Com índices de popularidade batendo em 83%, ele se dá ao luxo de eleger quem queira. Ego inflado, há muito perdeu a conexão da realidade sob uma República, e age como um soberano, um monarca, que cultiva o culto à personalidade a ponto de transformar o dia do aniversário em evento público – o Luladay – como nos velhos tempos em que os monarcas transformavam essas datas, em dias de beija-mão da plebe.
Há grotões no Nordeste em que seu retrato figura junto ao do Santo de devoção ou ao Padre Cícero, só para se ter uma idéia do grau do culto a que chegamos com o novo “pai dos pobres”, o “Getúlio de Garanhuns, ou de S. Bernardo”, como se queira. Será Dilma, como poderia ser Maria, Josefa, Joaquina.
A popularidade que lhe permitiu agir como um monarca lhe adveio muito mais do que deixou de fazer, do que pelo que fez. As demandas históricas dos setores explorados – em especial, das populações negras e pobres – continuarão a ser empurradas com a barriga, como vem ocorrendo há séculos.
O discurso de que retirou 28 milhões da linha de pobreza – graças ao Bolsa Família e a outras políticas de caráter puramente assistencialista e eleitoreiro, herdadas do Governo Fernando Henrique – será posto à prova na próxima crise do capitalismo, que, como se sabe, é um regime em que as crises são cíclicas. Quem já viveu o período áureo do famigerado Plano Cruzado, quando Sarney elegeu quase todos os governadores pelo PMDB, em 1.986, não pode ter dúvidas a respeito dos limites do ufanismo em que estamos todos envolvidos pela propaganda.
Os lucros dos banqueiros, a corrupção do Estado, os negócios dos grupos que transformam governos em balcões de compra e venda de favores, continuaram ao longo dos oito anos do reinado lulista, e continuarão sob a sua sucessora.
As mazelas de um sistema político que privilegia a política como negócio, e eleições como atividade de compra e venda de votos, visando a auto-legitimação, pode ter qualquer nome, menos Democracia. Sua função é exatamente a exposta nas eleições deste ano, em que apenas 7% dos 513 deputados se elegeram com votos próprios para a Câmara Federal. Os demais – 93% – estarão lá graças a legislação eleitoral, criada e mantida justamente para permitir, abalizar e legitimar cambalachos e negócios escusos.
Eleições que, na prática, se tornaram a maior lavanderia de dinheiro da propina, da corrupção e do “caixa dois”, só podem mesmo servir prá isso: prêmio e passe livre à corrupção generalizada, preservada para o bem dos sócios do sistema e infelicidade geral da nação – no caso, nós mesmos.
Para nós, os negros e a maioria pobre, sobrarão, como se sabe há séculos, as migalhas que caem da mesa da Casa Grande. Sobrarão os espaços do puxadinho, o modelo de inclusão subalterna.
Haverão os que, docilmente, continuarão a se submeter a esse modelo em troca de cargos na Esplanada e no Governo, favores diversos a eles e aos seus partidos. É visível quem são e como se movimentam, já desde a campanha. Sem autonomia, nem altivez, aceitam passivamente o papel que lhes cabe cumprir no script, no qual são apenas figurantes menores.
O resultado, todos sabemos. O Brasil continuará exibindo índices obscenos de desigualdade. A desvantagem de negros – por conta da herança maldita de quase quatro séculos de escravidão -continuará servindo de mote para teses na Academia, e justificando o discurso demagógico dos que, até aqui, tem se aproveitado da subserviência de alguns e da ignorância de muitos.
O modelo de governo do “Lulo-petismo”, agora com Dilma, reserva para a maioria da população que é negra e pobre (51,3%, de acordo com dados do IBGE), apenas isso: “puxadinhos” no Estado, que podem levar o nome de SEPPIR, ou qualquer outro; um Estatuto da Igualdade Racial, que é apenas uma declaração de boas intenções, e um ou outro programa, aqui e ali, para que a desigualdade não se torne um nervo exposto.
Quem ainda tem dúvidas, basta lembrar como a herdeira do “Lulo-petismo” saudou o “Brasil belo e mestiço”, uma das pérolas mais caras ao mito da democracia racial que, julgava-se, estaria ferido de morte. Não está, como se vê.
Três dias depois da declaração, a Polícia Militar do Governador da Bahia, o petista e amigo de Lula, Jacques Wagner, atacou e torturou brutalmente uma religiosa do Candomblé, Mãe de Santo, Bernardete Souza, e a lançou sob um formigueiro. Bem como se fazia nos tempos da escravidão.
O Governador nada falou, o Presidente também não e sua candidata continuará celebrando o “Brasil belo e mestiço” porque assim lhe mandam fazer os marqueteiros de plantão, que nessa sociedade de mercado substituíram a política pelo marketing e transformaram cidadãos ativos em consumidores passivos de qualquer produto – inclusive os políticos que a propaganda empurra goela abaixo.
É assim que Dilma Rousseff chega à Presidência da República. Ela é exatamente apenas o que aparenta: um produto da vontade de um único homem – Lula, burilado por marqueteiros que lhe amenizaram os traços, providenciaram uma imagem de administradora, (“Mãe do PAC”), lhe moderaram gestos e a fama de mandona que os mais próximos atestam ter.
Não por acaso, tanto Dilma quanto seu opositor – o tucano José Serra – tem mais convergências do que divergências; ao menos divergências de fundo não se viu, em mais de três meses de campanha.
Temas como aborto e privatização ganharam espaço na campanha e nos debates, não por acaso: para ambos era útil porque – diante da falta de propostas concretas para enfrentar problemas reais – podiam ocupar o tempo discutindo o desimportante e desviando a atenção do que realmente interessa: a obscena desigualdade social – que faz do Brasil um dos 10 países mais desiguais do mundo – e a herança da discriminação que atinge 51,3% da população brasileira, que é negra.
Às entidades negras sobrou o argumento do voto útil, tonificado pelo terrorismo verbal dos que afirmavam não quererem voltar ao passado, como se, em algum momento, tivéssemos saído dele.
Por um acaso, o governo sob o “Lulo-petismo” não foi apenas e tão somente a continuidade dos Governos tucanos – inclusive com o uso das políticas sociais de bolsa isso, bolsa aquilo, e da continuidade da política econômica, intocada sob a gerência e a administração do tucano, Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank Boston, chamado por Lula para ser uma espécie de fiador junto aos banqueiros?
A tentativa de negar a história, reescrevê-la, não será por um acaso, mas um golpe de esperteza? Levaram tão a sério que o povo brasileiro não tem memória, a ponto se sentirem a vontade para novos golpes de audácia – como este, de pretender que esqueçamos acontecimentos tão recentes, como os dos últimos oito anos?
E nesse ponto está um dos aspectos mais abomináveis do “Lulo-petismo”, da postura autoritária e mandonista da velha esquerda de sempre e dos seus quadros saídos da pequena burguesia para quem o horizonte das transformações sociais se esgota em fazer a sua própria revolução pessoal, mudar de vida: a arrogância.
Pretensos donos da verdade, não vacilam em lançar sua fúria fundamentalista contra quem discorda, como fiéis de alguma seita, e, uma vez no poder, assumem a atitude de novos-ricos. O “novo-riquismo” do neopetismo é, provavelmente, a face mais perversa da nova “religião”, porque a voracidade com que se lançam para abocanhar fatias do Estado, e a desfaçatez com que passam a justificar tudo, é notável.
O “Lulo-petismo” na sua arrogância pretende ser o começo e o fim da história. Não por acaso, se ouve com freqüência quase diária “o nunca antes neste país”, como um mantra de um pretenso criador do Brasil.
A vitória da candidata do “Lulo-petismo”, na prática terá uma conseqüência óbvia: durante quatro anos, estaremos todos à espera da volta do chefe máximo, o líder supremo que, a partir de 1º de janeiro, assumirá o papel de governo e de oposição, ao mesmo tempo. Resta saber, como se dará essa simbiose.
Ninguém se assuste, se, dependendo das circunstâncias tivermos um novo “movimento queremista” – como ficou conhecido, na década de 40, o movimento dos queriam a permanência no poder de Getúlio, o velho ditador.
Não é fora de propósito pensar no “queremismo lulista”, agora pela sua volta. Se as condições da economia continuarem como estão – o que não é previsível, dadas as crises cíclicas e os gargalos existentes na economia-, caberá à sucessora ligar o automático e aguardar sua volta, naturalmente, conforme o que está negociado e previsto para que ele, então, possa cumprir o ciclo de 20 anos no poder.
Se, no entanto, tivermos o retorno da crise, serão os próprios beneficiários do Bolsa família e a chamada nova classe média, que entrou no mercado de consumo ganhando em média R$ 1.200,00, a clamar pela volta do “salvador”. É nisso que estamos.
Para nós negros, solenemente ignorados por uns e outros, restarão as migalhas de sempre. O modelo capitalista que beneficia os grandes banqueiros, os grandes grupos econômicos, o lobismo associado e parceiro do Estado, não prevê a nossa inclusão. A nós, só o modelo da inclusão subalterna, o “puxadinho” disponível para uns poucos escolhidos – desde que virem às costas para a maioria.
Por tudo isso, é que, aos que querem um Brasil com Igualdade e Justiça, com Democracia que não se reduza ao direito/obrigação de comparecer as urnas para votar no candidato que o marqueteiro nos indica como o melhor, só resta uma saída: dizer não.
Da minha parte, não irei a “essa festa pobre”. Não direi, o “sim, sinhô” que vocês esperam pelo voto a que estou obrigado por um sistema corrompido, tão apodrecido quanto anacrônico. Em todos os votos que tiverem faltará um, porque eu me nego, a legitimá-los. Nas celebrações das vitórias que tiverem, saibam que entre os milhões de cidadãos brasileiros, faltará um.
É o mínimo que posso fazer. É o mínimo que cada um pode fazer. É o que nos resta.

Dojival Vieira