S. Paulo – Uma reunião na última quinta-feira, no gabinete do senador Paulo Paim, em Brasília, entre as lideranças da Marcha Zumbi + 10, pode ter representado a unidade dos vários grupos do movimento negro em relação à pelo menos um ponto: a data da Marcha, que deve acontecer mesmo no dia 16 de Novembro.
Da reunião participaram representantes da Conen – Coordenação Nacional de Entidades Negras, da Central Única dos Trabalhadores, da Unegro, do Movimento Negro Unificado e da Enegrecer, entidade de Brasília, com um dos idealizadores da Marcha, Edson Lopes Cardoso, editor do Jornal Irohin.
A proposta da Marcha é reunir pelo menos 100 mil negros e negras de todo o país em frente ao Congresso Nacional para reivindicar políticas públicas do Estado e manifestar a posição do povo negro brasileiro, cerca de 80 milhões, de acordo com o IBGE.
Segundo o próprio Cardoso, as entidades que vinham defendendo a data de 22 de novembro, por conta do feriado de 15 de novembro, voltaram atrás e concordaram com uma data unitária. Entidades como a Conen e a Unegro, mais ligadas ao PT, ao PC do B e ao Governo Lula, vinham defendendo a data de 22 de novembro, alegando que, por causa do feriado do dia 15 ocorrer no meio da semana, a Marcha poderia ser esvaziada. Este ano o 20 de novembro cai num domingo.
Para selar a unidade em torno de uma data única ainda haverá uma reunião entre as entidades que defendem o dia 16, no dia 13 do mês que vem. As entidades que querem o dia 22 se reúnem numa plenária nacional marcada para o dia 20. Depois disso, haverá uma reunião com representantes das duas alas para fechar o acordo.
Cardoso disse que a Marcha Zumbi + 10, que acontece 10 anos depois da primeira manifestação de massa da população negra em Brasília para exigir políticas públicas do Estado, será um momento não apenas, para fazer reivindicações, mas para o lançamento de uma Declaração política da população negra sobre o que pensa e o que quer.
“A Marcha é uma oportunidade para nos colocarmos numa briga de cachorro grande. Vai ser preciso que agente se manifeste sobre corrupção e tudo o que está acontecendo. A conjuntura vai exigir de nós uma declaração política. O que os negros têm a dizer sobre Democracia, inclusão social e tudo o mais”, afirmou.
Cardoso foi o expositor convidado pelo Conselho de Participação da Comunidade Negra do Estado de S. Paulo, para falar sobre a questão racial e a Marcha Zumbi + 10 para cerca de 150 conselheiros de várias cidades do Estado, a maioria do interior. O encontro no Hotel Normandy, centro de S. Paulo, foi aberto pela manhã pela presidente Elisa Lucas Rodrigues e pelo Secretário Estadual da Justiça e Defesa da Cidadania, Hédio Silva Jr.
Veja a seguir trechos da exposição de Edson Cardoso:
1. Racismo no mercado de Trabalho
“Não ter acesso ao mercado de trabalho porque uma pessoa é negra, é negar a possibilidade de subsistência, negar o direito à vida, simplesmente porque você é negro. Tem gente que tem o privilégio de não precisar trabalhar, mas no nosso caso não. Ou você trabalha ou morre, perde as condições de sobreviver.”
2. Ações Afirmativas
“O Estado que assinou a Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação, que é membro, é obrigado a assumir medidas especiais em defesa de grupos atingidos pelo racismo e pela discriminação racial”. As medidas têm de ser datadas. Cotas são medidas especiais e criam compromissos com as mudanças da situação estrutural criada pelo racismo. Exemplo: a universalização da pré-escola é uma das reformas estruturais possíveis. O governante que adota cotas e corre para a galera para receber aplausos, imagina que as cotas criam descompromisso. E as cotas são precisamente o contrário: criam compromisso com as mudanças estruturais. Cota é arrombar a porta. E agora. Mas, ao mesmo tempo, exigem mudanças para que elas não sejam mais necessárias depois. Não sejamos ingênuos: atrás da verdade da urgência das cotas pode ter um pensamento conservador. Nem todo mundo que defende cotas pensa igual não. Há os que vêem como medidas superficiais e os que defendem mudanças estruturais.
3. Juventude Negra
“Ser jovem e negro no Brasil é uma coisa terrível. Nós devemos ouvi-los. Devemos estar com eles. É possível que as estatísticas sejam muito piores do que o que a Unesco vem dizendo. Defendo que no Dia de Finados que antecede a Marcha, deveríamos sinalizar com essa possibilidade de que não queremos mais descobrir quem matou, mas que não se mate mais. É preciso procurar as covas rasas onde estão os jovens negros, porque eles não estão nas covas de mármore”.
4. Estratégia de luta contra o Racismo
“Se você luta contra o racismo, não no abstrato, mas no concreto, o objeto da nossa atenção tem de ser o policial negro que fala assim: “tem de morrer mesmo” para o irmão negro; tem de ser aquele que quer embranquecer, que não tem orgulho de sua cor. Tem de construir um programa para essas pessoas, que o racismo impede que possam saber de si. Por conta do racismo temos dificuldades em nos reconhecermos no outro. É o racismo que faz isso”.
5. Marcha Zumbi + 10
“Se não tivesse a Marcha à população negra não teria nenhuma visibilidade nesta conjuntura. A Marcha é uma oportunidade de nos colocarmos numa briga de “cachorro grande”. Vai ser preciso que agente se manifeste sobre corrupção. A conjuntura vai exigir de nós uma declaração política. O que os negros têm a dizer sobre democracia, inclusão, uma declaração política. Vai permitir que a dimensão política do movimento negro apareça como nunca apareceu antes. Esse tipo de briguinha que agente vê entre os grupos, entre pessoas desse ou daquele partido, não ajuda. Se você é de um Partido, tudo bem, mas recolha a sua bandeira partidária. Se não, não vamos está à altura deste momento. Nós negros queremos fazer política, queremos participar desta discussão. Nós estamos aqui desde 1.530. Nós chegamos aqui e fomos para o centro do furacão sempre, estivemos sempre no centro das coisas, da produção intelectual, cultural, etc. Quando alguém nos junta a ciganos, e diz que é a mesma coisa, ou não sabe do que fala ou não conhece a história do Brasil. Os ciganos, com todo o respeito que nos merecem, são um povo e uma cultura nômades, mas nunca estiveram no centro de nada. Fomos nós que colocamos na Constituição que racismo é crime. Não dá pra ficar misturando essas coisas. Nossa questão é específica, de fundo, é essencial para o país. Então temos de dizer na Marcha o que somos e o que queremos. Nós queremos dizer para onde o Brasil deve ir”.
6. Organização da Marcha
“A proposta da Marcha não é de um projeto político, mas sim, chamar a atenção de todo o mundo, ir à mesma direção, independente de divergências, partidárias ou não”. Este é o ganho. Não é hora pra gente ficar se dividindo por razões partidárias ou de governo. Pra isso devemos ter uma direção que não seja do tipo soviético – uma executiva e o resto fica de fora. Outra coisa: depois da Marcha agente não pode voltar à estaca zero; precisamos preservar algo disto. O impacto que uma Marcha como essa vai ter na agenda eleitoral do próximo ano é imensa. Eu duvido que depois dessa Marcha todos os candidatos não falem da questão racial. Com o impacto da Marcha os partidos serão obrigados a apoiar mais os candidatos negros. Então todos ganham.
Mas agente quer que quem ganhe seja a população negra. Temos de sair de lá com o Estatuto da Igualdade Racial aprovado com o Fundo. Como os agricultores que saíram com R$ 3 bilhões do FAT”. A aprovação do Estatuto com o Fundo teria esse significado.”.

Da Redacao