Todavia, esse cabedal de informações fica invalidado se o profissional que as manuseia não apresentar nobreza de caráter. Sim, não é possível lidar com nenhum assunto quando se tem o espírito carregado de conceitos pré-estabelecidos. Em outras palavras, se a cultura geral e a cultura específica das questões que envolvem o negro são requisitos importantes para quem deseja se especializar neste segmento jornalístico, a retidão do caráter do profissional, me parece fundamental.
Por assim pensar, me arrogo no direito de chamar a atenção de algumas pessoas que atuam na imprensa do Vale do Paraíba paulista, pessoas essas que por desconhecerem tanto a profundidade do jornalismo quanto a cultura afro-brasileira se permitem maldizer as religiões de matriz africana, minimizar o feito de profissionais negros da imprensa nacional – profissionais esses reconhecidamente gabaritados – e até caçoar do passamento do pop-star Michel Jackson.
Classifico tais atitudes como antiprofissionais e grosseiras, resultantes não só de formação profissional deficitária como também de absoluta falta de berço.
Mas como sou otimista de nascença, acredito ser possível corrigir a postura dessa gente, utilizando para tanto aquele antigo e bom método: a reeducação.
Sendo assim, de saída, sugiro que releiam – desta vez com atenção e, de preferência, fixando as informações – os fundamentos da profissão. Tenho certeza de que nenhum livro recomendará simplificações abusivas ou pormenorizações descabidas de qualquer assunto, inclusive, da cultura afro-brasileira.
A segunda sugestão é aprender a respeito da referida cultura, em particular, a existente no Vale do Paraíba paulista. É que para quem não sabe, o Vale é guardião de informações nunca antes reveladas. Por exemplo, em Taubaté, encontra-se intacto um magnífico acervo de fontes primárias a respeito da escravidão negra local, documentação essa cartorária seiscentista e setecentista, ou seja, dos séculos XVII e XVIII.
A leitura desses documentos não só revela detalhes do passado escravista na cidade como fornece elementos para melhor entender muitos dos detalhes da vida do afro-descendente taubateano. Por exemplo, quando e como surgiram os primeiros grupos de congada e moçambique em Taubaté, as primeiras irmandades religiosas com a presença de negros, a história de vida dos poucos negros que dão nome a algumas das nossas ruas, as nações africanas que por aqui passaram.
Tem até contos de amor redigidos – de próprio punho – por negros crioulos e, inclusive, partituras originais de autoria dos mesmos. E tem ainda versos feitos por mãe negra escravizada para o seu filhinho negro liberto. Isso mesmo: versos de ninar.
Resumindo, por aqui, temos um oceano de informações a respeito das especificidades da cultura afro-local, o que compreende: relações de gênero, literatura, música, história, farmacopéia, religiosidade, e tantas outras faces.
Diante disso, me parece um tremendo “mico” sair por ai falando o que dá na telha a respeito da nossa gente negra – do passado e do presente – quando se poderia empregar o mesmo esforço para se noticiar fatos da historiografia negra local, fatos esses desconhecidos inclusive por boa parte da própria população taubateana.
Então, caso essa gente que se considera jornalista optasse por estudar o tema – claro, com o espírito liberto dos conceitos pré-estabelecidos – creio que não só dariam show de jornalismo como prestariam relevante serviço à cultura negra da terra. E com isso, naturalmente, estariam trabalhando em prol da construção da igualdade racial em nossa cidade e região, afora estarem livres do pagamento de um “mico” atrás do outro.
Falo em “mico”, porque entendo que uma vez existindo tanta coisa relevante e inédita para se noticiar não só na praça Taubaté como também em outras praças, perder tempo e latim com coisas que não levam a nada – salvo a demonstração inequívoca de absoluta falta de preparo para o exercício da profissão e da ignorância crassa a respeito do assunto afro-local – é, ao meu modo de ver, um tremendo “mico”. Mas, de repente, o objetivo da moçada é outro. Vai ver, trata-se de um pedido solene e insistente para ser/serem enquadrado (s) judicialmente, não?
Seja como for, reitero que sou pelo método da reeducação – ainda que de maneira coercitiva – razão pela qual faço a última sugestão. Sugiro a quem de direito corrigir a conduta dessa gente condenando-os a passarem boa parte do dia estudando aquela documentação pra lá de centenária acima mencionada, e depois de tudo bem entendido, percorrerem as escolas da rede municipal proferindo palestras a respeito do tema.
E, de quebra, a redação de um texto por semana a respeito do assunto – sem conceitos pré-estabelecidos – textos esses que seriam publicados no mesmo veículo e no mesmo espaço onde outrora foram publicadas asneiras a respeito da nossa gente negra.
Não, não sou nem sacana e nem ortodoxa. Simplesmente sou da opinião de que, às vezes, a coisa só se resolve na marra e na marreta.

Sônia Ribeiro