A mesma imprensa que se recusa a tratar com seriedade e sinceridade a questão racial e a implantação de políticas públicas direcionadas à etnia, dispensando tempo e espaço para a cobertura da edição 2005 do Troféu Raça Negra. Uma festa promovida por entidades sérias que lutam pelo fim do preconceito racial no Brasil e que desenvolvem uma série de atividades para este fim. Um evento que reúne personalidades negras de diversos segmentos, cantores, atores, modelos, comunicadores, atletas, políticos, educadores; enfim um grande número de negros e negras que, contrariando as estatísticas conseguem fugir do “preconceito vertical”, tão em voga na sociedade brasileira, e ascender sócio, cultural e politicamente.
Falamos de uma festa realizada em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data em que se comemora a imortalidade do ícone negro Zumbi dos Palmares. Mas também não foi por isto que ela ganhou destaque na mídia. Continuamos onde sempre estivemos. Aos negros: a página policial.
Não vamos tratar aqui do incidente, ou agressão se preferirem, que dentre tantos acontecimentos também fez parte da noite. Não é este o tema deste ensaio e não nos cabe defender ou julgar negros ou brancos. Nosso assunto é outro. Queremos saber por que a mesma notícia que pode ocupar 40 linhas na página policial não pode ocupar o mesmo espaço no caderno de economia?
Não apenas a população negra mas todos que lêem jornais e revistas diariamente e assistem a TVs (não aquela que foi inaugurada no mesmo dia da referida agressão, e que é claro não recebeu o mesmo espaço de divulgação) sabe onde encontrar os iguais a mim. O estudioso Muniz Sodré muito bem definiu: sofremos da “síndrome do vampiro”. Olhamos para o espelho da mídia e não nos vemos. Obra do acaso? Coincidência? Acredito que não. Não somos pauta, “assunto quente”, manchetes ou suplemento especial. A não ser, é claro, que decidamos partir para a briga.
Tanta divulgação em torno de um tapa “mostra para esconder” que na verdade quem é violentado diariamente nem sempre tem tanto espaço para se defender. Não defendo a violência, de forma alguma. O que me pergunto é por que o “tapa na cara” do negro que se veste, prepara e trabalha durante um ano para a festa de celebração e promoção da igualdade racial no Brasil, dói menos do que o tapa em questão.
Contrastando ao retratado em nossos livros de história, onde escravos aparecem com expressões “indolores” amarrados a troncos levando chibatadas, a dor, ao contrário de nossos veículos de comunicação, não faz distinção de cor. A invisibilidade, assim como o desrespeito e a parcialidade, pode não render boas fotos, mas também dói.

Tâmara Lis