As marcas da exclusão doem como ferro em brasa.
Não seremos mais invisíveis nesta terra chamada Brasil.
Nesta terra para a qual nossos ancestrais foram trazidos a ferro e fogo e onde fizemos a casa, erguemos os alicerces, semeamos o campo, porém, onde jamais tivemos o direito de morar; de sentar à mesa, de partilhar dos frutos da colheita.
Não aceitamos mais o estigma, a suspeição. Não somos Menos. Somos, no mínimo, Iguais. A nós, nem aos nossos filhos, nem a nossa gente – espalhada pelas novas senzalas – interessará mais os restos que caem desta imensa Casa Grande chamada Brasil.
Não toleramos mais que, aos nossos filhos, a herança desta terra que ajudamos a fazer com o nosso sangue e suor – seja a auto-estima destruída, a juventude ceifada, a morte precoce.
Não queremos mais contar nossos cadáveres, nem aceitamos ser apenas os números das estatísticas. Nos respeitem! Antes que a nossa paciência – que tem sido imensa -, não se esgote. Não confundam nossa paciência com submissão. Nem tampouco com vocação à passividade.
Nossos antepassados escravizados jamais se conformaram a esta sina. O espírito de Zumbi está em nós. O espírito de Zumbi vive em nós!
Pouco importa se seremos 20 ou 20 mil nesta quarta-feira, 16 de novembro. O que importa mesmo é que negros e negras de todo o país, marchando com suas próprias pernas, terão dito à frente dos Palácios em Brasília, que é preferível dar um passo que seja – porém, ser livre, independente com autonomia e movendo as próprias pernas – do que ter a ilusão de dar mil, atado a correntes. Correntes sempre serão apenas isso: correntes.
Pouco importa o quanto seremos. O que ficará para os nossos filhos e para os nossos netos, e para os bisnetos e para as gerações que vieram após nós daqui a 500 anos, é que valorosos homens e mulheres decidiram dizer, alto e bom som, em frente aos Palácios, em Brasília, que esta Pátria, ao menos para nós, por ora, é madrasta.
E nunca foi Mãe. Muito menos gentil!