Salvador – O desmantelamento dos sistemas de opressão no mundo começa com uma reflexão pautada pela visão positiva que cada um tem de si próprio. A partir do momento em que se passa a ter uma visão positiva de si mesmo, as pessoas se transformam em agentes de mudança.
Esse é o principal legado deixado por Steve Biko, o líder negro sul-africano, fundador do Movimento Consciência Negra, morto sob tortura, em setembro de 1.977, nos cárceres do regime do Apartheid, segundo o seu filho mais velho Nkosinathi Biko, 41 anos (no centro da foto), que está no Brasil para contatos com lideranças e com o objetivo de estreitar os laços de parceria e cooperação com entidades e organizações negras e antirracistas.
Nkosinathi é o principal executivo da Fundação Steve Biko, que se dedica a preservar a memória do líder negro sul-africano, e esta é a segunda vez que vem ao Brasil. Na segunda-feira (12/03) tem um encontro, no Rio, com o cantor e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil.
Ele já esteve no Instituto Lula, do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, em S. Paulo, e manteve reunião de trabalho nesta quarta-feira (07/03) com dirigentes do Instituto Steve Biko, com sede em Salvador. Também deve ir à Brasília antes de retornar à Africa do Sul.
De acordo com Silvio Humberto, diretor de Comunicação do Instituto, o objetivo da visita é promover o estreitamento dos laços entre organizações africanas e afro-brasileiras “para além dos Governos”.
“A nossa idéia é de promover um intercâmbio de estudantes, e estabelecer laços mais sólidos entre o Brasil e a África. Normalmente os encontros tem sido entre os Estados. Agora a sociedade civil está buscando estreitar os seus laços”, afirma Silvio Humberto.
A viagem também tem como objetivo formalizar convites a personalidades como Lula e o ex-ministro Gil, para que participem da inauguração do Centro em memória de Biko, na Cidade do Cabo, que acontecerá em 18 de dezembro deste ano, data que marcaria o aniversário de 65 anos do ativista.
Na entrevista por telefone que concedeu, com exclusividade, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, com a mediação do ativista Michel Chagas e tradução de Luciana Souza, Nkosinathi lembrou dos poucos anos em que teve a companhia do pai, das lições que Biko deixou às novas gerações, da África do Sul de hoje e da sua crença de que os acontecimentos que estão sacudindo o mundo – “dos EUA à Europa passando pelo próprio continente africano, com a Primavera Árabe – demonstram que a mudança somente ocorre quando as pessoas se encarregam de suas próprias vidas, lideram seus próprios processos”. “Prá mim é o resumo do legado deixado por Steve Biko”, finalizou.
Confira a entrevista, na íntegra.
Afropress – Quais são as lembranças mais vivas que o senhor tem do seu pai. O senhor chegou a conviver com ele? O que considera seja o maior legado de Steve Biko às novas gerações de negros do mundo?
Nkosinathi Biko – Quando meu pai morreu eu tinha seis anos de idade. Ele morreu com 30 anos. Ele não tinha permissão para encontrar com mais de uma pessoa nesse período em que convivemos. Ele não tinha permissão para escrever, não podia ser visitado não tinha permissão para fazer palestras públicas. Como resultado dessas restrições ele passou muito tempo em casa. Anteriormente ele tinha investido muito do seu tempo no movimento, na luta, portanto, passava muito tempo fora de casa.
A lembrança que eu tenho da minha infância é muito ligada a esse período. Foi ele que me ensinou a empinar a primeira pipa, o primeiro papagaio, ele me levava para praticar esportes. Ele também costumava mostrar filmes, o que me transformou. Mas mesmo como crianças nós tínhamos consciência de que havia algo errado. Nós não podíamos falar com as pessoas que o visitavam.
Nós tínhamos policiais que vigiavam nossa casa 24 horas por dia. E algumas das pessoas que visitavam meu pai, chegavam no porta-malas do carro.
Um mês após a morte dele, nós crianças, começamos a compreender, a entender o que havia acontecido no período anterior das nossas vidas, e então começamos a nos envolver com os escritos que ele havia deixado, não só com a memória dele quando crianças, mas também como ativista.
Afropress – Quantos filhos Biko teve? O senhor é o mais velho?
Biko – Somos quatro filhos e eu sou o mais velho.
Afropress – Todos sabemos que Steve Biko foi morto sob tortura. Gostaria de saber se os assassinos do seu pai foram identificados e julgados após a queda do apartheid?
Biko – O que se tem de conhecimento sobre essa questão é que haviam cinco policiais envolvidos. Eles foram levados a uma audiência na Comissão de Verdade e Reconciliação, em 1.997. Durante esse processo que começou com a Comissão de Verdade e Reconciliação iniciado em 1.997, a esses policiais foi negado o Direito de Anistia.
Afropress – Mas, eles foram julgados, condenados?
Biko – Nos primeiros processos de investigação iniciados em 1.997, o resultado é que não havia culpados a serem punidos. Através desse processo complexo, da Comissão de Verdade e Reconciliação e que, apesar de não terem recebido a anistia pelo crime, eles não foram presos. O objetivo desse processo não era chegar a condenações, mas buscar a reconciliação. Considero que somente as gerações futuras poderão avaliar se essa abordagem de reconciliação foi adequada ou não.
Afropress – Qual o principal legado que o senhor considera que Steve Biko deixou às gerações de negros no mundo inteiro que lutam por liberdade e igualdade?
Biko – Um dos objetivos principais dos regimes de opressão é tirar, extirpar a condição humana das pessoas. É infiltrar, instilar a dúvida e o medo na consciência das pessoas. Então, a contribuição mais profunda de Steve Biko foi afirmar que o desmantelamento dos sistemas opressores começa numa reflexão que é pautada numa visão positiva de si mesmo. A partir do momento que se tem uma visão positiva de si mesmo, nós então nos transformamos em agentes de mudança. Prá mim é o resumo do legado deixado por Steve Biko.
Afropress – O senhor considera que o Movimento Consciência Negra, lançado pelo seu pai continua atual?
Biko – Eu acredito, sim, que está vivo e continuará na medida em que continue a discriminação.
Afropress – Como é que o senhor vê a Africa do Sul hoje, após os Governos Mandela, Mbeke e agora com Zuma?
Biko – Inegavelmente existe um ambiente de liberdade na África do Sul, um ambiente vibrante. Essa sucessão de regimes políticos que passou de Mandela, para Mbeke em um processo democrático. Parte da lógica da democracia é que os resultados são aceitos. Eu acredito que o processo democrático é bastante dinâmico, não só na África do Sul, mas no continente africano como um todo. Acredito que neste ano teremos cerca de 50 eleições nacionais ocorrendo no continente africano e os processos nos últimos anos ocorreram de forma pacífica. E isso foi algo que nós, enquanto povo, lutamos para conquistar.
Independentemente de qualquer coisa, esse ambiente democrático vibrante é algo que temos de celebrar.
Afropress – Qual o motivo da viagem ao Brasil e qual a mensagem que ele trás aos jovens negros brasileiros que lutam por liberdade e contra a discriminação?
Biko – Eu acredito que a responsabilidade nossa enquanto jovens e todos nós que estamos envolvidos na luta contra a opressão, devemos continuar a trabalhar em pról da transformação desse espaços onde não houve processos de libertação. E essa responsabilidade não deveria ser algo que devamos deixar a cargo de pessoas como Nelson Mandela e Steve Biko.
É algo que nós precisamos personalizar face ao momento vibrante, que está vivo nos EUA e na Europa e que ocorreu também em vários espaços do continente africano, no que diz respeito à Primavera. A característica mais consistente de todos esses fatos é que a mudança somente ocorre se as pessoas se encarregam de suas próprias vidas, lideram seus próprios processos.
Afropress – Em nome dos leitores da Afropress agradeço a entrevista e lhe dou as boas vindas à Bahia e ao Brasil.
Biko – Obrigado.
Veja o vídeo da música em homenagem a Biko, com Peter Gabriel.

Da Redacao