S. Paulo – Na mesma semana em que o cineasta carioca Flávio Leandro fez críticas contundentes a omissão de entidades e a órgãos públicos, segundo ele, omissos e ausentes em relação às demandas da população negra brasileira, a artista plástica, pesquisadora e educadora, Renata Felinto, uma das idealizadoras da manifestação “Paixão de Cláudia” que acontece nesta sexta-feira da Paixão (18/04), em S. Paulo, disse que o movimento negro ligado a partidos e grupos de poder "possui discursos e ações que estão distantes das realidades dos negros e negras” e que as ações como a que será promovida “só parece possível para quem não tem vínculos partidários”.

Quando perguntada que entidades estão apoiando o ato de protesto em homenagem a Cláudia Ferreira, a mulher da favela da Congonha, no Rio, morta no mês passado e arrastada por uma viatura por policiais, ela respondeu: “Nenhuma”.

E acrescentou: “Nós estamos patinando, estamos na lama (…). Estamos no “salve-se quem puder”, cada um vendo o que interesse à sua entidade, que alianças podem ser feitas para beneficiar a si próprios, o que se ganha e se recebe em troca de determinados favores, um trabalho que não está sendo pensado para a população negra, salvo raras exceções. Precisamos de líderes, de pessoas que não tenham receio de quebrar com seus partidos (…) que a bandeira seja a nossa ancestralidade que não pensem em se autobeneficiar, que estejam lá por todos, românticamente por idéias e avanços”, destacou.

A manifestação, de caráter político-cultural, que está sendo convocada pelas redes sociais e no boca à boca, acontece a partir das 14h, com concentração em frente à Igreja Nossa Senhora da Consolação, na Avenida Consolação, terminando em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos HOmens Pretos, no Largo do Paissandu, onde está a estátua em homagem à Mãe Preta. Os participantes estão sendo convidados a se vestirem de preto e a carregarem rosas verlhas.

Felinto é artista visual, pesquisadora e educadora, doutoranda em Artes Visuais pela Unesp, com formação em Curadoria e Museus de Arte pela Universidade de S. Paulo (USP). Foi educadora e coordenadora do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida ao jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress.

Afropress – Como surgiu a idéia de promover a manifestação "Paixão de Cláudia" nesta sexta-feira santa?

Renata Felinto – Quando a Claudia da Silva Ferreira veio à óbito de uma forma horrenda, fiquei muito chocada e, ao mesmo tempo, observando a naturalidade com que a grande mídia e a sociedade civil estavam aceitando essa situação. Era o limite de agressões constantes que nós negros sofremos diáriamente. Só neste ano, um adolescente amarrado nu a um poste como numa aquarela de Debret do século XIX; depois um moço preso por dias “por engano”; e para fechar de forma bárbara, uma mulher negra baleada acidentalmente, socorrida pela PM e arrastada por 350 metros. Uma mãe de família, que criava quatro filhos e mais quatro sobrinhos, uma guerreira, uma lutadora e a imprensa notificou esse acontecimento, tal qual um fato corriqueiro. Manter o silêncio seria aceitar essa atrocidade como algo corriqueiro e não o é.

Poderia ter sido com uma mulher da minha família, com uma amiga, comigo, entretanto, foi com uma desconhecida, mas que está na mesma labuta que eu e muitas diariamente, na verdade, numa labuta mais brutal ainda cotidianamente dado o contexto do local onde ela vivia com os filhos e o marido.

Fiz um chamado no coletivo de mulheres negras que existe numa rede social e houve uma grande discussão e adesão inicial. Estendi esse convite no meu perfil e convidei as pessoas a se reunirem para pensarmos na data da Paixão de Cristo, tendo a Claudia como uma espécie de Cristo, como se o que lhe passou fosse o ápice das torturas e violências que nós, negros e, especialmente negras, estamos sujeitos nessa sociedade contemporânea e demagógicamente democrática.

Como a Igreja enquanto instituição, opina em assuntos de menor relevância e em fatos como estes silencia, se esquiva, a data da Paixão de Cristo era a adequada, mas como “Paixão de Cláudia”. Mulher preta, mãe preta, mais uma mãe preta num país criado às custas das mães pretas. Quem vai ressuscitar depois? O povo negro e nossos aliados coloridos, sejam eles brancos, mestiços, amarelos, vermelhos. Vamos ressuscitar enquanto consciência de coletividade, enquanto ato da sociedade civil negra, que se manifesta por meio da arte, arte como instrumento de conscientização que sempre foi.

Pensei também nesta data por ser feriado, não queremos problemas de entraves na cidade, não somos vândalos e nem queremos nenhum tipo de rótulo do tipo ou transtornos. Desejamos nos expor, mostrarmos nossas caras negras, que existimos e estamos aqui observando esse genocídio e não o aceitamos.

 Afropress – Quais as entidades e coletivos que efetivamente estão participando da convocação da manifestação?

RF – Há muitos artistas e ativistas que não estão necessariamente ligados a pessoas jurídicas. Mas podemos citar alguns nomes, tanto das pessoas físicas, quanto das jurídicas, porque muitas vezes elas trabalham na entidade “x”:, mas isso não quer dizer que essa entidade nos apóie oficialmente.

Assim, o Instituto Feira Preta, da Adriana Barbosa tem nos apoiado cedendo documentações que precisam ser concedidas por uma associação e não por uma empresa como inicialmente a Cubo Preto Ensino de Arte e Cultura, que estava à frente disso. O Adriano José trabalha para o Instituto Feira Preta e para a Cubo Preto e tem amplo conhecimento de tais trâmites. A Ação Educativa tem cedido seu espaço para reuniões, assim como o Estúdio Morro do Roni Hirsch e da Paula Salvatore. Algumas das mulheres do Blogueiras Negras como a Dara Ribeiro, a Kaísa Isabel e a Paola Ferreira estão auxiliando e trabalhando ativamente. O Negraiz Rosa que atua junto à Fundação Bob Marley. O Vinicius Almeida que faz parte do Coletivo Arrua. O Nabor Júnior fundador da revista O Menelick 2ºAto. O Lau Francisco e a Semayat Oliveira a partir da Rede de Empreendedores Negros Kultafro, da qual muitos de nós fazemos parte, ainda que ela esteja atuando mais lentamente neste momento, continua a representar uma iniciativa espetacular tocada pelo Luiz Paulo Lima e pelo Lau Francisco com afinco. A Juliana Gonçalves que trabalha na CEERT. A Olyvia Bynun, a Janaina Barros, o Wagner Viana, a Natália Marques e a Ana Zumas que são artistas visuais. A Casa das Caldeiras que cederá seu tablado para as apresentações.

A equipe do gabinete do deputado federal Paulo Teixeira que está apoiando com a impressão de material gráfico e, se houver tempo, se a burocracia permitir,  com equipamento de som e transporte. E tem um núcleo fundamental nessa organização que é a artista visual Larissa Glebova, a designer Nina Vieira, ligada ao Manifesto Crespo e Taisa Souza criadora da Roda da Mãe Preta.  

Ressalto os vários artistas que se apresentarão gratuitamente e em condições não ideais porque ainda não temos algumas questões fundamentais contratadas, como é o caso do Vitor da Trindade e de seu filho Zinho Trindade, do grupo Ilú Oba De Min, que foi o primeiro a aderir ao ato e é formado por mulheres, as poetas Tula Pilar, Elizandra Souza e Jenyffer Nascimento, o grupo Sambaqui, a Cia Sansacroma, a pesquisadora e dançarina Luciane Ramos, enfim, há muitas pessoas envolvidas, nem conseguirei citar todas, mas basicamente são cidadãs e cidadãos.

 Afropress – Que entidades do movimento negro tradicional estão apoiando?

RF – Eu afirmaria que nenhuma. Quando se trata de movimento negro brasileiro contemporâneo neste ato cultural, como podemos observar a partir dos nomes citados, são grupos e pessoas totalmente novos. Gostaríamos muito de ter tido o apoio das entidades tradicionais do movimento negro. Mas temos um enorme problema acerca do qual, talvez, eu nem consiga tratar e explicitar bem porque eu nunca estive efetivamente conectada a nenhuma dessas entidades porque sempre discordei de algumas posturas.

Portanto, não sei bem a maneira como elas operam em se tratando dos negros da sociedade civil, pois o que vejo são diálogos truncados entre as próprias entidades, nem conexão nenhuma com a negra e o negro comum que não está vinculado à tais questões de forma consciente.

 Afropress – Como você está vendo o movimento negro brasileiro no momento atual e como vê a existência de uma ala chapa branca e governista que faz o papel de porta-voz dos Governos e dos partidos?

RF – Fica evidente, a partir desse ato cultural, que há uma questão a ser resolvida dentro do próprio movimento negro cujas entidades que o compõem não têm se mobilizado efetivamente, nas ruas, nos espaços públicos, conseguindo aliadas e aliados, trazendo à público a discussão de como nós negas e negros somos tratados pelo Estado brasileiro em nossas necessidades e especificidades.

Como uma pessoa homossexual mesmo pouco politizada adere à Marcha LGBT e uma pessoa negra na mesma condição acerca de sua identidade não adere ao movimento negro? O movimento negro possui discursos e ações que estão distantes das realidades dos negros e negras.  Tanto a linguagem quanto a atitude e atuação precisam ser renovadas e ainda não se percebeu que um desses motes de renovação é via cultura, via arte.

Há muitos artistas negras e negros pensando a nossa condição histórica por meio da música, das artes visuais, da dança, das artes cênicas, da literatura. O movimento negro e, muito possivelmente, a sociedade de maneira geral, não se deu conta de que as expressões artísticas, para além dos muros invisíveis dos museus, institutos, centros culturais, constituem-se como formas de pensamento que são protestos também.

A arte é o que fica da humanidade. Veja os legados das grandes civilizações, dos grandes povos, ele se materializa pela arte. E ela é sim uma importante ferramenta na construção dessa consciência negra, não somente no sentido do panfletarismo, mas da poesia também, da contemplação, da discussão, etc.

Não gostaria de adentrar nesta questão absolutamente política partidária, que envolve apontar os problemas dentro do atual Governo, da oposição e da situação, até porque sabemos que isso nem existe mais. Se é para falarmos de governos e de líderes, gostaria de lembrar apenas que nosso último grande líder ficou lá no século XVI e seu nome era Zumbi. Ainda, ou melhor, só rememoramos Zumbi e, vez ou outra, alguém se lembra de João Candido.

Para além deles, temos importantes nomes negros, pensadores e artistas, não conseguimos citar um nome de líder negro com peso no âmbito político.

Entretanto, a pergunta se refere à política, e nos Estados Unidos há um tal de presidente negro chamado Barack Obama, antes dele teve um tal de Malcom X, antes um Luther King, enfim, o século XX e XXI está acontecendo para o movimento negro estadunidense.

Nós estamos patinando, estamos na lama atolados e sem conseguir sair dela, até porque os irmãos aqui não estão estendendo as mãos uns para os outros, estamos no “salve-se quem puder”, cada um vendo o que interessa à sua entidade, que alianças podem ser feitas para beneficiar a si próprios, o que se ganha e se recebe em troca de determinados favores, um trabalho que não está sendo pensado para a população negra, salvo raras exceções, isso apesar de avanços como cotas raciais terem sido uma excelente conquista, mas que ainda não chegou às maiores universidades públicas do país.

Precisamos de líderes, de pessoas que não tenham receio de quebrar com seus partidos, e se quebrarem que outros negros e negras os apóiem, se mostrem irmãos, que a bandeira seja a nossa ancestralidade que não pensem em se autobeneficiar,  que estejam lá por todos, romanticamente por idéias e avanços, e como podemos ver isso, no movimento negro, isso só parece possível para quem não tem vínculos político partidários.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

RF – Salve, Cláudia, salve sua família negra batalhadora, sobrevivente como a minha, como a de muitos outros negros e negras. Não era para estarmos aqui. O projeto de imigração européia, uma série de leis que nos oprimiam e violentavam a nossa cultura herdada, como diz Makota Valdina, “nossos modos negros de ser e de viver”, contudo, aqui estamos.

Ainda citando essa sábia, essa mulher maravilhosa que esse país não conhece, “com o poder nas mãos, o que vamos fazer? Faremos que nem os brancos?”, algo assim. O que faremos quando tivermos com o poder nas mãos? Tudo do mesmo jeito? As entidades do movimento negro têm feito tudo do mesmo jeito.

Gostaríamos de agradecer a todos que acreditaram nessa ideia, simplesmente porque tão quanto ou mais indignados do que nós, os organizadores. Tenho um doutorado para terminar, uma casa e um filho pequeno para criar, pão para ganhar e não é possível que pessoas que têm muito menos a fazer diáriamente não tenham algum tempo para pensar e agir coletivamente. Ah, isso tudo o que disse, alguém vai ler e dizer: “tinha que ser artista”. 

 

Da Redacao