A recente decisão do STF, que considerou constitucional a política de cotas, em resposta ao questionamento dos herdeiros e descendentes de donos de escravos, abrigados no Partido Democratas, que a questionavam, representou uma extraordinária vitória do povo negro brasileiro (e de todas as pessoas que lutam e sonham por um país sem racismo).
Sabemos, contudo, que as cotas não representam um fim em si, e têm caráter provisório, objetivando corrigir distorções resultantes da discriminação histórica a que homens e mulheres negros foram submetidos em nossa sociedade. Compreendemos, ainda, que as cotas não dão conta de combater a discriminação racial nas suas várias dimensões.
Parte dos nossos jovens, que ingressaram nas universidades através das cotas, já estão se formando (muitos com aproveitamento e notas superiores às dos não cotistas, diga-se de passagem).
E mesmo assim, muitos não conseguem empregos nas suas áreas pela simples razão de que o mercado é racista.
Em recente seminário promovido pelo INSPIR e pelo Solidarity Center – escritório brasileiro da AFL-CIO, central sindical americana, co-fundadora do INSPIR – pudemos constatar mais uma vez o nível da discriminação racial no mercado de trabalho. DIEESE, OIT, Instituto Ethos e Ministério Público do Trabalho, que gentilmente enviaram técnicos para contribuíram em nosso seminário, foram unânimes em comprovar que o mercado de trabalho hierarquiza seus trabalhadores com base na cor da pele e no sexo. Tanto na contratação, promoção e dispensa, como no salário pago e nas oportunidades de qualificação.
Em que pese toda a crise internacional, o Brasil que, há quase uma década acertadamente investiu no mercado interno e na inclusão social, está gerando empregos em proporções que causam inveja aos europeus, norte americanos e asiáticos (muitos amargam índices catastróficos de desemprego em seus países).
Em junho deste ano, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – CAGED, foram criados 120.440 novos postos de trabalho, contribuindo para o total de 1.047.914 vagas abertas no semestre. Desde que a presidenta Dilma assumiu já foram criados mais de três milhões de empregos.
Ou seja, estamos vivendo um momento privilegiado para exigirmos do setor patronal isonomia salarial entre brancos e negros; maior absorção da mão de obra negra em todos os níveis hierárquicos e políticas de promoção da igualdade racial no interior das empresas.
Entre os dias 8 e 12 de agosto acontecerá a Conferência Nacional do Trabalho Descente, em Brasília, momento único em que, na qualidade de sindicalistas que discutem a questão racial no mundo do trabalho, poderemos pautar nossas demandas.
O INSPIR pretende promover uma reunião com esses sindicalistas para acordar as principais propostas de interesse e apresentar seu Pacto Nacional pela Igualdade nas Relações de Trabalho, como contribuição ao debate.
A luta pela igualdade nas relações de trabalho sem sombra de dúvidas é uma das mais importantes trincheiras de luta do movimento sindical, bem como do movimento negro, em complementação e continuidade à luta por cotas. A bola está com os sindicatos, com as centrais sindicais, com o movimento sindical.
Precisamos todos, com unidade e determinação, comprometermo-nos com a luta por igualdade no espaço fundamental; para a sobrevivência e para integração social: o trabalho.

Ramatis Jacino