeiro (Subsecretário geral para os Assuntos de Africa e Oriente Médio do Ministério das Relações Extyeriores), secretário da Igualdade da Bahia (Sepromi), Elias Sampaio, o vereador Silvio Humberto e o representante da Casa de Angola, Camilo Afonso.

A ministra chefe da SEPPIR, Luíza Bairros, embora convidada para a abertura não compareceu. O ex-secretário executivo da SEPPIR, Mário Lisboa Theodoro, será um dos palestrantes escalados para a mesa que tratará do "Pensamento afro-brasileiro e África", marcada para esta quinta-feira (05/09) a partir das 9h no auditório Kátia Matoso. O Seminário termina na sexta, dia 06.

Estagnação e retrocesso

Segundo Zulu, apesar dos avanços nos dois primeiros mandatos do ex-presidente Lula, no atual Governo da Presidente Dilma Rousseff, o que se vê é um quadro de "estagnação e retrocesso do Poder público em relação a questão racial". “O Governo Lula representou um avanço significativo de muitas dessas propostas, mas há a necessidade de um realinhamento para definirmos uma nova agenda propositiva para o Movimento Negro brasileiro. Nós conquistamos cotas, novos marcos regulatórios e agora? Fazemos o que com isso? Vivemos uma fase de estagnação e até de retrocesso”, afirmou.

A maior prova disso, de acordo com ele, é que nos últimos três anos nenhum território de quilombo foi titulado no Brasil e os poucos processos de titulação em andamento foram suspensos. Citou como exemplo o Quilombo do Rio dos Macacos, em Salvador, o Quilombo do Marambaia, no Rio, e o de Alcântara, no Maranhão.

Zulu disse que o resultado desse retrocesso se reflete também na queixa generalizada da diplomacia africana porque as políticas deixadas pelo ex-presidente Lula em relação ao continente africano "foram reduzidas a zero".

Para o ex-presidente da Fundação Palmares, o que acontece é que a questão racial no Brasil entrou na agenda política nos últimos anos e "precisa ter tratamento político". “Aqueles que representam as instituições precisam ser agressivos na defesa desses interesses. Essas instituições devem estar mais articuladas com o Movimento Negro real e esse Movimento Negro real deve se refazer, se rearticular e se reorganizar, evidentemente. Nós temos deputados, ministros, até o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Joaquim Barbosa, mas isso tem alterado significativamente a situação dos negros no Brasil? Como é que se explica que tenhamos avançado e tenhamos um aumento tão violento do assassinato de jovens negros? E isso aconteceu com maior intensidade na cidade de Salvador, Bahia” destacou.

Os números, de acordo com ele, são alarmantes. “Há uma ofensiva clara dos setores conservadores, liderados pela senadora ruralista, Kátia Abreu (PSD/TO) [presidente da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil] no sentido de impedir a continuidade da demarcação das terras de quilombo e indígenas. O preço que estamos pagando pelos avanços que conquistamos tem sido muito altos. O aumento de assassinatos de jovens negros está na ordem de 33%, com uma redução de 25% de assassinatos de jovens brancos. Isto é dado do Mapa da Violência 2012. Vou lhe dar um outro dado: todas as instâncias que trabalham no plano federal com políticas de ação afirmativa tiveram seus orçamentos reduzidos – a Fundação Palmares, a Seppir, o Incra. Essas instituições são as que tem os menores orçamentos do orçamento público. Os Fundos para as políticas de ação afirmativa não existem", lembrou.

O Seminário também pretende discutir a realidade do negro brasileiro. “Quem é o negro que está nas ruas, nas caminhadas, nas universidades. Qual a estória do indigente, do assaltante? De que África estamos falando? É daquela África mítica de tantos e tantos tempos? Nós somos africanos ou somos afrobrasileiros? Essa irmandade Brasil/África de que temos falado não tem sido meio caricatural? Não é preciso ter coisas mais efetivas que contribuam com o continente africano? É preciso ressignificar a nossa relação com o continente africano", destacou.

SEPPIR e Palmares

Mesmo sem criticar diretamente os gestores "para não fulanizar o debate", Zulu é crítico das gestões da SEPPIR e da Fundação Cultural Palmares, atualmente dirigidas pela socióloga Luiza Bairros e pelo seu primo, o diretor teatral Hilton Cobra, o Cobrinha, respectivamente. “No meu entendimento, a atitude atual das nossas instituições é de conformismo. Por razões institucionais, elas não tem tido, no meu entendimento, a agressividade necessária para a disputa política dentro do Governo. E disputa política não é desrespeito nem é insubordinação, é fazer valer aquilo que foi acordado nas ruas quando do processo eleitoral", afirmou.

O ex-presidente da Palmares destacou que o Movimento Negro esteve ausente das mobilizações populares que ganharam as ruas em junho e que ainda não se esgotaram. "As nossas bandeiras, as nossas lutas, estiveram literalmente ausentes, como literalmente estivemos fisicamente ausentes também".

Quanto a possibilidade de diálogo com os atuais gestores, especialmente, com a SEPPIR e com a Fundação Palmares visando uma mudança de rumos, Zulu não descarta, mas concluiu. "Estou querendo bater na porta, mas bater na porta de forma articulada", disse, aludindo a hipótese da abertura de diálogo com as direções da SEPPIR e da Fundação Palmares.

Da Redacao