Creio ser do conhecimento de muitos que, no passado, o Vale do Paraíba paulista – região localizada entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira – foi o maior centro produtor nacional de café. Mas me parece que ainda hoje pessoas do próprio Vale ignoram que o prestígio e a riqueza da oligarquia cafeeira regional só foi possível porque o negro escravizado foi o principal responsável pela prosperidade das extintas lavouras de café. Sendo assim, ainda que alguns não reconheçam, não dá para negar que quem de fato impulsionou a econômica brasileira do passado não foram os Barões do Café – os Titulares do Império – e sim a população negra natural ou radicada no Vale paulista.
Por sua vez, essa gente negra do passado, também escreveu outros capítulos da história regional e nacional, capítulos esses também não tão conhecidos assim. Por exemplo, no ano de 1836, na fazenda Rio Claro – no município de Paraibuna – viveu Caetana, a primeira mulher negra escravizada brasileira a pedir e a obter oficialmente a anulação de seu casamento. Sim, ao dizer não aos costumes e às determinações da época, a negra, não só afrontou os senhores brancos como inaugurou um novo tempo na relação de gênero. E em Taubaté, de 1871 a 1888, escravizadas, forras e libertas impetraram centenas de ações judiciais no Fórum local, pedindo a guarda de seus próprios filhos. 80% dessas ações judiciais foram julgadas procedentes, o que caracterizou fato raro na região, no estado e no país.
Porém, a competência e o vanguardismo dos negros do Vale paulista, não é coisa do passado. Exemplo disso é que há algumas décadas, o mundo conheceu o jovem natural de Pindamonhangaba, João Carlos de Oliveira – João do Pulo – recordista mundial de salto triplo e, mais tarde, deputado estadual. E quando o assunto é música erudita, ninguém é mais nacionalmente e internacionalmente consagrada do que a taubateana contemporânea e mezzo soprano, a Mere Oliveira.
Também no campo das artes, negros do Vale paulista se destacaram/destacam no Brasil e no mundo como, por exemplo, os membros da família de Bartholomeu Nogueira – também de Taubaté – artesãos que, ao longo dos anos, espalharam seus trabalhos em argila – as tradicionais figuras de barro – não só pelo Brasil como também pela França, Itália, Argentina, Japão, Estados Unidos.
E para quem ainda não sabe, nasceu em São Luiz do Paraitinga – região denominada de Alto Paraíba – um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, inclusive, responsável pela maioria das trilhas sonoras dos filmes de Amácio Mazaroppi. Falo de Elpídio dos Santos, que deixou mais de mil composições, todas elas catalogadas e ainda hoje preservadas pelos seus familiares. Muitas dessas composições foram gravadas por cantores como Cascatinha e Inhana, Irmãs Galvão, Sergio Reis, sendo que a canção intitulada Despertar do Sertão foi, sim, a primeira música brasileira tocada na rádio BBC de Londres. E no terreno da literatura, qual negro brasileiro – principalmente os do Vale – não teve ataque de alegria ao saber da eleição e da posse recente de Ruth Guimarães Botelho – natural de Cachuera Paulista – na Academia Paulista de Letras. Sim, aos 88 anos de idade, Ruth foi/é a primeira mulher negra a ocupar cadeira naquele egrégio sodalício.
Enfim, a lista de pessoas negras nascidas no Vale do Paraíba paulista que se destacaram/destacam nacionalmente em diferentes áreas não pára por aqui. Vai além, muito além, sobretudo se incluirmos aqueles talentos que sabe-se lá por quais motivos ainda não tiveram o merecido reconhecimento. Porém, é preciso que se diga que o desconhecimento do trabalho dessas pessoas negras ocorre, inicialmente, em razão daquela mentalidade equivocada e atrasada, aquela que assevera que quem nasce/nasceu no interior não pode ter o mesmo talento daqueles que nascem/nasceram nos grandes centros.
Depois, some-se a isso a pouca ou quase nenhuma divulgação – regional e nacional – dos feitos dos nossos irmãos negros, seja por parte da mídia, dos próprios movimentos negros regionais e, sobretudo, por parte daqueles que se intitulam conhecedores da nossa história regional.
Lamentável, terrivelmente lamentável constatar tamanha desinformação, insensibilidade e exclusão, posto que verdadeiramente e em todos os tempos muitos negros do Vale do Paraíba paulista estiveram, sim, absolutamente presentes na história do Brasil.

Sônia Ribeiro