S. Paulo – Cristiano da Silva, 20 anos, o jovem negro morto pela Polícia, em mais um caso de “resistência seguida de morte”, não tinha como reagir empunhando o revólver Taurus calibre 380 com a mão direita, conforme consta do Boletim de Ocorrência, e por uma única razão: ele era conhoto, segundo a mãe, a diarista Cristina da Silva, que já depôs no Inquérito Policial Militar instaurado pela PM para apurar as circunstâncias da morte.
Cristiano, (o primeiro na foto com amigos da rua onde morava) teria reagido a tiros ao ser abordado na direção de um carro roubado, na Estrada Santa Inês, próximo à saída para Mairiporã na madrugada de 16 de maio passado.
Segundo os PMs Roberto Juvenal dos Santos, 29 anos, e Diego Leonardo Silveira, 26, ambos da 3ª Companhia do 47º Batalhão da Polícia Militar, o rapaz não teria obedecido a ordem de parar, e só o fez depois de bater o carro num barranco e ao sair do veículo já teria saído atirando.
Cristiano foi atingido por dois dos quatro tiros – um no peito e outro no abdômen e morreu, possivelmente, a caminho do Hospital, para onde foi levado pelos próprios PMs que o alvejaram.
Exame Residuográfico
A Polícia Militar, que investiga o crime, ainda aguarda os resultados do Exame Residuográfico e da perícia técnica, que podem trazer novos elementos para elucidar as circunstâncias em que teria ocorrido o suposto confronto. No caso do Exame Residuográfico que foi solicitado ao IML, antes do corpo ser enterrado, poderá definir se o rapaz, de fato, atirou, conforme a versão da Polícia. O exame definirá se há resquícios de pólvora na mão direita de onde teria partido o tiro.
Além do “detalhe” de que Cristiano era conhoto, há outros que tornam a história contada pelos policiais, ainda mais suspeita: o dono do carro roubado, não reconheceu o rapaz, e o roubo ocorreu numa área muito distante da Vila Nova Cachoeirinha – o Carandiru – antes mesmo que Cristiano saísse de sua casa às 22h; dona Cristina também conta que, no IML das Clínicas, lhe disseram que o “caixão deveria ser lacrado” e ela não poderia ver o corpo.
“Como meu filho podia estar num carro roubado, dirigindo sozinho se não tinha habilitação para dirigir?, se perguntou ela ao depor na última terça-feira (29/06), no IPM, presidido pela 1ª Tenente, Camila Cristina Brancalhão. A Tenente disse que a PM tem todo o interesse em esclarecer o crime.
Coração de mãe
“Meu coração de mãe não se engana. Foram eles (os policiais) que mataram meu filho e eu vou até o fim para que a Justiça seja feita. Meu filho foi executado. Eu espero Justiça. Que outras mães não passem por isso”, disse dona Cristina, que, ficou com a irmã gêmea de Cristiano – Cristiane – e Raí, um menino de 7 anos, filho adotivo, que cria desde o primeiro mês de vida, e que tem paralisia cerebral.
Segundo a Tenente encarregada do Inquérito, a investigação deve ser concluída em 40 dias. Os dois policiais já foram ouvidos. Eles contaram a mesma história: o rapaz, na condução do carro roubado, não teria obedecido a ordem de parar e, ao fazê-lo, atirou primeiro, sendo alvejado a uma distância de cinco metros. Só dois dos quatro tiros, porém, o atingiram – um no peito e outro no abdômen. Foram os próprios PMs que o levaram até o Hospital de Vila Nova Cachoeirinha, onde já teria chegado morto.
A mãe, porém, no domingo, dia 16/05, percorreu Delegacias e esteve no próprio Hospital, onde lhe disseram que ninguém com as características do seu filho havia sido atendido.
Cristiano, segundo dona Cristina não tinha arma, não sabia atirar. Ela disse que não tem o menor sentido a versão da PM de que seu filho estava na direção de um carro roubado quando foi abordado. “Meu filho nunca teve uma arma e não tinha habilitação”, conta.
Inquérito
Além do IPM, há um Inquérito Policial no 38º que também investiga as circunstâncias da morte. A Corregedoria da PM também estaria acompanhando o caso, por determinação do comandante geral da PM, coronel Álvaro Camilo.
Este foi o terceiro caso de morte de um jovem negro, num período inferior a 60 dias: os dois primeiros – os motoboboys Eduardo Luiz Pinheiro e Alexandre Menezes, ambos negros – desencadearam uma onda de protestos do Movimento Negro e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.
Cobrado a tomar providências, o comandante geral da PM, Álvaro Camilo, trocou o comandante da área e designou novo Corregedor – o coronel Gervásio Moreira, que é negro.
Governador
Dona Cristina, que já procurou o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, disse que quer agora uma audiência com o governador Alberto Goldman para lhe pedir que determine rapidez nas investigações. “Não vou aceitar que além de matarem o meu filho, ele tenha sido enterrado como um ladrão de carro, coisa que ele nunca foi. Era um menino honesto e trabalhador que me ajudava no sustento de casa”, afirmou.
A última vez que dona Cristina viu o filho com vida foi no no sábado 15 de maio quando ele saiu para se divertir com amigos na “Sedinha”, um bar com música funk no Jardim Imperial na Zona Norte, a duas quadras da casa onde morava. Depois só foi encontrá-lo no dia 17/05, segunda feira, no Necrotério do Hospital das Clínicas.

Da Redacao