É mais ou menos como num filme ou peça de teatro em que os diálogos são desencontrados e desconexos; um personagem diz: “Você sairá hoje à noite?” E o outro responde: “Vai chover amanhã”. O resultado só pode ser um: não há entendimento possível – nem entre quem fala, nem entre quem participa ou assiste.
Para tentar sair do “diálogo de surdos” é que retomo a polêmica a que não dei causa. Vamos aos pontos:
1 – PR não admite que postar em seu site uma entrevista na íntegra concedida a Afropress, sem a autorização do veículo, apenas porque editorialmente decidimos postá-la como matéria, em virtude do atraso de dois meses das suas respostas, foi uma atitude deselegante, pouco profissional e que ficou na fronteira do desvio ético, se é que não a rompeu.
Pior: justifica. “Não vemos, de fato, problema algum em tornar público um conteúdo de interesse social. A ação de publicar entrevistas na íntegra é hoje utilizada por instituições em todo mundo”, afirma.
Claro, desde que o conteúdo da entrevista não pertencesse ao veículo a quem foi dada, esqueceu-se de dizer. Ao postar a entrevista apenas porque não lhe agradou o fato da transformação de suas declarações em matéria foi, sim, – repetimos -, desrespeitoso e pouco profissional. E aqui não está um ponto, está um abismo a nos separar.
2 – É rigorosamente verdadeira a informação contida na matéria e no Editorial – e o próprio Paulo Rogério o admite, mas não assume -, de que o recurso de U$ 27,5 mil disponibilizado pela Embaixada dos EUA para a divulgação do Plano de Ação Brasil-Estados Unidos para Promoção da Igualdade Racial e Étnica (JAPER, na sigla em inglês), será do Instituto Mídia Étnica, a quem caberá fazer a gestão do dinheiro. Não há reparo algum a ser feito, nem equívoco na informação.
Curioso é que duas linhas depois, o mesmo PR admite que “esse valor será repassado em 2011 ao CNPJ do Mídia Étnica para que esse seja uma organização “guarda-chuva”, ou seja o produto/serviço não será propriedade de nossa instituição e sim de um coletivo de entidades”.
Em tempo: ficou alguma dúvida, nas suas próprias palavras a respeito de qual será a entidade receptora do recurso? Quanto ao esotérico “coletivo de entidades” ou “organizações negras” como prefere, ninguém sabe quem são, apenas o Instituto Mídia Étnica e o Paulo Rogério, claro, o gestor dos recursos.
Qual é o problema de admitir o que é evidente e até meritório, a não ser uma evidente confusão política e conceitual e uma dificuldade de assumir responsabilidades individuais – sempre transferidas para o abstrato de “entidades”, “organizações”, como se individualidades não existissem ou não fossem importantes – prática comum a certos setores do movimento negro?
Todos sabemos que, quando é exigido o preto no branco, é a pessoa física quem tem de apresentar nome, sobrenome, CPF e RG, o mesmo ocorrendo no caso de Pessoa Jurídica, apenas com a troca do CPF pelo CNPJ.
Ao tentar evadir-se para “um coletivo de entidades”, o diretor executivo do Mídia Étnica regride ao assembleísmo demagógico e expõe a fragilidade de uma argumentação capenga: primeiro se opôs a que o Instituto que dirige fosse a entidade “guarda-chuva” junto com jornalistas que estiveram nos EUA para acompanhar a IV Reunião do Plano, em Atlanta, conforme propusemos, sob o argumento de que outras entidades não convidadas para integrar a delegação deveriam participar; depois, arrola no seu “coletivo”, entidades que não apenas não estiveram na delegação, como também não estiveram em Brasília na reunião em que o tema foi discutido com representantes da Embaixada dos EUA e da SEPPIR. Qual é a lógica?
O diretor do Mídia Étnica afirma que tem uma “única e ínfima divergência com a Afropress no processo, já que essa última defendeu a idéia de que apenas o grupo de comunicadores que viajou para Atlanta, porque pretenderíamos a participação apenas com as organizações que viajaram para o encontro de Atlanta, essas escolhidas por critérios que nem mesmo conhecemos”.
Ou seja: o critério objetivo da participação numa delegação convidada pelo Departamento de Estado do Governo americano, não vale; o seu próprio critério de arrolar entidades que não participaram nem de Atlanta, nem da reunião de Brasília, algumas desativadas, outras contumazes reprodutoras de produtos jornalísticos, inclusive desta Afropress, cujas matérias sistematicamente pirateiam, além de empresas estabelecidas no mercado editorial das grandes revistas, aí pode.
Mais uma vez, qual é a lógica, senão a velha e surrada “aos amigos tudo – mesmo aos ausentes; aos inimigos ou não tão amigos, bem esses não contam”, ou “nem mesmo conhecemos”?
Por trás do jogo de palavras, fica evidente o que PR propõe: fazer a gestão dos recursos com os nomes que escolher, ao velho estilo das preferências simpatias e antipatias pessoais, que se sobrepõem quase sempre ao interesse público e coletivo – baseado na ética do “compadrismo” do “clubismo” dos eternos beneficiários da política do “farinha pouca meu pirão primeiro”.
Tem sido essa a tônica. Foi para evitá-la que propusemos critérios objetivos.
Quanto a defesa que faz de que, de quatro pontos focais, a Bahia seja contemplada com dois em um acordo bilateral Brasil/EUA e não Bahia/EUA, o diretor do Instituto Mídia Étnica está no seu papel de fazer a defesa do seu Estado, porém, tampouco aqui nossas diferenças de enfoque são pequenas ou irrelevantes.
Um acordo bilateral dessa magnitude e importância entre dois países deve, por óbvio, contemplar ações nos 26 Estados da federação e no Distrito Federal, é o que pensamos.
Igualmente não são pequenas as diferenças quanto aos critérios para a escolha de representantes da sociedade civil: é chocante que o diretor do Mídia Étnica – o mesmo que celebra a divisão de recursos com a representante americana do Programa “porque nossos colegas afro-americanos sofrem da mesma dificuldade de captação de recursos” – atribua, como condição para o exercício dessa função, o critério do domínio do Inglês.
Por essa lógica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao longo dos oito anos dos seus dois mandatos, não teria estabelecido relações pessoais nem entabulado conversas amigáveis com os Presidentes George Bush e Barack Obama, porque é notório que o inglês de Lula não vai além do “thank you”.
Perceba-se como, de um critério óbviamente desfocado, pula-se para a outros que vão se estabelecendo, fonte de distorções, sempre limitando a poucos, o que é de interesse de toda a população negra e do povo brasileiro como um todo: não foi o fato de ser ponto focal – e, portanto, ter o domínio de Inglês, o argumento utilizado por PR para que sua entidade fosse a beneficiária – ou receptora, como prefere – dos recursos da embaixada americana?
O que salta aos olhos – e que qualquer pessoa não contaminada pelo espírito de torcida pode ver – é que a trôpega argumentação do diretor do Instituto Mídia Étnica não resiste ao óbvio: ele mistura função de entidade com papel de Governos; transforma a gestão de recursos públicos (americanos, mas nem por isso menos públicos) em agenda de assembléia; faz a defesa de critérios indefensáveis para a adoção de medidas em um programa bilateral Brasil/EUA e, no limite, confunde gestão de política pública com a defesa privada dos amigos.
Nossas diferenças não são poucas, nem são ínfimas, nem irrelevantes.
Mas, como diz um baiano ilustre por quem temos respeito e admiração, João Jorge Rodrigues, do Olodum, preferimos “construir pontes a cavar abismos”. Contudo, reconheçamos: impossível construir pontes em “diálogo de surdos”.

Dojival Vieira