Este título é parte de um canto muito entoado entre os grupos que compõem a manifestação cultural de raiz africana popularmente conhecida como Congado, Reinado ou Festa da Congada. E é sobre esse universo presente na maioria dos estados brasileiros que falarei brevemente. O congado representa o reinado e a coroação simbólica dos reis africanos no Brasil. Essa festa fortalece as raízes da identidade do povo negro e sua tradição vem sendo transmitida de geração a geração para celebrar por meio de cantos e danças a cultura trazida da África para cá. Em Olímpia a celebração desse Reinado está presente desde 1974 com o Terno de Congada Chapéus de Fitas que neste ano de 2015 realiza a décima quarta edição da Festa do Congado, do dia 10 ao dia 17 de maio de 2015.

 Essa tradição secular além de espalhar pelas ruas de Olímpia o colorido de suas fitas e a alegria de seus cantos e danças, vem denunciando as consequências do tempo do cativeiro. Ou seja, muitos congadeiros explicitam as condições sociais impostas ao negro e sua a cultura antes, durante e após a escravidão. Segundo Luiza Bairros, ex-ministra da Seppir, a data 13 de maio entrou para o calendário da história do país, então não tem como negar este fato, mas essa “data é, desde o início dos anos 80, considerada pelo movimento negro como um dia nacional de luta contra o racismo. Exatamente para chamar atenção da sociedade para mostrar que a abolição legal da escravidão não garantiu condições reais de participação na sociedade para a população negra no Brasil”.

De fato, a abolição formal da escravatura ocorreu no dia 13 de maio de 1888, mas os negros ainda continuam excluídos e marginalizados pela sociedade; ainda somos chicoteados pelo racismo. O que ocorre hoje é a consequência da ausência do Estado, dos escravizadores, da Igreja e de qualquer outra instituição que se eximiram da responsabilidade pela vida, manutenção e segurança dos escravizados libertos pela lei na época. Todos foram omissos e imputaram condições que discriminou, rejeitou e proibiu que os negros adentrassem na organização da vida e do trabalho no pós-abolição. As desigualdades sociais do Brasil de hoje têm suas raízes na desigualdade racial provocada pela escravidão.

Por isso, que somos, ainda, as principais vítimas do maltrato diário, da discriminação constante e da violência militar. Homens, mulheres, adultos, jovens, crianças e idosos negros ainda são o alvo principal da chacota social, ora travestida pela insolência da comédia e do humor em cadeia nacional, ora pela desumanização de seus corpos e de sua produção intelectual e cultural. Mais de 70% dos negros permanecem em condições miseráveis e bem semelhantes às condições impostas aos escravizados após a abolição. Pouca coisa mudou de lá para cá, o Brasil dos brancos é rico e o dos negros permanece ainda muito pobre. Segundo o Prof. Marcelo Paixão, do Instituto de Economia da UFRJ, se considerássemos o IDH (Índice do Desenvolvimento Humano) somente das pessoas brancas, verificaríamos que o Brasil ocuparia a 40ª posição do IDH, por outro lado, se considerássemos o IDH das pessoas negras o Brasil cairia para a 104ª posição no ranking. Tal realidade seria semelhante a qualquer outro país em extrema pobreza.

Ainda somos a carne mais barata do mercado. O que nos falta? 

Falta dignidade e acesso igualitário aos bens e serviços do país. Por isso, nossa demanda por equidade e direito à justiça permanece. Pois, a herança colonialista ainda se faz presente na cultura do país, por meio do pensamento social, das instituições e das práticas indecorosas que subjugam a humanidade dos africanos e de seus descendentes. O tempo do cativeiro ainda nos assola, basta observarmos as estatísticas que revelam a intolerância religiosa contra as manifestações de matriz africana, o genocídio da juventude negra, e ainda, as inúmeras desigualdades entre negros e brancos no mercado de trabalho, na educação, no esporte, na economia, no acesso a saúde, cultura e lazer.

Sendo assim, a celebração dos grupos dentro do Congado em alusão ao 13 de maio desde aquela época, traz a dimensão de comunidades negras que valorizam a resistência de seus antepassados; que reconhecem sua luta a favor da liberdade; que reconhecem a luta dos africanos e sua resistência desde os primeiros dias que pisaram forçosamente nesta terra.

Essa ação cultural e coletiva ocorre no sentido de reconhecer todo o sofrimento daquela época em respeito aos nossos ancestrais. Conservar essa memória das pretas e dos pretos velhos garante que a história e a tradição desse povo permaneçam vivas, sem cair no esquecimento, pois a cada ano de celebração suas memórias e trajetórias vão sendo constantemente rememoradas e atualizadas pela comunidade.

Celebrar a memória dos ancestrais traz a dimensão da resistência congadeira preconizada ao longo dos quase 400 anos de escravidão, cujo anseio por justiça, equidade e direito a exercer sua cultura com dignidade ainda permanece. Neste 13 de maio reivindicamos o direito de ter acesso e permanência nas universidades; reivindicamos a garantia da segurança e da manutenção da vida dos nossos jovens; sobretudo, reivindicamos o direito à liberdade de viver bem e melhor contra o racismo e pela igualdade racial! E mais, reivindicamos a liberdade de mais da metade da população brasileira que ainda continua acorrentada aos grilhões das desigualdades sociais e da estrutura da tradição racista no país.

Convidamos você para estar conosco na 14ª edição da Festa do Congado em Olímpia, segue a programação, axé! Viva a resistência de nossos ancestrais!

 

Tatiane de Souza Silvério