A história do povo brasileiro deve ser ressaltada, para que estejamos sempre atentos às armadilhas preconceituosas, promovidas pelos meios de comunicação e pelas empresas que, no afã de vender seus produtos, desrespeitam a maioria dos brasileiros (97 milhões de negros, censo 2011- IBGE).
Com a escrava, submissa pela sua própria condição étnica e social, podia-se “fazer tudo” – as negras eram usadas, abusadas e descartadas, quando necessário. Debret, citado por Florestan Fernandes, em “Brancos e Negros em São Paulo”, viu certos senhores regularem a vida sexual dos seus escravos reservando uma negra para quatro negros. Muitos senhores iam além, no abuso sexual contra as mulheres negras: obrigavam-nas à prostituição e conseguiam muita renda com essa atividade.
Após uma boa leitura de relatos históricos, pode-se imaginar o massacre, a que foram submetidas às escravizadas e seus descendentes. A estratégia desumana usada contra o povo negro foi tão eficaz, que até hoje sente-se o efeito e não se sabe até quando isso perdurará. A mulher foi, especialmente, oprimida nesse contexto.
As “negras forras”, não tinham outro recurso para sobrevivência, senão a venda do próprio corpo. As chamadas “negras de tabuleiro”, constantemente retratadas nas gravuras de Rugendas e Debret, como partes do cenário das Minas Gerais, no ciclo de ouro, mulheres, que reprimidas e oprimidas, não vendiam somente as frutas, quitutes e refrescos de seus tabuleiros, mas, acabavam por se prostituir, muitas vezes arrastando atrás de si, as filhas e assim, perpetuando uma trágica história de degradação da imagem da mulher negra.
Segundo Nabuco (1988), a ação escravista dissolveu a família. “Destruiu a dignidade do pai, oprimiu o futuro do filho e violou a honra da mãe, tentando apagar o amor da sua vida. A filha, ainda na impuberdade, era usada como objeto de prazer de seus senhores e mais tarde, gerava filhos dos quais, só era mãe por tê-los dado à luz”.
Cabelo, para a mulher negra, sempre foi o “Calcanhar de Aquiles”, pela sua especificidade. Quando a mulher negra não tem a autoestima elevada, a ponto de usar seus cabelos da forma que melhor lhe convém e deseja, se transforma em refém dos produtos e métodos alisadores disponíveis no mercado, muitas vezes, causando danos irreparáveis ao cabelo e ao couro cabeludo.
Um dos fatores de maior relevância está na infância: crianças negras são constantemente xingadas de “cabelo de bombril”, pelos os colegas, no ambiente escolar. Vítimas da prática de Bulliyng, com recorte étnico, que causa efeitos devastadores no campo psicológico da criança, que a acompanha por toda a sua vida. Portanto, historicamente, ações irresponsáveis relegam a mulher negra à condição de inferior, por sua etnia, simplesmente.
Ratificamos o nosso repúdio ao comportamento da empresa e reiteramos a nossa posição para que repense sobre a referida campanha e quando for produzir peças com recorte étnico, consulte antes representantes da comunidade envolvida, correndo o risco de prestar um desserviço, sofrer sanções legais e boicote aos produtos.
Lembramos, ainda, que outras empresas que praticaram atos semelhantes se redimiram do erro, de acordo com a forma supracitada.
Cabe ressaltar que o departamento de marketing dessa empresa não está atento às mudanças no comportamento dos consumidores; ignora a diversidade étnica brasileira e pratica uma política excludente, invizibilizando a imagem do negro em seus produtos.
Um indivíduo pode ser sensível às causas alheias, pode ser sensível à dor do outro, mas, não pode sentir a dor do outro.

Eufrate Almeida