No caso do Brasil, os brasileiros não se esquecem da forma pouco fraterna como os seus profissionais, particularmente os dentistas, foram tratados em Portugal na década de 90, apesar de reconhecidamente qualificados.
Eis agora o ministro Paulo Portas (PP) no Brasil com um discurso hipócrita, completamente contrário ao que ele e seu espectro político defendiam nos anos da ”vaca gorda”, alimentados pelos enormes fluxos de dinheiro nos anos seguintes à adesão de Portugal à CEE, agora UE.
Dinheiro púbico mal aplicado por sucessivos governos portugueses posteriores a 1986, como hoje se constata duramente. Um discurso agravado por uma chocante firmeza ideológica populista nos anos recentes de ”vaca magra”, quase culpando os imigrantes por todos os males que atingem a economia portuguesa.
Lendo a entrevista de PP à Folha de São Paulo, publicada na edição online de 8 de setembro, à primeira leitura se pode concluir que os brasileiros sempre foram bem recebidos e acarinhados em Portugal e que tudo se fez para facilitar-lhes a vida.
Puro engano para quem desconhece os desenvolvimentos sócio-políticos em Portugal nos últimos 25 anos. Logo ele, Paulo Portas, líder do CDS-PP, partido da atual coligação governamental de centro-direita em Portugal que, no tema imigração, teve sempre um discurso excessivamente meritocrático e duro, por muitos considerado até xenófobo e de instigação ao racismo e ao ódio social.
Se dependesse dos critérios ideológicos do ministro Portas no tocante à política de imigração, os mais de 100 mil brasileiros, na sua esmagadora maioria não qualificados e muito menos altamente qualificados, certamente não constituiriam hoje a maior comunidade de estrangeiros em terras lusas.
Este fator numérico talvez justifique o fato de os brasileiros terem a percentagem maior dos residentes estrangeiros que mais reclamam de preconceito e discriminação racial, não pela cor da pele ou a etnia mas, pela simples condição de estrangeiros. A seguir estão os africanos, principalmente os cabo-verdianos, de acordo com a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial.
Para além da famosa discriminação aos dentistas na década de 90, apenas uma questão de protecionismo no entender de PP, pessoas altamente qualificadas como advogados e médicos brasileiros também encontraram muitas dificuldades com os vistos de entrada e permanência para atuar profissionalmente em terras lusas.
Ficou famoso o caso dos médicos brasileiros Maurício Milet, cirurgião plástico, e José Barros de Brito, pediatra, que recorreram a greves de fome em 2001 e 2003 por terem ficado mais de 6 anos num hospital de Braga sem poderem trabalhar nas suas especialidades, apesar de terem os títulos reconhecidos, tanto pela Ordem dos Médicos como pelo Ministério da Saúde de Portugal.
Também um movimento, Mães de Bragança, surgido em 2003 de revoltadas mulheres portuguesas se organizou em ações de protesto para expulsar daquela cidade as brasileiras prostitutas ”destruidoras de lares”, ligando qualquer imigrante recém-chegada à profissão de prostituta. O movimento contribuiu para o aumento do preconceito e discriminação da mulher brasileira, profissionalmente qualificada ou não, e para o reforço do estereótipo que a associa à prostituição.
Todavia, não se pode concluir, por esses e outros episódios menos felizes, que Portugal, no geral, trate mal os brasileiros. Assim fosse e eles não seriam indiscutivelmente a maior comunidade de estrangeiros a residir naquele recanto do sul da velha Europa que, goste-se ou não, deu o Brasil ao mundo.
No caso de Angola, Paulo Portas, quando na oposição, sempre foi um crítico aberto e feroz tanto aos seus Governos quanto ao Governo angolano. Entre as suas críticas destaca-se uma de 2002 em chegou a acusar o então Governo de José Sócrates de falta de «pudor e decência» em receber o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos como se este fosse um democrata e não o mandante de um crime (morte de Jonas Savimbi) e como se não dirigisse um país onde a elite governante esbanja opulência, luxo e riqueza enquanto o povo está entregue à fome e à miséria.
Assumindo a pasta dos Negócios Estrangeiros, como ministro lembrou-se repentinamente que o ”indecente” dinheiro angolano é essencial para manter empregos em Portugal.
PP não perdeu tempo para se redimir assim que a atual coligação de centro-direita (PSD/CDS) que ”governa” Portugal (quem de fato governa é a ”troika” formada pelo Fundo Monetário International, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) tomou posse em junho de 2011.
No mês seguinte viajou para Luanda a fim de tratar da facilitação de vistos de entrada e permanência de cidadãos dos respectivos países. E, pasmem: apertou de forma tanto calorosa quanto subserviente as mãos alegadamente corruptas e sujas de sangue do ditador que dirige Angola, como ele mesmo sugeriu.
É demais esse ”Paulinho das feiras”, alcunha que o tornou igualmente famoso pela forma populista com que elegeu as feiras ou mercados populares como pontos de excelência para as suas campanhas eleitorais.
Talvez nas tais andanças o ministro, líder do pequeno partido mais à direita entre os principais do espectro político português, tenha adquirido as famosas ”competências adquridas” que agora podem valer, em Portugal, um grau acadêmico, dependendo de certos critérios e influências.
No caso de PP, se ele precisasse recorrer a esse controverso expediente acadêmico, o título que melhor poderia ser-lhe concedido por competência adquirida, com distinção, seria o de pragmatismo populista. O homem é, na verdade, um distinto praticante da realpolitik bismarquiana, aquela que coloca os interesses económicos acima da ética e da moral.
Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro e resta agora a quem recebe ter sentido de Estado, receber de braços abertos, e não cair no mesmo erro político e na armadilha em que os portugueses cairam por culpa dos sucessivos Governos pós-1986, quase todos de cartilha neo-liberal.
Sentiram-se e agiram como novos ricos, viveram ou foram levados a viver muito acima das suas realidades e agora o país e o povo pagam uma fatura demasiado alta. Para milhares, já nem existe a predisposição para grandes protestos ou levantamentos sociais como na Grécia ou na Espanha. O caminho, como um triste fado, é o resignado e doloroso de sempre: pegar na trouxa e partir.
Porém, tal como as tempestades da natureza, as crises, estabilidades e instabilidades econômicas e financeiras são geralmente cíclicas e mais ou menos transitórias ou prolongadas, dependendo da localização geográfica e da robustez de cada economia.
Hoje, uns têm o feitiço da bonança econômica e financeira. O importante é saber usá-lo em seu próprio benefício e no dos que dele necessitam. Amanhã pode chegar a vez dos que hoje nada têm e, como quase sempre, amor com amor se paga.
Lembro-me quando Mário Soares, então Presidente da República, alertava para a forma pouco fraterna como os estrangeiros, principalmente os cidadãos lusofónos eram tratados em Portugal. Uma visão de um estadista experimentado que sabia que um dia poderiam ser os portugueses a fazer o percurso em sentido contrário. Acertou em cheio o ex-Presidente socialista.
Recordo Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, quando, perante a fuga massiva dos portugueses em 1975, talvez lembrando um dos seus mais famosos poemas, ”Havemos de voltar”, prenunciou num dos seus discursos: eles vão, mas eles hão-de voltar. Acertou em cheio o poeta e guerrilheiro.
E agora senhor ministro?

Alberto Castro