Brasília – Em meio a crise política que esta semana atingiu a base de apoio ao Governo com a demissão do ministro Cid Gomes, da Educação, um grupo de ativistas do movimento negro governista decidiu interferir na reforma ministerial lançando o nome da atual chefe da SEPPIR, Nilma Lino Gomes, para a Educação.

Em manifestos e abaixo-assinados nas redes sociais, seus articuladores afirmam que “o MEC precisa de um gestor nomeado por critério técnico, que tenha profundo conhecimento da Educação brasileira”, e acrescentam que Nilma – ex-reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afrobrasileira (UNILAB), escolhida por Dilma para ser ministra da Igualdade Racial – reuniria tais qualidades.

A indicação chegou ao Palácio nesta quinta-feira (19/03), durante reunião de alguns líderes do movimento negro governista com o ministro chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto.

Entre os presentes estavam o coordenador da União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), Edson França, do Comitê Central do PC do B, e o diretor executivo da Educafro, a maior rede de cursinhos pré-vestibulares do país, Frei David Raimundo dos Santos.

David, embora não pertença a nenhum partido, foi um dos mais entusiastas apoiadores da presidente Dilma Rousseff, posou com ela para fotos de campanha e tem sido uma das presenças mais frequentes na Esplanada.

Constrangimento

Na reunião com Rossetto, que teve a participação da própria Nilma, antes de ser apontada como sucessora de Cid Gomes, a ministra chefe da SEPPIR teria sido constrangida pelos seus pares do movimento negro, em um episódio que, para alguns analistas, revela “o despreparo político e o perfil ético dos porta-vozes”.  

Precisando sair para atender a um telefonema, Rossetto teria sugerido que a reunião não fosse interrompida e continuasse sob a coordenação de Nilma, o que foi recusado pelos presentes que só teriam aceitado continuar a reunião sob a coordenação de Rossetto.

Afropress não teve acesso a lista dos participantes da reunião e tentou, sem sucesso, falar com França e Frei David. O incidente, porém, foi confirmado por uma das pessoas presentes que pediu para que seu nome fosse mantido em sigilo.

Para esses mesmos analistas, apesar do currículo, as chances de Dilma indicar Nilma para a Educação "numa escala de zero a dez são menos um".

Renúncia

No mês passado, Nilma se viu envolvida em outra polêmica quando decidiu se manter como conselheira da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, enfrentando a oposição de setores em campanha pela indicação do  professor Paulino Cardoso, presidente da Associação Nacional de Pesquisadores Negros (ABPN), da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Apesar de, no início, ter resistido renunciar, a ministra cedeu após uma conversa com o presidente do Conselho, Gilberto Gonçalves Garcia. A carta com a renúncia já foi encaminhada ao ministro da Educação.

A saída da ministra das funções de conselheira, que ocupava desde 2010, porém, não aumentou as chances de Cardoso, o nome que reúne mais apoios entre setores influentes do movimento negro partidário.

Com a saída de Cid Gomes, depois do bate-boca com parlamentares no Congresso, e a indefinição sobre quem vai  substituí-lo no MEC, a indicação do substituto de Nilma no CNE voltou à estaca zero.

Pelo menos uma vaga de conselheiro no Conselho Nacional de Educação, vem sendo ocupada por personalidades negras do mundo acadêmico desde o Governo Fernando Henrique, quando o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, indicou a professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, da Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar).

No mês passado, nove entidades, entre as quais a própria ABPN, presidida por Cardoso, divulgaram manifesto em apoio ao seu nome. No manifesto, as entidades, criaram uma saia justa para Nilma anunciando que o cargo de conselheira estaria vago, antes mesmo que a mesma renunciasse.

Da Redacao