Costumo ler as revistas periódicas nos fins de semanas e diariamente assistir os jornais matutinos pela tv. Ontem, quase simultaneamente, recebia as manchetes e o telefonema de um amigo jornalista. Entre outros assuntos comentamos a respeito da “grande” imprensa brasileira e de como parte dela vem se eximindo da função de informar, sua fundamental vocação..
Um caso notório dessa encruzilhada é a aposta na manchete de capa da revista “Veja”, que traz um julgamento sumário dos comandantes do Airbus 320 da Tam, acidentado no dia 17 do mês passado. Uma leitura mais atenta revela que a matéria interna da revista não acompanha a conclusão estampada na capa.
Em relação às matérias já veiculadas anteriormente pelo jornal “O Estado de São Paulo” percebo que a Revista segue o mesmo roteiro, se limitando a relatar algumas informações e dados da caixa preta, suposições generalizadas, muitas ilustrações etc. A condenação subliminar dos comandantes, por outro lado, não é a conclusão dos investigadores do acidente.
Em nota oficial o Brigadeiro-do-Ar Jorge Kersul Fº., que responde pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), atesta que a instituição ainda não dispõe de todos os elementos necessários para o laudo técnico conclusivo. Existem, ainda, duas CPIs em andamento acompanhando o desenvolvimento das apurações.
Nesse caso, as partes envolvidas seja o governo e suas instituições, as vítimas e seus familiares e a sociedade como um todo ficam à mercê da manipulação de teses veiculadas de maneira “irresponsável”. Citei a Veja, mas poderia ter citado outros meios de comunicações. O comportamento do rádio, a imprensa escrita ou os telejornais já sofreram julgamento o caso da “Escola de Base” quando os Shimadas foram sumariamente condenados por vários órgãos de imprensa.
Como esquecer da Folha de São Paulo que deu como matéria de capa “Perua escolar carregava crianças para a orgia” ou a Veja com “Escola de Horrores”? E logo depois, a justiça comprovou o equívoco. Uma condenação sistêmica, dirigida à sociedade civil ou ao governo abre mão da imparcialidade, aplicando em seus conteúdos “direcionismos”, ora “marron”, ora “chapa branca”, quase sempre sensacionalista.
Melhor que se indignar é não perder a memória. Essa expressão – “temos que nos indignar”- tão corriqueira em muitas pautas merece uma revisão. A dignidade é, sem dúvida, uma busca, uma aspiração, um valor fundamental e um desejo existencial. Mas observo que o anúncio parte de uma autodenominação que supõe o fato de eu ser digno e o outro não.
Esta convicção sumária supõe, ainda, um sujeito exemplar com o poder de determinar o indigno. Como pessoa, parei de me indignar. E trago esta reflexão aqui com o objetivo de contribuir para o debate, que coloca em foco, a imprensa e sua importante função na história de qualquer país democrático. Via de regra, o que observo, é o jornalista cada vez mais diluído em algumas redações. Na defesa dos seus empregos, justificam através dos editoriais as teses da instituição que os remunera.
Mas há outro lado da moeda neste cenário. Os dados apontam que desde 1992, pelo menos 14 jornalistas foram executados no Brasil. Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPI), com sede em Nova York, o Brasil ocupa o 12º país mais perigoso para a profissão de repórter. O livro Mapa de Riscos no Brasil publicado pela Sociedade Interamericana de Imprensa, informa que os assassinatos atingem, sobretudo, jornalistas investigativos. É o que afirma a reportagem de Solange Azevedo2 publicada pela revista Época, que conclui ainda, sobre a certeza da impunidade aos criminosos. Esta reportagem dos anônimos que vai a campo, sem “glamour” se contrapõe aquela do gabinete.
É importante não esquecer que, durante todo o processo da ditadura, impeachment do Collor, o percurso das Diretas em nosso país, parte significativa da imprensa cumpriu papel fundamental de resistência e colaborou sobremaneira para todos esses processos.
E para finalizar, uma reportagem sobre Exorcismo pautada para o programa “Fantástico” da Rede Globo de Televisão poderia passar desapercebida. Apesar de nada de novo sobre o assunto, o que me chamou a atenção foi a resposta dada pelo padre exorcista oficial da Igreja Anglicana, famoso na Inglaterra por resolver esses casos.
Quando perguntado sobre como identificar, quais os sinais para uma possessão demoníaca, ele respondeu sem pestanejar, de forma bem teatral: “é como se alguém falasse uma língua africana, na Englaterra”. Subliminaridade esta, bem conhecida.
Depois de todas estas considerações é importante saber que a tentativa de “adestramento” à qual me referi no início do texto, apenas mudou de forma. Por isso é importante estar atento às releituras dos fatos passados.
Independente das transformações de valores e procedimentos que estão ocorrendo no o exercício da profissão, nenhuma matéria publicada e suas conseqüências fugirá do julgamento da história. Tenho dito!

Luiz Paulo Lima