Porto Alegre – Internado há 15 dias no Hospital Ernesto Dornelles para tratamento de um câncer, morreu nesta quinta-feira (1º/01), aos 68 anos, o professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Silveira, conhecido nacionalmente por ter sido um dos propositores do 20 de Novembro como data para celebração da identidade negra em memória de Zumbi dos Palmares, em substituição ao 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura.
Oliveira Ferreira da Silveira nasceu em Rosário do Sul (RS) e era formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com especialização em Francês. Era também professor aposentado da rede pública de ensino. Divorciado deixou uma filha e netos.
Seu corpo será cremado nesta sexta-feira (02/01) em cerimônia reservada. As cinzas serão transportadas para sua cidade natal, conforme desejo expresso pelo poeta pouco antes de morrer a familiares e amigos.
A história do 20 de Novembro
A trajetória política e de ativista de Oliveira Silveira foi marcada pela criação do Dia Nacional da Consciência Negra, proposto pelo Grupo Palmares, em 1.971, do qual era um dos integrantes. A proposta era promover uma re-eleitura da História, adotando Zumbi dos Palmares como herói nacional. Posteriormente, em 1.978, o Movimento Negro Unificado (MNU) proporia a transformação da data em Dia Nacional da Consciência Negra.
O Grupo Palmares, fundado em 20 de julho de 1.971, ainda sob a ditadura militar, realizou uma série de atividades públicas para lembrar líderes negros como Luiz Gama e José do Patrocínio. O ato à memória de Zumbi dos Palmares, realizado no Clube Náutico Marcílio Dias, freqüentado habitualmente por negros em Porto Alegre, foi o de maior importância do calendário de atividades frequentado por negros.
Militante antirracista
Oliveira Silveira foi um ativista sempre presente no Movimento Negro por meio de sua militância política e de uma extensa produção literária. Fundou o grupo Semba, a Associação Negra de Cultura e integrou o corpo editorial da revista Tição (publicação do Movimento Negro gaúcho no final dos anos 1970). Também com presença marcante, participou da produção cultural gaúcha, compôs rodas de intelectuais e formadores de opinião, sendo alvo de homenagens em diversos eventos, entre os quais, a Feira do Livro de Porto Alegre.
Escreveu uma dezena de livros (Poema sobre Palmares, Banzo Saudade Negra, Pêlo Escuro, Roteiro dos Tantãs, entre outros), e inúmeros poemas acerca da vida dos negros no Rio Grande do Sul e sobre a questão negra de forma geral. Uniu-se a ativistas culturais e políticos através de sua obra poética, como Pedro Homero, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Cadernos Negros.
Sua produção correu o mundo, com coletânea de autores negros publicada na Alemanha e poesias registradas em revistas de universidades dos Estados Unidos (Virgínia e Califórnia).
Foi conselheiro de notório saber em relações étnico-raciais do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), no período 2004-2008.
No momento, colaborava com a Secretaria por meio de consultoria acerca da preservação dos clubes negros como patrimônio material e imaterial afro-brasileiro.
Veja um dos poemas do poeta morto
ENCONTREI MINHAS ORIGENS
Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
……. livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
…… cantos
em furiosos tambores
……. ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei
Oliveira Silveira
Roteiro dos Tantãs

Da Redacao