Ser Negro no Brasil é, como já sabemos, uma posição política consciente das questões de raça e classe, principalmente nesses tempos de afirmações ideológicas, em que ser a favor de cotas é, em ultima instância, reeditar a campanha abolicionista ou ainda ameaçar a democracia racial brasileira.
Por isso, a atualidade do Museu Afro Brasil, em São Paulo, é reveladora do que podemos invocar, através do seu acervo, como a matriz africana e o povo dela resultante compõem a imagem, o som e o ser brasileiro.
Pensado de forma dinâmica, o Museu Afro Brasil não é um museu do negro, mas sim um espaço cujos arranjos históricos e museu lógicos evidenciam a profundidade da importância dos negros na constituição do país.
Espaço raro, pensado e dirigido por um negro, evidencia através de seu acervo, a sensibilidade histórica de Emanuel Araujo, responsável pela visão diferente de museu que orienta o Afro Brasil, mas que, no entanto, como a maior parte de iniciativas que contemplam a presença negra em nossa precária democracia racial, encontra-se vez por outra, com a sua existência ameaçada.
Por que isso acontece e como acontece são algumas das questões que pretendemos discutir.
A importância do Museu Afro Brasil na reinterpretação da História, da Estética e da Educação dos Negros Brasileiros.

A presente comunicação é um primeiro passeio pelos caminhos da identidade e da estética formadoras da imagem do que acreditamos ser o brasileiro. Nossa caminhada deve dar-se sempre com os pés no chão e tendo como medida mais geral, a concepção da sociedade como espetáculo, combinada de forma desigual com as relações sociais capitalistas que informam e formam sobre a chamada brasilidade, a partir do binômio raça e classe, entendidos os dois na sua dimensão política, portanto, não cabendo aqui aprofundamento teórico sobre a utilização do conceito raça.
Fomos acostumados, por meio da escola e, posteriormente, através dos veículos de comunicação de massas, a pensar o lugar do negro, na sociedade brasileira, como o lugar da exclusão, da não representação, da fantasmagoria e do exótico. Fomos acostumados e quase nos acomodamos aos lugares para os quais fomos empurrados.
O senso comum representa os museus como espaços de conhecimento congelado, o que já foi e merece ser guardado, e indo um pouco mais além, cultura expropriada. Espaço de preservação estética de objetos e história de civilizações submetidas. Enquanto os especialistas atribuem aos museus a tarefa de concretizar, sistematizando o conhecimento social, através de leituras e interpretações histórico- estéticas de realidades humanas no tempo e no espaço.
Com algumas exceções, os museus podem ser comparados com livros cujos textos são, majoritariamente, “coisas” concretas em que o nosso primeiro impulso é, geralmente, pegar, tocar, sentir ,me parece, para realizar a imagem e só assim registrar o real. Portanto, é na concretização que as coisas parecem se explicar melhor, pelo menos numa visão mais tradicional da história ocidental, que vê no registro escrito, a modalidade privilegiada da memória comunicacional.
Para um museu como o Afro Brasil, cuja perspectiva de construção é dinâmica e nasce em um tempo em que o conceito de museu passa por profundas mudanças, é necessário ir devagar com o andor, pois além do santo ser de barro, ele também é um orixá.
Somos todos sabedores da vocação institucional dos museus de registrar e historiar os acontecimentos sociais, dimensionados seja no grupo, seja no indivíduo e expressos por meio dos sons, sentidos, objetos, imagens, cores e materiais diversos veículos imediatos e estéticos da cultura. Logo, este texto não pretende aprofundar e muito menos esgotar um conceito cuja construção encontra-se em crise, ou melhor dizendo, em processo de transformação, mas sim contribuir para repensar o lugar de destaque de um museu cuja característica central é recontar, através de seu acervo, a história de uma das matrizes mais importantes da formação social brasileira.
Só os depoimentos e expressões que registramos de visitantes, desde a inauguração do museu Afro Brasil, durante esses quase dois anos de existência – o museu foi inaugurado em 23 de outubro de 2004-, já indicariam a premência de um trabalho específico sobre a importância histórica, estética e educacional que este museu tem e representa para os afrodescendentes, em especial, e para todos os brasileiros, tanto nas dimensões operacionais e técnicas, como também na perspectiva histórica do museu.
Entendemos como dimensões operacionais e técnicas, os procedimentos de registro oral das manifestações significativas que o museu e seu acervo provocam, mais aquelas, que devido à mesma natureza, contribuem para contextualização das imagens do acervo com uma informação sonora. A perspectiva histórica é processual.
Os depoimentos orais dados em forma de agradecimento pela existência de um museu que apresenta, com destaque, a memória e a história do negro brasileiro nas suas dimensões sociais mais significativas, comprovam o sucesso do empreendimento. O impacto desse museu no seio de uma cultura letrada, embora movida pelo som e pela imagem espetaculares, deve merecer a nossa atenção e cuidado, para não confundirmos a oralização comum a essa sociedade, com a palavra falada negro-africana e afro-brasileira.
É importante demarcar a diferença, pois a nossa sociedade, como já dissemos/escrevemos, é hoje baseada no espetáculo, como nos ensina Guy Debord.
Nesse tipo de sociedade, a imagem e o som, em movimento, criam signos dinâmicos e efêmeros, cujos conteúdos superficializados não se fixam na memória, transformando o tempo de contato com qualquer produto, em unidade de consumo. Aqui a palavra falada, com o seu som e sentido,aparece esvaziada de vitalidade, o que transforma a oralidade em modalidade de linguagem coletiva e generalizadora, presente em todas as sociedades, marcadamente, nas sociedades de massa.
O racismo, instituído há mais de 500 anos, constituiu-se com a formação social brasileira e, de forma plástica, “naturalizou-se” como o espírito das relações raciais no país e vulgarizou-se como sombra da expressão sonora e visual dessa mesma relação. Costuma-se dizer entre nós que “brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Entretanto, as máximas, as piadas e o uso das palavras mostram o contrário, o não-racista se defende, dizendo que “gosta de preto como se fosse branco”. “Deixou de ser branco para ser franco. E quando pego em um comportamento preconceituoso ou racista sempre afirma que não é nada disso, não pois “tenho, inclusive, muitos amigos negros” e outras preciosidades, cujos sentidos não deixam dúvidas.
Não é o amarelo ou vermelho que se opõem ao branco, mas sim o negro e é por meio de imagens animadas e espetacularizadas de maneira fugaz e sucessiva que a sociedade forja identidades, como se estivesse produzindo aparelhos de televisão, em série. É aqui que as imagens e a própria concepção estética do Museu Afro Brasil, transforma os sujeitos historicamente silenciados, em agentes significativos de um modo de pensar, ver e viver que diluiu o recalque imposto e seu transformou em matriz,como já dissemos, da brasilidade.
Os valores estéticos são massivos, projetos temporários da indústria cultural, logo, beleza, cor e desejo são produtos e dependendo de seus valores sociais, reservas estéticas comercializáveis.
Mas como estamos tratando com pessoas, expostas em vitrines efêmeras e realidades virtuais, é fundamental não esquecer que nos alicerceis desta sociedade, tecnologicamente avançada, está a escravidão e todos os valores que ela construiu e destruiu, a começar pela imagem, concretização da identidade.
A ausência da imagem de homens e mulheres negros nos veículos de comunicação de massa ou a sua presença estereotipada é a continuidade de uma política cínica de exclusão sócio-racial que, em pleno século XX, ainda procura legitimar a passagem bíblica da Maldição de Cam – em que Noé após ser visto nu e bêbado pelo seu filho caçula Cam, amaldiçoa a ele e a todos os seus descendentes, a ser escravo dos seus irmãos-, ijustificativa político-religiosa que deu suporte ideológico à escravidão de populações negro-africanas e que se cristalizaram em poesias de Gregório de Mattos, no século XVII.
Numa sociedade do espetáculo, a imagem é essencial, é marca de identidade e, ao mesmo tempo, produto. Em um museu, como o Afro Brasil, que tenha um conceito em perspectiva, a sua existência é a não garantia de que pessoas e suas culturas, agora sob uma nova roupagem, sejam transformadas de forma desigual, mas combinada, em mercadorias, sem história. Marcas e modas e de um tempo desumanizado, presentificado pela lógica do mercado, apesar de racializado.
A compreensão que temos de tudo isso, leva-nos a crer que o acervo de um museu com mais de quatro mil peças, permanentemente expostas, num espaço geograficamente privilegiado, o Parque do Ibirapuera, com entrada gratuita para os seus visitantes, em média 6 mil pessoas, por mês, sem divulgação regular na imprensa, concede-nos a possibilidade e prazer de nos enxergarmos em um espelho onde deixamos de ser sombras e espectros para nos vermos imagens, sons e sentidos produtos de civilizações que, seqüestradas e expropriadas de seu espaço geográfico cultural, fizeram História com os seus corpos e crenças, transformados em memórias cheias de vida e energia, forjadas na luta e na persistência de ser e viver livre.
O Museu Afro Brasil é para além da surpresa estética que provoca, um livro de história em que os acontecimentos e personagens conversam com visitante, estabelecendo um diálogo infindável e que continua para além do seu acervo e de suas paredes.
Do Navio Negreiro à Biblioteca há uma ruidosa e instigante viagem cujo roteiro poucas vezes se completa em uma segunda visita. A África deixa de ser a terra de Tarzan, o país dos negros, para reocupar o seu lugar de berço da humanidade, lugar de civilizações, de culturas, enfim, de homens e mulheres filhos do sol e da terra, cujo respeito aos ancestrais, garantiu-lhes e ainda garante identidade e força vital.
Seja pela suas crenças, festas, seus artistas, seus pintores, seus escultores, engenheiros, médicos, professores, músicos, escritores, poetas, jornalistas, políticos, revolucionários. Seja pelo domínio ferro, do bronze, do barro, do outro, das cores, da madeira, do gado, da agricultura, em fim da vida.
O olhar de feliz surpresa e os comentários simpáticos feitos durante as visitas, tanto da exposição do acervo, quanto das temporárias, se considerados juntamente com os registros escritos no livro de presença do museu, dão-nos a dimensão do que representa este espaço em uma cidade cosmopolita como São Paulo, com os seus quase 6 milhões de habitantes afrodescendentes atomizados por suas periferias, em uma população de 18 milhões de pessoas. Aqui está uma outra razão para a importância do Museu Afro Brasil.
A vocação formadora de um museu é concomitante à sua marca informadora. Um museu tem nas peças do seu acervo a concretização de momentos históricos capazes de preencher vazios de identidade e fazer transbordar lacunas de dignidade.
O Museu Afro Brasil, com o seu acervo e mais as atividades que realiza junto à comunidade negra e também aos demais setores sociais, por meio de seus cursos de formação de professores da rede pública – atendendo à lei 10639 que obriga as escolas do país a ensinarem História da África e Cultura Afro-brasileira, seminários e encontros com Comunidades Remanescentes de Quilombos, com jovens ligados a movimentos musicais, literários, teatrais e outros, confirma a sua importância no cenário paulistano e brasileiro.
*Artigo publicado sobre os 2 anos de existência do Museu Afro Brasil.
Informações importantes:
Visitantes
Número médio de visitantes/mês: 12.000 pessoas
Total de visitantes agendados (escolas e instituições) 47.000 pessoas
Total de visitantes em 1 ano e meio (outubro de 2004 a agosto de 2006): 214.400 pessoas
Exposição de Longa Duração: Museu Afro Brasil, um conceito em perspectiva
2.000 obras expostas, da coleção de Emanoel Araujo e de emprestadores
Exposições Temporárias
 Carmen Calvo,a colecionadora de memórias, 2006
 Rever a Coleção Odorico Tavares: Do Gabinete do Jornalista, aos meus poemas aos meus pintores, 2006
 Revisitando Carybé, 2006
 África e Africanias de José e Guimarães, 2006
 O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó, o baiano Carybé, 2006
 Odorico Tavares, minha casa baiana, 2006
 Arte Pró-Museu – 2005
 Dona Olga de Alaketo Iyalorixá da Bahia, 2005
 Mario Cravo Neto, O Tigre do dahomey – A Serpente de Whydah, 2005
 Brasileiro, brasileiros, 2004
Eventos
 Inauguração do Teatro Ruth de Souza, 2005
 Inauguração da Biblioteca Carolina Maria de Jesus, 2005
Cursos realizados pelo Museu
 História e Cultura Afro Brasileira: Ensinar e Aprender na Diversidade- Professores da Rede Municipal – 160 horas.
 À Sombra do Baobá – Professores e Educadores. Oficinas e seminário
 Curso de preparação para professores sobre a Exposição O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó, o baiano Carybé.
Seminários realizados pelo Museu com pequenos grupos
 Encontro com a Comunidade de Remanescentes de Quilombos do Pará, 2005
 Encontro com a comunidade de Remanescentes de Quilombos de São Paulo, 2005.
 Aula Inaugural da Faculdade Zumbi dos Palmares, 2005
 Encontros com professores da rede Pública de Ensino sobre a lei 10.639 e a mediação com a Exposição do acervo. ( esses encontros acontecem constantemente, sempre que solicitado pelos grupos de professores da cidade de São Paulo e de municípios vizinhos)
Atividades Educativas – Oficinas
 De registro na primeira visita
 De aprofundamento com duas visitas
 Visitas com orientação temática: a presença da mulher; a representação do cotidiano; fotografia, entre outras.
Produção de materiais para uso no espaço expositivo:
 quebras cabeças
 jogo da memória
 caixas de descoberta
Publicações do Museu Afro Brasil:
 Livro Museu Afro Brasil, um conceito em perspectiva, patrocínio SEPPIR – 2006
 Catálogo O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó, o baiano Carybé – 2006
 Catálogo África e Africanias de José de Guimarães – 2006
 Catálogo Brasileiro, Brasileiros – 2005
 Catálogo do Leilão Arte Pró-Museu – 2006
 Caderno Uma visita Museu Afro Brasil, destinado a crianças e jovens – 2006
 Revista Negras Palavras nª 1 À Sombra do Baobá – 2006
 Roteiro de Visita ao Museu Afro Brasil, versão em português e versão em inglês – 2005
 Caderno das Exposições, 2005
 Jornal Negras Memórias, 2006
 Folder Museu Afro Brasil, 2004, 2006
 Folder da Exposição Temporária O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó, o baiano Carybé – 2006
 Folder da Exposição Temporária Brasileiro, brasileiros
Premiação
O Museu Afro Brasil recebe o prêmio de Instituição Cultural do Ano 2004, da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA

Luiz Carlos dos Santos