Sem dúvida, os europeus, herdeiros de uma tradição filosófica, bem o compreenderam, pois efetivamente assumiram que mediante a atribuição de uma linguagem discriminatória seria possivel institucionalizar, transmitir e manter o racismo.
Neste contexto a linguagem se constituiu, sem dúvida, como um elemento significativo no processo de construção de uma sociedade hierarquizada, instaurando-se como elemento de fomento, legitimação e institucionalização das desigualdades.
Deste modo o termo “negro/negra” foi empregado para denominar as pessoas africanas sequestradas e escravizadas, assim como aos seus descendentes (afrodescendentes) nascidos em territórios americanos. Não obtstante, a dita denominação cumpriria uma clara e definida função social, a qual seria: diferenciar a todo o indivíduo não-europeu, desqualificando-o e subordinando-o pela cor da sua pele.
Assim, o “negro” foi associado ao mutismo, à invisibilidade, à ignorânçia, à noite e, em consequência, à obscuridade como lugar inóspito por natureza, desolado, desagradável e cheio de vícios, em efetiva contraposição com o branco.
Portanto, não é casualidade que nas nossas linguagem cotidiana e representações iconográficas, “o negro” se encontre estreitamente associado a tipificações degradantes vinculando-o ao mal, à desgraça, à desdita, ao prejudicial: o mercado negro (contrabando, venda, distribuição ou intercâmbio clandestino e ilegal de serviços e bens), a quinta-feira negra (colapso da Bolsa de Valores de Nova York), humor negro (satirização de situações sociais obscuras, dolorosas, polémicas), um futuro negro, um gato negro (símbolo de má sorte), dinheiro negro (aquele proveniente de atividades ilícitas), magia negra (bruxaria), entre outros; os quais são só uma mostra do caráter significativamente vilipendiado da negritude.
Não obstante, o termo “negro”, por si só, não possui uma carga negativa ou degradante do sujeito social, pelo contrário, seria no contexto acima descrito de onde o foram atribuídas significações negativas e pejorativas sobre a negritude.
Por isso se faz necessária a rigorosa diferenciação entre os conteúdos simbólicos, bem como a distinção eficaz e eficiente entre as designações do sistema racista, pois sem dúvida “negro” não será o mesmo que “negregado”.
Ser “negregado” constitui sem dúvida um ato de diferenciação violenta e excludente. No entanto, apesar da ingerência, da penetração, e dos intentos de desarticulação e erradicação da cultura africana autóctone por parte do europeu escravagista, o “negro” nas nossas sociedades latino-americanas e caribenhas permitiu a construção de uma identidade fundamentada na experiência racializada comum (a descendência africana, o sequestro e a mobilização forçada como seu consequente e ainda a vigente discriminação através da ideologia racista).
Portanto, devemos ser cautelosos(as) ao considerarmos a supressão absoluta do termo “negro” e a sua substituição inquestionável pelo termo afrodescendente, fazendo-se necessário refletir se nos encontrarmos perante uma diferenciação libertadora ou uma ressignificação excludente.
Os esforços dos pensadores(as) e líderes dos movimentos afrodescendentes deverão estar orientados para apresentar aos atores sociais a origem destes conteúdos, seus significados, os contextos nos quais surgiram e se manifestaram, sua carga ideológica, a partir da qual tanto o sujeito históricamente oprimido como o sujeito tradicionalmente opressor possam compreender a gênese da sua situação e condição de classe.
Desse modo, a libertação do jugo colonizador que ainda nos oprime só será possível na medida em que aos atores sociais sejam facilitadas as opções e ferramentas históricamente negadas permitindo que o sujeito se encontre capaz de abordar a sua situação social específica e diferenciada, para além de estabelecer os critérios para a construção de sua história, pensamento e identidade desde a sua experiência, contextos e significados que lhe são confortáveis e comuns.
Tentar impor a afrodescendência como identidade única e absoluta será um ato transgressor, similar a dinâmica operativa do europeu escravagista e explorador, degenerando no aprofundamento da situação de estranho social deste grupo já socialmente discriminado e excluído.
A afrodescendência deve apresentar-se como um convite, um chamado ao conhecimento, à identificação e, em consequência, ao auto-reconhecimento. Caso contrário, a dignificação da negritude e da descendência africana poderá se converter na tirania da afrodescendência.
*O título original deste artigo é “No me llame negro, dígame afrodescendiente. No me diga afrodescendiente, llámeme negro.”
Texto traduzido por Alberto Castro e publicado com a devida autorização da autora.

Esther Pined G.