Era de se esperar que, num mundo trançado pelos fios da rede, a migração das instituições e sujeitos políticos para esse novo espaço, o da internet, seja uma realidade irreversível, pois, assim como o ar que a gente respira, a inscrição no espaço virtual é condição vital para quem deseja obter visibilidade e legitimidade social. A sociedade do conhecimento e da informação, etiqueta atribuída aos nossos tempos, vem reajustando e acomodando os sujeitos sociais na rede sob pena de eles serem ofuscados pelo brilho da sociedade transparente , pela profusão de eventos e ações, ocasionada pelo aperfeiçoamento da técnica.
Inegavelmente, o esfuziante aparecimento dos recursos tecnológicos e suas infinitas possibilidades são um dos marcos fundantes da contemporaneidade. A nossa comunicação caminhou do gesto à palavra e, com a palavra, dos suportes da mídia primária (corpo) aos suportes da mídia secundária (impressos), que aumentaram a possibilidade da comunicação à distância. Chegamos à mídia terciária, que abole definitivamente os limites espaciais, eliminando a distância da comunicação.
Os movimentos negros, sendo parte da história social, caminham de acordo com os desdobramentos das formas de comunicar: do correio nagô, passando pelas calorosas assembléias in praesentia , pelas passeatas, pelos boletins impressos, chegam à era virtual, onde tudo (ou quase tudo) é engolido pela rede, pela world wide web, a famosa www.
Claro está que todas estas formas de comunicação e ação não são excludentes, tampouco seguem uma escala temporal, mas coexistem. Com elas, melhoramos nossa performance, dinamizamos nossos trabalhos, agilizamos as trocas, abolimos, como é próprio da rede, as distâncias, trabalhamos com as respostas on line , em tempo real. O desafio que se impõe vai além: como fazer do espaço virtual, com suas listas de discussão e outras ferramentas, um locus importante de “artefazimento” da política racial? Como fazer da web, efetivamente, mais uma frente que não se encerre no cumprimento da lógica social “estou [email protected], login existo.” A despeito da importância da web para a circulação de informação, faz-se imperioso que a comunicação seja um nexo importante para o fecundo debate político, capaz de transpor os espaços da rede e se estender para as diversas esferas de maneira conseqüente.
Se por um lado, a vertiginosa gama de informações transmitidas via web nos torna partícipes das ações dos nossos pares, por outro ela exige que canalizemos a enxurrada de informações para que o virtual o seja no sentido etimológico do termo: aquilo que tem potência para ser. Se o espaço virtual, avenida sobre a qual transitamos, for traduzido a partir do sentido corriqueiro e vulgar que imprimimos a ele (irreal, inexistente) corremos o sério risco de fazer dos nossos suportes de comunicação na rede um anti-vírus para as novas formas de solidão política, sem vinculação com os espaços físicos de onde um dia nos instituímos e dos quais, às vezes, parecemos nos apartar. Finquemos raízes. [email protected]ção para [email protected] nós!

Rosane Borges