Concordo com ele, pois as escolas de samba cariocas, sacrificando a verdade histórica em benefício do espetáculo, têm fantasiado bastante a respeito do continente africano, ainda visto como “distante”, “misterioso”, “impenetrável” etc., e quase sempre mostrado como um corpo homogêneo e não como um todo multiétnico e multicultural.
E digo mais: não foi só a Beija-Flor que mentiu. Mentiu a Salgueiro, quando juntou às candaces de Méroe, cuja experiência se desenvolveu entre o século 4 a.C. e o primeiro da Era Cristã, figuras femininas como as de Nefertite e Makeda, a rainha de Sabá, que viveram em épocas mais remotas, bem como a de Cleópatra, mais grega que negra.
Mentiu a Porto da Pedra quando, cantando a África do Sul, disse que “o anjo invasor” deu a cor ao país. Mas, com todo o respeito, o sr. Narloch também mentiu um bocadinho em seu artigo.
Falseou ele a verdade histórica -inclusive sobre a cidade hauçá e muçulmana de Kano, no norte da atual Nigéria, por ele localizada na antiga Costa do Ouro- não distinguindo o tráfico de escravos praticado na África antes da chegada dos europeus, exercido principalmente por árabes e direcionado para o Oriente e a Europa, com aquele que se desenvolveu através do Atlântico. E tudo isso usando a velha tática de colocar na conta dos negro-africanos toda a responsabilidade por esses tristes eventos.
É certo que tanto o tráfico europeu, pelo vulto econômico que adquiriu, quanto o tráfico árabe contaram, a partir de um certo momento, com a efetiva colaboração de africanos de vários segmentos sociais, desde monarcas a simples transportadores.
Havia, sim, mercados de aldeias que dispensavam os traficantes estrangeiros das perigosas incursões continente adentro. Mas a participação africana no tráfico de escravos não diminui a responsabilidade dos europeus. Foram eles que corromperam soberanos e súditos, inclusive fornecendo armamentos, para tornar esse tipo de comércio altamente rentável e tentador.
Entre 1580 e 1680, período em que duraram as chamadas guerras angolanas, envolvendo, principalmente, Portugal, Holanda e os ambundos da rainha Nzinga Mbandi, estima-se que cerca de um milhão de cativos foram vendidos de Angola para as Américas.
Da mesma forma, nas guerras entre axantis e fantis, na atual Gana, no início do século 19, com participação inglesa; e também nas refregas entre iorubanos e daomeanos, a partir do século anterior. Todos esses acontecimentos foram motivadores de migrações forçadas de grandes contingentes de africanos para as Américas.
Mas a aceitação passiva do tráfico de escravos e a participação nele não foi, como quis o sr. Narloch mostrar, regra geral entre os governantes africanos. Na década de 1730, por exemplo, o rei daomeano Agajá Trudô, entendendo que o tráfico era um obstáculo ao desenvolvimento de seu país, saqueou e queimou os fortes e armazéns de escravos e bloqueou o acesso às fontes do interior.
Esse fato deu ensejo a uma retaliação por parte dos europeus, concretizada por uma espécie de bloqueio econômico, o que fez com que a atividade se restabelecesse.
Mas, felizmente, está aí, em vigor a lei nº 10.639, instituindo o ensino obrigatório de história da África e das populações afro-brasileiras nos currículos de base no Brasil. Com ela, certamente, teremos, daqui a alguns carnavais, enredos mais verdadeiros. E comentários também.
Texto originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 1º/03/2007

Nei Lopes