Lá como cá, a parcela mais engajada da população negra, aquela que procura esse tipo de mídia, precisa não apenas de informações sobre personalidades, eventos, problemas e propostas de soluções de caráter particularista, capazes de compensar, ao menos parcialmente, o eloquente silêncio da grande mídia em relação a esses assuntos. Precisa também de elementos que possam ajudá-la a entender o papel dos negros na sociedade mais ampla.
Foi essa a primeira lembrança que me ocorreu quando o jornalista Dojival Vieira me convidou a expressar minha posição no debate referente às acusações de que a Afropress teria deixado de comentar o episódio que resultou na saída de Orlando Silva do Ministério do Esporte em função das ligações partidárias do próprio Dojival, a que este respondeu alegando que, não tendo o caso a ver com a questão racial, não haveria motivo para pautá-lo. Discordo – e agradeço a Dojival por ter aberto democraticamente o espaço para a manifestação de minha divergência.
Na minha perspectiva, a Afropress deveria ter reportado o fato e, se possível, entrevistado Orlando Silva, durante a crise e após seu desfecho. Um dos pouquíssimos ministros negros que este país já teve, independentemente da conclusão dos inquéritos e sindicâncias em curso, caberia à mídia negra, por exemplo, investigar o possível impacto do racismo não apenas naquele episódio, mas na carreira dele e de outros que chegaram a tal posição.
E, sim, sua proximidade em relação às propostas do movimento negro, especialmente às políticas de ação afirmativa, mote maior do atual debate sobre a questão de raça no Brasil.
A segunda lembrança que o convite de Dojival me provocou foi a de um episódio ocorrido no final dos anos 80 do século passado, um Encontro de Negros do Sul-Sudeste realizado em dependências da USP, em São Paulo.
Foi quando travei contato com um tipo de militante bem diferente daqueles que conhecíamos das atividades das diversas organizações negras que então pipocavam pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e outros Estados.
Era um militante negro que demonstrava uma ignorância quase total em relação à questão racial, embora conhecesse tudo sobre os chamados problemas “sociais”. Sua atuação no movimento negro parecia, muitas vezes, a de um infiltrado, interessado em “aparelhar” – termo tão em voga hoje em dia – o movimento, atrelando-o a interesses partidários.
Não me refiro aqui à dupla militância, que muitos de nós sabem exercer muito bem, responsável por tantos avanços que temos obtido nos últimos anos, mas àquela dos que veem na luta pela afirmação do negro em nossa sociedade a possibilidade de ampliarem seu prestígio e conquistarem posições neste ou naquele partido político. Enormes são as perdas que essa postura nos tem causado.
O grande respeito que nutro pelo trabalho de Dojival Vieira e da Afropress autoriza-me, creio, a deixar uma espécie de alerta. Manter a credibilidade exige que, qual mulher de César, se esteja atento para que não pairem dúvidas sobre a objetividade e imparcialidade do veículo – impossíveis, no limite, mas fundamentais ao menos como objetivos que se deve sempre ter em mente ao selecionar os temas para comporem a pauta e a eleger a perspectiva de sua abordagem.
Assim, quando um negro no poder estiver na berlinda, qualquer que seja sua filiação partidária, deverá haver espaço tanto para as acusações quanto para a defesa. E o episódio deverá ser utilizado para uma avaliação das condições em que atua o reduzido número de afro-brasileiros em posições de prestígio e poder nas esferas do Estado e das instituições políticas. O veículo sairá ganhando, juntamente com seu público.

Carlos Alberto Medeiros