A relação de convivência étnico-racial na sociedade brasileira chegou ao limite do tolerável. Paradoxalmente, daqui pra frente, os debates pela igualdade racial serão travados sob o fogo cruzado da guerra civil que norteia o cotidiano nacional. É uma pena! Afinal, parecia que conseguiríamos negociar a equidade de oportunidades elementares para todos, com harmonia.
Ainda que se propaguem os esforços para o avanço cordial no relacionamento entre negros, brancos, índios, palestinos, árabes, judeus e ciganos, a verdade é que projetam-se a expansão do enfrentamento armado nos centros urbanos e nas zonas rurais do país. É uma pena! Mas, é inevitável.
Os meninos e meninas que trocaram a criancice pelo trabalho infantil, os brinquedos pelas armas e a inocência pelo gerenciamento do tráfico de drogas, querem saber porque a oferta que lhes é feita resume-se a exclusão. Por quê?
Eles, os meninos e meninas, não sabem contextualizar histórica, sociológica e filosoficamente, nenhum desses conceitos acadêmicos, porém são pragmáticos: sabem que não sobreviverão até 22, 23 anos de idade, quando muito. É uma pena! Eles, também não tem conhecimento estatístico que 15 milhões de armas de fogo estão nas mãos dos civis e que os principais alvos são adolescentes, do sexo masculino e, negros. É uma pena! Mas, é um fato de fato.
Eu fiz esta introdução toda porque durante o mês de setembro de 2005 fui o apresentador da “Campanha do Sim” sobre a comercialização de armas de fogo no Brasil. Negro, jornalista, ator e pai, sou chamado a refletir, neste final de ano, sobre minha participação nesta ampla consulta popular.
Em primeiro lugar, entrei de cabeça por princípio.
Agora, não sejamos tolos de achar que fui escolhido entre quase 500 candidatos só por causa de minha performance. Tenho consciência da minha capacidade e desempenho, entretanto há outros fatores que são levados em conta nestas circunstâncias.
Coordenadores da campanha estavam cientes que o maior índice de crimes acontece nos núcleos sociais habitados por afrodescendentes, por exemplo. Logo, ter um negro à frente da campanha não foi um acaso. Seria até óbvio não estivéssemos em um território racista. Tão racista que mesmo estando aí a notícia, apenas este veículo dirigido prioritariamente aos afrodescendentes sugere o balanço que estou fazendo. É uma pena! Mas, é um fato.
Queria acrescentar que este quadro de pouco caso não é inédito na minha carreira. Entre tantas outras atividades, também fui o primeiro jornalista negro a apresentar um telejornal na Baixada Santista e a imprensa daquelas cidades nunca pautou este tema. Fui ainda o primeiro jornalista negro a assumir o cargo de editor chefe de uma redação de televisão naquela região paulista.
Depoimentos com este teor geralmente passam a idéia de ressentimento, porém na verdade, sei que minha missão adquire uma dimensão incalculável, uma vez que dar a cara à tapa abre uma pequena fresta num caminho a se perder de vista, quanto ao mercado que se expõem para nosso tipo étnico. Ufa. Ainda bem!

Fausto José Barbosa