SÃO PAULO – No dia Internacional contra a Discriminação Racial, e em meio a maior crise sanitária e de saúde de sua história, o Brasil vive um verdadeiro genocídio que atinge, em especial, as populações negras e pobres, as mais atingidas pela Covid-19. O número de mortos se aproxima de 300 mil e tende a aumentar segundo todas as autoridades médicas, por conta do colapso do sistema de saúde.

O colapso do sistema foi provocado pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro que, além de desdenhar da gravidade da doença, não comprou as vacinas disponíveis e militarizou o Ministério da Saúde, colocando na pasta um general da ativa do Exército, Eduardo Pazuello, agora de saída. No momento, governadores adotam medidas desesperadas para restringir a disseminação do vírus, contra medidas de Bolsonaro, inclusive, no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

Estudo inédito da Vital Strategies com o apoio do Afro-Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), comprova o que já é conhecido por todos os demais indicadores: houve um excesso de mortes em 2020 de 27,8% para pretos e pardos enquanto para os brancos foi de 17,6%.  Embora todas as regiões tenham apresentado excesso de mortes, no Sudeste, e em especial em S. Paulo, e no Sul, é onde aparecem as maiores taxas de desigualdades raciais.

A coordenadora do estudo médica Fátima Marinho, pesquisadora sênior da Vital Strategies, contudo constatou que, em S. Paulo, enquanto para os brancos o excesso foi de 11,5% para os negros chegou a 25,1%. Ou seja morreram mais que o dobro. No caso das faixas de até até 29 anos, o excesso de mortes entre negros chega a quatro vezes a dos brancos. Apesar de todas as regiões terem apresentado excesso de mortes, é no Sudeste, em especial em São Paulo, e no Sul, onde aparecem as maiores taxas de desigualdades raciais. O Estudo foi feito a partir de dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde e do Sistema de Informação da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais.

MAIS LETAL PARA NEGROS(AS)

Dados do Ministério da Saúde mostram desde o início da pandemia que a Covid-19 sempre foi mais letal entre negros e pardos. Dos hospitalizados com Síndrome Respiratória Aguda Grave, 23,9% são dessa camada da população, mas eles chegam a representar 34,3% dos mortos por Covid-19. Já com a população branca, a situação é oposta: o número de óbitos é menor do que o de internados. Eles representam 73% dos hospitalizados e 62,9% das mortes. Segundo especialistas, a classe e a condição social da população preta podem estar por trás da diferença nos números.

O excesso de mortes é o número de óbitos superior ao que era esperado para o período levando em conta uma série histórica. A estratégia é recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para avaliar os efeitos diretos e indiretos da pandemia.

O método considera todos os óbitos por causas não externas (acidentes, mortes violentas), independentemente da causa básica de morte. Assim, o resultado não sofre interferência da conhecida subnotificação da Covid e contempla as mortes indiretas pela pandemia, causadas, por exemplo, pela sobrecarga nos hospitais públicos e interrupção de tratamento de doenças crônicas.

MAIS CHANCES DE MORRER

Também de acordo com pesquisa pela Universidade de Cambridge, pessoas pardas e negras, principalmente no norte e nordeste do país, tem mais chances de morrer vítima do novo coronavírus. As desigualdades sociais históricas registradas pelo país estão patentes nos números de mortos pela doença em hospitais, segundo o estudo “Variação étnica e regional na mortalidade por Covid-19 em hospitais no Brasil”, realizado pela Universidade de Cambridge, em parceira com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

O documento inédito alerta que negros e, sobretudo pardos, estão mais sujeitos ao risco de morte, e que as populações do norte e nordeste têm taxa de mortalidade mais alta. Eles também apresentam mais comorbidades do que no resto do país — o que explica, em boa medida, o número de óbito nestes estados.

“Ser pardo é o segundo maior fator de risco, depois da idade, no Brasil”, afirma à RFI Mihaela Van der Schaar, professora de Inteligência Artificial e Medicina do Centro John Humphrey Plummer da Universidade de Cambridge, uma das autoras do relatório. De acordo com o documento, o risco de morte entre a população parda é 47% maior em comparação com a branca.

O trabalho, que começou a ser elaborado pelos pesquisadores há quatro semanas, surgiu justamente da preocupação de avaliar a potencial vulnerabilidade de uma população tão diversa como a brasileira. “Nosso relatório confirma que a etnicidade, infelizmente, é particularmente um risco proeminente para a mortalidade por Covid-19. Os grupos étnicos de pardos e negros em especial estão mais sujeitos a riscos”, afirma Van de Schaar.

O impacto das disparidades sociais na perda de saúde da população negra pobre é muito conhecido. Elas determinam, por exemplo, uma menor expectativa de vida comparado com a população branca, maior mortalidade infantil e mais mortes por causas evitáveis e por violência.

Várias pesquisas nacionais mostram que os negros têm mais doenças crônicas, por exemplo. Entre outros fatores, estão as condições precárias de vida e menos acesso aos serviços de saúde. Com a pandemia, a perda de saúde dos negros foi somada à dificuldade de se fazer isolamento social, afirma Fátima Marinho da Vital Strategies. As grandes diferenças estão nos extremos etários, nos jovens e nos idosos. “Um porque sai de casa para trabalhar, pega transporte público lotado, e outro porque não consegue ter distanciamento dentro de casa, das comunidades, e porque já perdeu muita saúde”, diz a médica.

Para a socióloga Márcia Lima, professora da USP e pesquisadora do Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa e formação sobre a questão racial, a pandemia revela de forma mais contundente a histórica desigualdade racial. “O caminho para enfrentá-la passa pelo fortalecimento do SUS e de seus programas e o investimento nos equipamentos públicos de saúde das periferias”, diz.

O advogado Pedro de Paula, diretor da Vital Strategies no Brasil, diz que em outros países, como os Estados Unidos, também ocorreram disparidades raciais na pandemia, mas há políticas públicas em curso para tentar atenuá-las por exemplo, priorizar a vacinação dos mais vulneráveis. “Nos EUA, há uma busca ativa e comunicada desses grupos, com esquemas diferentes de vacinação, locais e horários”, afirma. No Reino Unido, ocorre o mesmo. “Foram identificadas as áreas mais vulneráveis e os mais vulneráveis dentro delas. O critério não é só idade”, reforça Marinho.

Na corrida pela vacina também os negros estão em desvantagem. Há mais pessoas brancas que negras vacinadas contra o coronavírus no Brasil. Essa é a conclusão de um levantamento exclusivo feito pela Agência Pública a partir dos dados de 8,5 milhões de pessoas que receberam a primeira dose das vacinas contra a covid-19 aprovadas e aplicadas no país.

Apesar de a vacinação no Brasil ter se iniciado com uma mulher negra há quase dois meses — a enfermeira Mônica Calazans — hoje há cerca de duas pessoas brancas para cada pessoa negra vacinada. A desigualdade permanece se considerarmos a divisão da população brasileira: há menos negros vacinados em relação à quantidade de brasileiros que se declaram negros quando comparada à população branca que foi vacinada.

A diferença nos dados de vacinação entre brancos e negros é ainda mais grave devido à desigualdade da mortalidade pela covid-19 no Brasil: das pessoas que tiveram a doença no país, há proporcionalmente mais mortes entre negros que brancos. Além disso, negros são a maioria absoluta dentre os casos registrados de covid-19 no Brasil e também das mortes. Segundo a Pública apurou, no Brasil, há 3,2 milhões de pessoas que se declararam brancas e que receberam a primeira dose de uma vacina contra a covid-19. Já entre pessoas negras, esse número cai para pouco mais de 1,7 milhão.

 PS. Da Redação, com informações das Agências, da Agência Pública e do Jornal Folha de S. Paulo.