Salvador/BA – Maioria na população brasileira (51,4% de acordo com o Censo do IBGE 2010), as mulheres também são maioria no movimento negro e começam a reclamar maior espaço e visibilidade nos espaços de poder e decisão.
Reunidas durante o Encontro Ibero-Americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes que termina neste sábado (19/11), em Salvador, as mulheres lançaram Carta Aberta por meio do Fórum Nacional de Mulheres Negras em que denunciam que “os espaços de poder, continuam vedados às mulheres negras pelos mecanismos de exclusão de gênero e raciais” e reinvindicam “menos discursos e palavras e mais ação com a efetivação de políticas públicas.”
“Encontramo-nos, as mulheres negras, na base da pirâmide social, permanecendo em situação de desvantagem sócio-econômica, política e cultural, que mantém as mulheres negras abaixo da linha da pobreza, ostentando índices de desenvolvimento humano inaceitáveis. Esta situação nos coloca o desafio de empoderar e visibilizar as mulheres negras para combater o racismo e a misoginia e produzir as necessárias transformações sócio-raciais”, afirma a Carta.
Na entrevista concedida a Afropress no Hotel Tulip In, que hospeda parte dos participantes do Encontro, Ana José Lopes e Marta Cezária de Oliveira, coordenadoras do Fórum Nacional, disseram que a exclusão atinge especialmente as mulheres negras que estão fora do eixo Rio-S. Paulo, as quilombolas e as que vivem no campo.
“É visível que sempre são as mesmas nas mesas de conferências, debates e encontros como este. Não há mobilidade, falta democracia. Nós queremos mais espaço”, afirmaram.
Ana, que é adepta de religião de matriz africana, filiada ao PMDB de Mato Grosso, e Marta, que é freira, filiada ao PT de Goiás, dizem que a questão partidária jamais influenciou nas posições do Fórum e acrescentam que, muitas vezes, se sentem na condição de “apenas fazer número”. “Agente tem de parar de fazer número. Está acontecendo uma perda de qualidade, porque são sempre as mesmas pessoas falando as mesmas coisas”, finalizam.
Confira, na íntegra, a Carta lançada pelo Fórum Nacional de Mulheres Negras
Carta Aberta
Reivindica elaboração e efetivação das políticas públicas para mulheres negras
O Fórum Nacional de Mulheres Negras torna sua a trajetória de luta e resistência das mulheres africanas contra a violência e a escravidão, resistindo à opressão impetrada sobre elas, no seqüestro para a escravização, durante a trágica travessia do Atlântico, onde muitas se lançavam ao mar, na busca da liberdade.
As mulheres negras da América Latina e Caribe escravizadas buscaram, de forma contínua, a manutenção da sua dignidade, a continuidade das famílias negras, pela sobrevivência física e cultural da população negra, através da resistência cultural, do apego às tradições e da reverência aos antepassados, de uma espiritualidade de resistência.
O 3º Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado na Cidade de Belo Horizonte/MG, com a presença de 430 mulheres e jovens negras, deliberou pela criação de um espaço para troca de informações, formação e interlocução, como estratégia para produzir autonomia do movimento de mulheres negras, o Fórum Nacional de Mulheres Negras.
Atualmente as mulheres negras da América Latina e Caribe constituem-se em maioria da população, paradoxalmente são minoria nas representações políticas deliberativas e espaços de poder, que são vedados às mulheres negras pelos mecanismos de exclusão de gênero e raciais.
Encontramo-nos, as mulheres negras, na base da pirâmide social, permanecendo em situação de desvantagem sócio-econômica, política e cultural, que mantém as mulheres negras abaixo da linha da pobreza, ostentando índices de desenvolvimento humano inaceitáveis. Esta situação nos coloca o desafio de empoderar e visibilizar as mulheres negras para combater o racismo e a misoginia e produzir as necessárias transformações sócio-raciais.
Apresentamos as propostas do Fórum Nacional de Mulheres Negras para a região da América Latina e Caribe:
1. Retomar a participação na Rede de Latino-americana e Caribenha de Mulheres Negras;
2. Efetivar o dia 25 de julho, das Mulheres Latino Americanas e Caribenhas na agenda política internacional;
3. Garantir o protagonismo das mulheres negras da região na ação e no ativismo político;
4. Garantir a participação e visibilidade das mulheres negras nos espaços de poder;
5. Reivindicar a efetivação das leis de proteção à mulher negra;
6. Intensificar as propostas contra a discriminação e respeito à diversidade nos movimentos negros;
7. Reinvindicar o reconhecimento pelos Estados do tráfico transatlântico colonial de mulheres negras como crime de lesa humanidade, promovendo campanhas na região Latino Americana e Caribenhas;
8. Exigir dos Estados a reparação aos danos causados às mulheres negras e toda a população afro-descendente;
9. Realizar o mapeamento da situação das mulheres negras da América Latina e Caribe , para construção de uma plataforma política com a finalidade de combater as desigualdades sociais, econômicas, culturais, políticas, ambientais e educacionais;
10. Reivindicar apoio para realização do Encontro Internacional das Mulheres Negras da América Latina e Caribe;
11. Pautar a reforma política exigindo equidade para mulheres e mulheres negras, inclusive com o financiamento público das campanhas;
12. Defender a criação, manutenção, fortalecimento e ampliação dos órgãos de gestão das políticas de promoção da igualdade racial em toda a América Latina e Caribe;
13. Exigir a manutenção da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, no Brasil.
FÓRUM NACIONAL DE MULHERES NEGRAS

Da Redacao