Nova York – O ator e presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (SATED/RJ), Jorge coutinho, disse que sua designação para integrar o Conselho de Comunicação Social no Congresso Nacional, representando os artistas, lhe permitirá “falar olho no olho” não somente aos senadores mas à sociedade organizada. “Esta sociedade, da qual eles tanto falam no Brasil, ela é organizada para eles. Ela nunca foi organizada para nós. Uma sociedade organizada há mais de 500 anos, mas para eles, porque os negros, no Brasil, não possuem nada”, afirmou.

Segundo Coutinho, a função de membro do Conselho lhe permitirá fazer questionamentos. “O senhor senador por acaso vê a televisão Globo? O senhor senador por acaso vê revistas em quadrinhos? O senhor senador vê por acaso criança negra brincado? Nas peças de publicidade das empresas? O senhor senador vê o negro se vestindo? O senhor vê o negro escovando os dentes? O senhor vê o negro comendo? Eu respondo: Não”, acrescenta.

Coutinho, que é president nacional do PMDB/Afro tomou posse em agosto no Conselho para um mandato de dois anos.

Na visita que fez a Nova York, em agosto do ano passado, o ator, recebido e ciceroneado pelo correspondente de Afropress, Edson Cadette, disse que “até pela minha idade, minha trajetória me permite cobrar em nome daqueles que não podem”. “Tem pessoas que não podem falar o que estou falando. Têm medo. Podem perder o emprego. Eu já não tenho mais este tipo de compromisso. Estou muito à vontade para falar. Não quero mais ser o galã da novela das 8. Posso até ser, porque existe um galã maduro. Somente na cabeça dos autores é que o galã tem de ser um garotinho bonitinho, sem barriga e preferivelmente branco”, afirmou.

Ator com com mais de 50 anos de carreira, no teatro, no cinema e na televisão, presença marcante na dramaturgia brasileira, Coutinho fala da visita a Nova York, para o encontro com Mike Hodge, presidente do Sindicado dos Atores nova-iorquinos em que conversou sobre possíveis parcerias visando a realização de um programa de workshops.

Coutinho contou a Cadette ter ficado fascinado com a nova versão teatral do musical “Porgy & Bess”, e também com o Cemitério de escravos africanos localizado a poucas quadras da área das Torres gêmeas, em Manhattan.

Na entrevista ao nosso correspondente, ele falou da dramaturgia brasileira, fez críticas ao que ele chamou de “distanciamento” da nova geração de atores negros, e também do seu papel político como membro do Conselho de Comunicação do Congresso Nacional.

Afropress: Qual foi a razão da sua vinda a Nova York?

Jorge Coutinho – O motivo por eu ter passado 10 dias na cidade foi porque recebi uma orientação espiritual em que fui orientado a fazer algo pelas pessoas amigas. Enfim, pelo meu povo, que é o povo negro. Acredito que era mais esta mensagem direta.  Exatamente por isto eu vim.

Entretanto, eu não contava que o que vi aqui, nestas duas últimas semanas, fôsse mexer tanto comigo. Eu já tinha uma idéia sobre a pujança da cidade, porém, não tinha tido ainda a experiência de passar tantos dias em Nova York absorvendo sua força cultural.

Por exemplo: vi o excelente musical “Porgy & Bess”. Vi a versão do filme em 1959 quando ainda era estudante de Artes Cênicas. Aí, de repente eu venho a Nova York, e tenho a oportunidade de ver a peça. Uma montagem espetacular. Então, você percebe, nítidamente, a possibilidade de se fazer família dentro da teledramartugia, dentro do cinema, dentro do teatro etc.

Dramaturgia com pessoas idosas, com pessoas jovens, com pessoas deficientes etc, como é o povo. O povo é assim, cheio de diferenças. Pessoas que cheiram, outras que não cheiram. Estas coisas estavam tudo dentro de um palco com uma grandiosidade e, para mim, isso estava chegando como uma forma de mensagem.

Isso mexe um pouco comigo por causa do meu lado como presidente do Sindicato, como ator, e agora mais ainda como membro do Conselho de Comunicacao do Congresso Nacional.

Digo isso porque é extremamente necessário que se coloque a familia dentro da teledramaturgia brasileira. Esta semana eu conversei com o representante da FIA (Federação Internacional dos Atores) aqui na cidade falando exatamente sobre este tema.

No Brasil estão querendo tirar as crianças da tele-dramaturgia. Para mim isso é um absurdo. Se você tirar a criança, você destrói a familia. Como nasce uma criança? Como você vai explicar para seu filho/a a relação do pai e da mãe? Enfim, é uma coisa muito confusa. E tudo isto veio muito rápido na minha cabeça durante esta visita. De repente foi um tufão cultural.

Primeiro foi a visita ao Cemitério dos negros escravos e ex-escravos. Depois foi  conhecer o professor George N. Preston, fundador do Museu “Arts & Origens” (Artes  & Origens) e, por último, a peça  “Porgy & Bess”.

Eu tenho que chegar no Rio de Janeiro e falar imediatamente com o Eduardo Paes (prefeito reeleito) que há o Museu dos Africanos e que fica na rua Broadway, e que mais de 300 pessoas visitam este local diáriamente. E nós, aqui no Rio, que somos, práticamente, a maioria da população não temos isso. Nós, no Brasil, não temos nada, nada. Como é que 15% da população [os negros norte-americanos correspondem a cerca de 13% da população] consegue lotar todas as noites o teatro para ver uma peça que está em cartaz há mais de seis meses?

Uma platéia ótima, participando, reagindo. Detalhe: tinha muito mais gente branca do que negra vendo a peça. Uma platéia misturada. E as pessoas aplaudindo. É um bom espetaculo, que atrai. Não é porque é negro. Estou, como posso dizer, maravilhado.

Estou pensando muito em São Gonçalo, neste momento. Acredito que São Gonçalo é um local onde você pode começar este trabalho, até porque 85% da população é negra e está à margem de tudo. Chegando ao Rio começarei a fazer vídeo, fazer teatro, um grupo de dança etc, para alcançar esta população esquecida.

Acredito que a grande saída para o Brasil é através da cultura e da educação. Eu aprendi nestes dez dias em Nova York a respeitar muito mais a cultura norte-americana, da qual sempre mantive uma certa distância.  Agora eu, realmente, conheço  e quero. Por meio do Sindicato vamos fazer uma parceria aqui em Nova York, e nos EUA, de um modo geral, se Deus quiser.

Afropress: Recentemente, você foi escolhido membro do Conselho de Comunicação Social no Congresso Nacional. Qual é a importância desta nomeação para o Jorge Coutinho e tambem para a comunidade afro-brasileira?

JC: Você pode mexer um pouco. Você vai ter o direito de falar. Tudo isto que eu mencionei antes você pode questionar no Congresso e os senadores ouvirão, entendeu? Olha, eu estive em um lugar assim, assim. O senhor senador, por acaso, vê a televisão Record? O senhor senador, por acaso, vê a televisão Globo? O senhor senador, por acaso, vê revistas em quadrinhos? O senhor senador vê, por acaso, criança negra brincando? Na publicidade das empresas, o senhor senador vê o negro se vestindo? O senhor vê o negro escovando os dentes? O senhor vê o negro comendo? Eu repondo: não.

Então, esse tipo de nomeação é que te dá esta oportunidade de poder falar olho no olho. Não somente para os senadores, mas tambem para a sociedade organizada.  Esta sociedade organizadada da qual eles tanto falam no Brasil. Ela é organizada para eles, ela nunca foi organizada para nós. Uma sociedade organizada há mais de 500 e poucos anos, mas para eles, porque os negros, no Brasil, não possuem nada. Então a sociedade que eles chamam de “organizada”… “Oh!, porque eu sou de esquerda, sou organizado”, é para eles, porque eles vivem no bem-bom, mas o nosso povo não.

Por isso cabe a mim, até pela minha idade, minha trajetória de falar, já ser um meio avô (que eu ainda não sou, mas estou louco para ser), é de estar cobrando mesmo. Estar cobrando isso em nome daqueles que não podem. Tem pessoas que não podem falar o que eu estou falando aqui a você. Têm medo. Podem perder o emprego. Vai chegar num local e vai ser mandado embora. Eu já não tenho mais esse tipo de compromisso. Acredito que quando falaram do meu lado espiritual é exatamente porque eu estou muito a vontade para falar.

Não quero mais ser o galã da novela das 8 (agora 9). Posso até ser, porque existe um galã maduro. Somente na cabeça dos autores é que o galã tem que ser um garotinho bonitinho, sem barriga e, preferivelmente, branco. A estrela tem que ser bonitinha e sarada. Existe o romance. Existe o grande lance do olhar entre duas pessoas.

A minha idéia para o Congresso é muito importante neste sentido. Estou muito feliz de estar nesta condição. Ainda mais na Comissão de Comunicação, que é sobre o que eu estou falando. Teatro, televisão, rádio etc. Isto, sem dúvida alguma, é algo muito importante.

Afropress: Você reencontrou o presidente do Sindicato dos Atores de Nova York, Mike Hodges. Qual foi sua impressão, desta vez com mais tempo para conversar, inclusive, sobre o mal entendido entre o Sindicato do Rio de Janeiro e a FIA?

JC: Olha, se eu não tivesse vindo a Nova York o que iria acontecer? Eu iria me desfiliar da FIA. No Brasil tinha-se esta idéia absurda de que a FIA iria mexer com os direitos adquiridos suadamente pelos atores. Como,  por exemplo, acabar com a Lei 6.533. Então as pessoas que estavam representando o Brasil diziam que nós deviamos nos desfiliar por isto, por aquilo etc. Muita troca de e-mail e tem muita gente que se achava super inteligente sabe tudo, né?

Eu disse: não pode ser assim. Agradeço até ao Edson Cadette por ter intermediado este encontro. Foi um intermediação fantástica. Não falando tambem da tradução das nossas conversas durante o encontro. As duas pessoas mais poderosas no sentido de representação dos atores e técnicos da cidade estavam comigo conversando e explicando o papel da FIA ao redor do mundo.

A FIA jamais teve a intenção de interferir nos assuntos internos brasileiros. Foi muito boa a conversa.

Afropress: Como presidente do Sindicato tem um preocupação muito grande com os atores da velha geração, entre os quais Milton Goncalves, Ruth de Souza, Lea Garcia, Zózimo Bulbul, Tony Tornado etc. Como é que você compara este pessoal com os atores da nova geração, na condição de que a velha geração foi pioneira na dramaturgia brasileira abriuas portas às duras penas para os mais novos?

JC:  O que eu sinto da nova geração, infelizmente, é u m certo distanciamento do tipo: “eu sei tudo, eu sou rico, eu tenho meu carro esporte que aperta um botão e ele anda”, entendeu? Não há um diálogo, não há um bate-papo, não há um ponto de encontro, né? As coisas que acontecem são muito fechadas. 

Como, por exemplo: “olha vai ter um festa para conhecer meu novo apartamento de 800 metros. Porém, só podem ir certas pessoas, entende? Então fica uma coisa de cultura branca, mas que, infelizmente, eles ainda não se tocaram que a cultura é branca. Eles podem até fazer tudo isso, mas tem que ter um outro lado para estar junto, para ver.

Vendo a peça “Porgy & Bess” eu vi todo mundo. Vi a saudosa Clea Simões, vi a saudosa Zeni Pereira, vi a Lea, vi o Milton, vi o Zózimo, vi o saudoso Grande Otelo etc.  Ali estava um quadro de gente. Vi os galanzinhos – Lázaro Ramos para cá, fulano prá lá. O Rocco num canto. Estas coisas estavam todas misturadas naquele grande pic-nic acontecendo, ali, no palco.

A nova geração precisa mais é se tocar que isso é uma máquina e que daqui a pouco virá outro ator, outra atriz e eles não terão a estrada de um Milton Gonçalves, ou até mesmo de um Jorge Coutinho. Esta é a grande verdade. Esta geração está muito preparada para ser robô. Não está engajada em nada. Isso é o que eu penso.

Afropress: Gostaria de pedir que faça as considerações finais aos nossos leitores.

JC:  Primeiro, que leiam o Edson Cadette que é uma pessoa extraordinária. Não é porque eu passei a conviver com ele nestes 10 dias de Nova York. Eu conheço muitos jornalistas, muitas pessoas, mas ele é de uma dedicação muito grande, ele vai buscar a informação.

Ele tem uma coisa que eu até comentei que ele precisa ser mais jornalista no sentido de não ficar nas emoções. O Edson Cadette descobre coisas. Nós, leitores da Afropress, precisamos cobrar mais dele, para ele escrever mais, escrever para a gente, principalmente para juventude, né? Começar a descobrir este outro lado do Edson Cadette, este outro lado aqui de Nova York, dele mesmo, da vida dele.

Veja bem: uma pessoa que sai de São Paulo com poucos recursos para viver em Nova York e chega aqui e peita e vence, é uma coisa extraordinária, é um feito extraordinário. Então, eu quero recomendar aos leitores que leiam as matérias, procurem as virgulazinhas do Edson Cadette, o que ele quer dizer. E comentem tambem, porque é bom comentar. Ainda mais agora com esta estória de Internet. “Ah! não gostei disso”, tal, queria ler mais sobre aquilo.

Está aqui uma pessoa para nós aprendermos. Como eu aprendi muito com alguns jornalistas. Com o Walter Narranufo, que fazia a “Noitada do Samba”, como a Dulce Alves que era também da Rádio Tupi, a própria Diana Aragão que escrevia muito bem.

Aprendi tambem com os críticos de teatro – o Paulo Francis. O Paulo Francis foi uma pessoa que me colocou neste meio. Quando o Francis era crítico de teatro ele me chamou num canto e disse: “olhe Jorge, você não tem nada a ver com o teatro que está fazendo. Você precisa fazer um teatro revolucionário. Um teatro que te quer, e que seja tambem o seu discurso”.

Onde quer que você esteja Paulo, muito obrigado. Eu te via muito na telinha falando aqui de Nova York dizendo [imitando a voz e os maneirismos de Francis] “Aqui de Manhattan… etc”. Então, Paulo, obrigado porque eu estou ao lado de uma pessoa que você tambem conheceu, uma pessoa extraordinária, que é o Edson Cadette. Quero te agradecer Paulo, porque hoje estou conhecendo Nova York. Estou amando. E tudo aquilo que você falava que era legal e gostoso. Agora eu vim ver de perto esta deliciosa “maça” [a maçã é o símbolo da cidade] ao lado do Edson Cadette que é uma pessoa excelente.

Afropress: Obrigado.

JC: obrigado a você.

Foto: Site Portfólio de atores

Edson Cadette, correspondente de Afropress em Nova York