Apesar dos vários contratempos na organização, que acabou revelando uma grande centralização das instâncias ministeriais na sua execução, a II CIAD superou a tudo isto, principalmente, com uma ampla abordagem temática, sem deixar de dizer de um clima de quilombagem planetária no ar.
Os gritos de tantas situações limites por que passam populações inteiras de africanos e de negros em diáspora em diversas partes do mundo nos últimos séculos, talvez não tenha sido o suficiente para despertar o mundo enfeitiçado por bombas intermitentes, mas que, se não “acordar para a vida”, como dizem os mais velhos, não haverá tempo para remediar tanta dor.
Ali, na “Roma Negra”, pudemos sentir que o mundo quer e precisa mudar e a mudança passa por aquela que nos gerou: a África! E a África vive! A África é plural! Um continente cheio de possibilidades políticas, econômicas e sociais. Naqueles dias de julho, vimos que o “renascimento” da África passa pelo reconhecimento de seu valor pelo planeta. E a Diáspora, filha violentada, pulsa esta vida, estas lutas em muitas resistências.
A II CIAD fez ecoar, e com mais força e novidade, gritos de renascimento, verdadeiras ressurreições. E, como que, sem querer provar nada pra ninguém, mas também sem ficar esperando de fora as soluções para seus problemas, os povos africanos têm re-criado caminhos de vida para si e para o planeta.
O Brasil, por sua vez, tem dado passos significativos ao iniciar uma reflexão sobre sua dívida história para com as populações negras da África e da Diáspora. Sediar um evento como a CIAD significa o compromisso em aprofundar as políticas que conduzam o país a um grande e duradouro diálogo com os países africanos e da diáspora, em todos os aspectos, principalmente, no sério empenho na co-laboração incansável em busca do desenvolvimento econômico e da superação dos índices de pobreza e exclusão que os leve a uma autonomia frente aos grandes impérios.
Ao mesmo tempo, faz-se necessário avançarmos em ações afirmativas da presença do povo negro em espaços até então reservados a uma elite, por que não dizer a uma “casta” econômica e racial, privilégio historicamente consentido com a anuência estatal. A novidade foi constatar que esta pauta que faz ecoar Durban (2001) está bem avançada em outras partes do planeta, principalmente, em vários países africanos, onde o debate já se projeta na perspectiva de que, a partir das ações afirmativas, principalmente, na educação, temos a possibilidade do surgimento de uma nova forma de solidariedade humana, base fundamental para a criação de um novo ser humano.
Não obstante todo o debate, a Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, talvez por seu caráter diplomático, tendeu a passar às margens de questões pontuais não só do Brasil, mas das guerras e da AIDS que assolam várias regiões do continente-mãe, além da prolongada situação no Haiti. Somando-se a estes silêncios, o maior foi não ter havido uma mesa temática, no segundo dia da Conferência, que tratasse da realidade das comunidades quilombolas em sua diversidade planetária, seu legado histórico, sua relação com a natureza, bem como, suas demandas e apelos, em diversas partes do mundo.
Contudo, a II CIAD não poderia ter acontecido em momento mais oportuno e fértil de nossa história presente: quando se destampa o caldeirão do debate em torno das cotas e ações afirmativas nas universidades públicas brasileiras. E o assunto veio à tona, com a propriedade que o mesmo reivindicava, na voz da guerreira, livre e santa Leci Brandão, que bradou… “o negro tem cotas nas cadeias! Queremos agora nas universidades! Reparação já”.
Aquele brado, na noite anterior ao final do evento, num show lotado na Praça da Sé, local onde há séculos tantos irmãos e irmãs foram mercados/as, aquele brado, que de brando não tinha nada, na manhã do dia seguinte, voltaria com mais força e direção, na mesma voz carismática da cantora dos “sem-voz”, agora, na mesa final que tratava sobre “Desenvolvimento, Paz e Democracia”.
Ali começava um grande e-vento dentro da CIAD: em poucos minutos, representantes do movimento negro ocuparam a plenária e a cena: uma manifestação pró-cotas, que, nas palavras do representante da Unesco, “fez revelar um Brasil negro que está em pé, fazendo rememorar um Haiti vivo enquanto memória de resistência do negro na Diáspora”. Aquele momento, cheio de axé, cheio de graça e força, tornou-se o ápice de toda a Conferência, fazendo ecoar vozes engasgadas e silenciadas, nada roucas, nada loucas: “cotas já!”, “contra as cotas só racistas!” e “Brasil, África, América Central, a luta do negro é internacional”. Com o microfone na mão, um casal representante do movimento leu uma moção de apoio à mobilização nacional pró-cotas, definida para dia 18 de agosto.
Ainda naquele dia, no final da tarde, um grupo de 09 quilombolas, vindos de São Francisco do Paraguaçu, chegou cansado, depois de um dia de viagem, pedindo socorro, pois havia sofrido ameaças de morte na noite anterior por fazendeiros e policiais que cercavam suas terras. Foram acolhidos numa reunião paralela do movimento negro e as suas falas eram de apelo e sonho: continuarem vivendo daquela que sempre os sustentou – a mãe terra. Uma jovem mãe, líder da comunidade quilombola, não se fez de rogada em meio à “tanta gente estudada” e disse “nós queremos viver e vamos lutar pra isto… é triste saber que nossos avós antigamente levavam chicotadas nas costas; e hoje, querem nos matar de fome, as chicotadas são no estômago”.
E o evento, que corria o risco de ir com o vento do passar dos dias em nossa memória, ganhou a ventania de um chacoalhão daqueles que teimam em desenhar a história, mesmo que nas brechas e nas entranhas da terra: o povo em movimento.
Dali pra frente, seria impossível voltar para a casa com a sensação de ter participado de uma festa “pra sul-africano ver”. Voltamos com muito mais energia, esperança e fé de que, em nossos projetos e utopias de uma nova humanidade, temos muito mais de África do que imaginávamos.
Sou

Flávio José dos Passos