Gurupi/TO – O promotor Ricardo Alves Domingues, da 1ª Promotoria de Justiça de Criminal de Gurupi – a terceira maior cidade do Tocantins – denunciou à Justiça, os estudantes Guilherme Augusto Renovato dos Santos, 23 anos, e João Vitor Alves de Castro, 21 anos, ambos alunos do Curso de Odontologia da Universidade Regional de Gurupi (Unirg), por injúria racial, com base nos artigos 140 e 141, do Código Penal.
Os dois, que já passaram cerca de 72 horas presos em flagrante, são acusados de agressão racista contra a médica angolana Arminda Mateus Vandunen. Se condenados, poderão pegar penas que variam de 2 a 3 anos de cadeia. A denúncia está sendo apreciada pelo juiz da 1ª Vara Criminal Eduardo Barbosa Fernandes.
O caso ocorrido no dia 10 de dezembro do ano passado, demonstra que a violência com conotação racial contra africanos radicados no Brasil é muito mais comum do que sugerem os casos que, esporadicamente, ganham visibilidade, como foi o atentado contra os estudantes africanos da Universidade de Brasília (UnB).
A médica angolana Arminda, no Brasil desde 1.993, dava plantão quando foi surpreendida por um grupo de estudantes, filhos de famílias influentes na cidade, que acompanhavam um colega que precisava ser medicado por excesso de álcool. Descontentes com o fato de serem atendidos por uma médica negra, passaram a questionar os procedimentos. “Negra macaca, esse remédio vai matar o nosso amigo. Você nem tem cor para saber o que está fazendo. Onde está o teu CRM, você nem é médica”, passaram a ofender alguns, enquanto outros tentavam agredi-la fisicamente.
Agressão racista
A Polícia foi chamada, porém, as atitudes agressivas continuaram. “Cadê a Polícia. Você vai ver de quem somos filhos. Com a gente não acontece nada”, afirmou o grupo, composto por filhos de famílias influentes na cidade.
Na mesma noite a Polícia prendeu em flagrante João Vítor. Guilherme, o outro agressor foi preso em seguida. Ambos ficaram detidos na cadeia pública da cidade por dois dias, quando foram liberados mediante o pagamento de fiança. O caso ganhou grande repercussão repercussão e visibilidade na mídia, segundo conta Osvaldo Vandunen, estudante de Direito, também angolano, marido de Arminda. “Minha mulher chegou chorando em casa”, conta ele”, lembrando o episódio.
Vandunen espera que a Justiça aceite a denúncia e que os agressores sejam condenados, porém, acrescenta que, a ação firme que ele e a mulher tiveram foi decisiva para que o caso não fosse abafado. “Estamos confiantes na condenação, mas só o fato de já terem passado dois dias na cadeia, demonstra que agimos corretamente, não aceitando o deixa pra lá…”
Ele afirmou que não é a primeira vez que acontecem incidentes desse tipo envolvendo sua mulher. Em Cristalândia, outra cidade do Tocantins onde viveram, uma paciente chegou a afirmar que “preferia ser atendida por um cão do que por essa negra tifu (carvão)”. O caso também foi parar na Justiça e a agressora teve de se retratar.
Faixas arrancadas
Esta semana, duas faixas (foto ao lado) com a denúncia do caso, colocadas em frente à casa onde mora no centro do Gurupi, foram arrancadas de madrugada por racistas. Ele garante que serão novamente colocadas porque a sociedade precisa abandonar a passividade e tolerância com esse tipo de crime.
“Nós chegamos a cogitar da possibilidade de sair de Gurupi e do Brasil. Mas, não vou meter o rabo entre as pernas e fugir. Não vamos fazer isso. Vamos ficar e buscar os nossos direitos”, finaliza.

Da Redacao