Não há conclusão mais simplória e superficial do que acreditar nisso, ou mesmo iniciar qualquer reflexão mais séria por esse caminho. De fato, tanto para os setores conservadores da esquerda, quanto da direita brasileira, esse argumento remove para o lado dos assuntos de menor importância a temática do poder que resulta de um misto secular que congrega a divisão de classe paralelamente à divisão étnico-racial no país. A suposta miopia que rodeia a intitulada elite política, sem distinção entre esquerda e direita, deixa essa mesma elite aliviada quando os meios de controle ideológicos, especialmente a mídia televisiva, encontram explicações simplórias que espalham como verdades; nessas explicações, nem mesmo tais meios e seus representantes mais inteligentes acreditam.
Reduzir tudo a uma atitude aloprada resolve o imediato do momento político (PT versus PSDB), sinaliza possíveis acordos que também resolvem as metas pessoais e partidárias nos próximos quatro anos e, mais uma vez, retarda ao infinito a relação poder e dobradinha classe/relações étnico-raciais no Brasil.
Aqui, não vamos encontrar as definitivas respostas a essa conjunção de forças para manter o poder político, no entanto, por mais aloprado que pareça de minha parte, o certo é que há pessoas erradas no lugar, por princípio, errado. Ou seja, vamos imaginar que em tese, muitos filiados ao PT teriam por suas ligações de classe e étnico-raciais mais perfil de PSDB ou até partidos mais à direita da política nacional do que do Partido dos Trabalhadores. As origens do partido, que fazem com que o Presidente Luis Inácio Lula da Silva passe a ser aceito pelos eleitores mais pobres como um legítimo representante, levam-nos a essa compreensão.
Não vale explicar que essas origens do partido fazem parte de um passado que nada mais tenha a ver com o presente. Estaríamos eliminando a história como integrante cotidiana da vida social quando, sem dúvida, é parte fundante da compreensão de nossas mazelas mais profundas.
Os partidos políticos no Brasil, além de serem na maioria dos casos instituições-fantasias por razões amplamente conhecidas, sempre também foram o privilégio de uma pequena elite. E aqui, ser da elite sempre foi entendido como tendo origem étnico-cultural européia e detentor dos poderes econômicos, políticos e culturais.
Pois bem, essa elite, extremamente concentradora da renda do país, foi, do mesmo modo, com raras exceções, concentradora do direito ao exercício político, auto elegendo-se possuidora nata de tal direito. Como resultado mais grave, foi sistematicamente proibido durante a maior parte de nossa história o direito de organização dos segmentos excluídos da sociedade que tivessem plataformas e ideologia diversa da sua. Não se abriram brechas de participação e inclusão efetivas nem àqueles que seriam, ao menos em tese, seus pares de origem étnico-cultural.
Disso resultou uma demanda social por efetiva participação político-partidária que perdurou ao menos até 1922, quando foi criado o Partido Comunista Brasileiro. No entanto, essa demanda tem também o fato de ser amplamente diversa quando se trata de classe e pertencimento étnico-racial. A retenção da participação político-partidária da maioria criou uma pequena e tênue irmandade entre aqueles excluídos, que o Partido Comunista à época não conseguira congregar a contento, além de ser ele um partido que passa boa parte de sua vida na clandestinidade.
A mudança efetiva desse quadro secular de exclusão política só será possível a partir dos anos 80 quando a conjuntura geral levará à criação do PT, da CUT e à reorganização/organização, sob novos modos, dos diversos movimentos sociais. Tal conjunção de esforços tornar-se-á, ao longo dos anos 80 e 90, a grande referência de oposição à secular exclusão político-partidária da maioria.
Como vimos acima, tal maioria não é homogênea: são de diferentes origens de classe ou extratos dela, além de possuírem diferentes origens étnico-culturais e raciais. Para os que estão mais próximos do modelo étnico-cultural e racial dominante, que não coincidentemente ocupam os extratos inferiores mais bem aquinhoados, o espaço de participação política será maior e com resultados mais rentáveis do que para aqueles que possuem outras referências étnico-culturais e de organização política.
O PT e a CUT, que em sua origem tiveram “uma cara”, digamos, mais popular, inclusive em seus espaços de maior prestígio, paulatinamente foram perdendo “essa cara” e se tornando mais palatável aos olhos da elite secular. Em palavras mais diretas, o PT e a CUT foram, ao longo dos anos, desde sua origem, excluindo as caras pretas e pardas do conjunto dos trabalhadores e da sociedade organizada e embranquecendo, especialmente suas lideranças.
Serão essas “lideranças”, em muitos casos, de terceira ou quarta geração de imigrantes que chegaram ao Brasil no final do século XIX e início do século passado, haja vista os sobrenomes, que estarão se apossando do PT, sobretudo após as vitórias nas urnas para governar estados e municípios, culminando com a vitória do Presidente Luis Inácio Lula da Silva em 2002.
Não há uma mera coincidência. Irresponsável será quem pensar assim. Os membros dos extratos de classe mais privilegiados dentre os despossuídos e credores da idéia de que a cultura européia é a melhor referência para o Brasil, viram pela primeira vez se formarem as condições reais de acesso ao poder político, via partido, tanto quanto seus pares de referência étnico-cultural, há quatrocentos anos no poder, porém, crentes na superioridade do seu modelo de organização social extremamente concentrador.
Assim, o que assistimos no momento é a reprodução, no Partido dos Trabalhadores, dos referenciais de classe, de uma elite conservadora de esquerda. Soubemos, ao lado de inúmeras conquistas políticas, porém, diferenciadas entre os membros da demanda por efetiva participação político-partidária, criar o fenômeno de um conservadorismo de esquerda tão pernóstico e excludente quanto o anterior, quando se trata dos temas relacionados ao poder e ao pertencimento étnico-racial. O conservadorismo étnico-cultural nivela num mesmo patamar velhos representantes do antagonismo de classe. E esses novos extratos ocupam espaços importantes na mídia (mesmo que seja minoria), na cultura, na ciência, na economia, na política e, agora, na direção dos negócios do Estado Brasileiro. O importante é que ocupam e, parece, começam a agradar seus velhos e quatrocentões opositores de classe, especialmente se o tema são as cotas raciais, por exemplo.
Concluir que são aloprados aqueles que colocam acima do projeto coletivo, seus ideais pessoais e de classe, é, a nosso ver, nivelar injustamente todos que construíram ao longo dos últimos 25 anos um novo referencial de participação política efetiva através do PT e da CUT. É fazer acreditar que todos os excluídos historicamente de uma efetiva participação político-partidária independente tiveram, a partir de então, igual fatia do bolo na nova reorganização do poder político e do poder partidário e sindical. Um olhar menos viciado e mais honesto dessa trajetória comprovará que não e nós negros continuamos a ter a menor fatia desse grande bolo tropical – Brasil.

Lídia Nunes Cunha