Esta é a idéia da Muambazar que, em junho, iniciou suas atividades, numa parceria com a Afropress – Agência Afroétnica de Notícias – por onde anuncia o seu catálogo de produtos exclusivos.
“Sabemos que existe um incipiente comércio nessa área, mas queremos fazer a diferença, inclusive pelo comprometimento que temos com a sustentação do projeto Afropress”, afirma a jornalista Dolores Medeiros, ex-TV Bandeirantes e TV Record.
A preocupação com a pedagogia que pretende desconstruir o significado depreciativo de palavras africanas, por conta do racismo e da cultura discriminatória, começa com o próprio nome Muambazar. Muamba é uma palavra que tem origem na língua Quimbundo falada em Angola, “muhamba” e significa “cesto comprido para a condução de cargas em viagem”, “carreto”, de acordo com Nei Lopes, em Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana.
Na acepção moderna, passou a significar contrabando de mercadoria, coisa ilícita, em função do racismo. A mesma deformação aconteceu com outras palavras de origem africana, como por exemplo, Zumbi, que, no quimbundo vem do “nzumbi”, “espírito”, “aquele que nunca morre”, passou a significar “morto vivo”.
Loja na web
Segundo ela, a idéia da loja étnica na web surgiu depois de observar – como coordenadora de redação da Afropress – a dificuldade das pessoas encontrarem produtos africanos – especialmente tecidos. “Apesar da África estar fortemente em nós na origem – e como matriz fundamental do povo brasileiro – há um grande desconhecimento das coisas da África. Essa situação vem mudando, é verdade, com a intensificação das relações com ao países africanos, porém, há ainda uma grande dificuldade, por exemplo, em encontrar tecidos, que são excepcionalmente bonitos, mas que nós não usamos”, salienta.
Segundo a jornalista, a intenção é utilizar o comércio para, pedagogicamente oferecer informação e conhecimento. Nessa linha as bolsas confeccionadas com tecidos africanos pela artesã carioca Fátima Rosa, levam nomes dos países do continente, como Botsuana, Nigéria, Gana, entre outros, sempre com a explicação a respeito da localização, geografia, e cultura do referido país. Os produtos que vem da África estão sendo trazidos por parceiros como Surama King, brasileira que vive em Acra, capital de Gana.
Bonecas
As bonecas negras foram confeccionadas por Andréa Ramos, com base na pedagogia Waldorf, são totalmente diferenciadas pelo fato de respeitarem e estimularem a imaginação da criança, sem a reprodução fiel das particularidades da figura humana, mas deixando para a fantasia infantil, a atividade criadora, simplesmente sugerindo possibilidades, como por exemplo, de fisionomia.
Confeccionadas de forma artesanal, com a utilização, inclusive no enchimento, de materiais inteiramente natuarais, a proposta é familiarizar a criança com o mundo natural por meio de seus materiais, nos quais ela aprende a reconhecer cor, textura, forma, peso. “Brincar com bonecas ajuda a criança a conhecer o meio ambiente. Para que possamos ter uma sociedade que respeite a diversidade, é preciso que crianças negras e não negras tenham acesso a bonecas de todos os tons de pele com que ela irá se relacionar no seu dia a dia, desenvolvendo assim o respeito pelas diferenças”, acrescenta a jornalista.
Livros
Na biblioteca da Muambazar professores, ativistas e ou interessados na temática étnico-racial brasileira, poderão encontrar livros de estudiosos e pesquisadores como Nei Lopes (Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana), Leila Leite Hernandes (A África na Sala de Aula), Eliane Cavaleiro (Racismo e Anti-Racismo na Educação) e Elaine Nunes de Andrade (Rap e Educação – Rap é Educação), entre outros da Coleção Selo Negro da Editora Summus, de S. Paulo.
Em breve também estarão disponíveis, a obra do cientista social e etnólogo Carlos Moore, ex-assessor de Malcolm ex, que vive na Bahia, exilado por subversão racial pelo regime cubano, e que é publicado pela Editora Nandyala, de Belo Horizonte.
Segundo a jornalista, mais do que comércio com a intenção de levar informação e conhecimento sobre as coisas da África, a Muambazar trabalha com o conceito do comércio justo. “Nosso propósito é trabalhar em rede, em parcerias, com produtores (as) independentes, sem exploração do trabalho, mas com a preocupação de estimular a atividade empreendora e gerar emprego e renda”, afirma.
Isso envolve, de acordo com ela, a possibilidade de novos autores, com produções independentes terem na Muambazar mais um espaço para divulgação e venda das suas obras.
Como parte dessa filosofia, a Muambazar se propõe a integrar o projeto de sustentabilidade da Afropress como mídia autônoma e independente, e, parte do dinheiro da venda dos produtos vai para a sustentação da Agência – a única no Brasil que há cinco anos, leva informação sobre a temática étnico-racial brasileira.
“Na compra de cada produto, o comprador também estará ajudando a manter no ar o jornalismo independente da Afropress que hoje é lida no Brasil e no mundo por pesquisadores, professores e ativistas e por todos os que lutam por um Brasil sem racismo e com igualdade de oportunidades para todos”, finaliza.
Entre e confira: www.muambazar.com.br