BRASÍLIA – Na semana em que se espera sua confirmação à frente da Seppir para o segundo mandato, conforme apurou a Afropress, causou desconforto no governo a declaração da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), segundo a qual é natural a discriminação de negros contra brancos.
A entrevista para a uma repórter da BBC Brasil caiu como uma bomba, especialmente depois de ser pinçada pela mídia – a TV Globo e o Jornal Folha de S. Paulo, especialmente – como manchete do noticiário. A ministra disse não considerar que haja racismo “quando um negro se insurge contra um branco”, acrescentando que “quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”.
Mesmo lideranças do movimento negro estranharam. “Como negro, não alcanço o sentido de tão estranha declaração”, afirmou o vice-presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça, Percílio de Sousa Lima Neto.
As críticas vieram também da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), onde seu presidente, Cezar Brito, disse que há uma boa distância entre entender os processos que levam à discriminação e aceitá-la. “Compreender o sistema perverso da escravidão e do preconceito decorrente dela é importante, para que o Brasil tenha de fato uma democracia racial. Mas aceitar qualquer tipo de preconceito não pode ser medida eficaz no que se refere à democracia racial.” Acrescentou.
O representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Marcelo Tognozzi, disse ter ficado perplexo com a entrevista: “Não tem sentido. Acirrar conflitos nunca é bom. Todos nós que somos não racistas não podemos concordar com tal afirmação.”
Matilde, por sua vez, evitou falar, embora as repercussões de sua entrevista tenham sido a notícia do dia em Brasília. A assessora de Comunicação, Isabel Clavelin, disse que a agenda da ministra não foi alterada, porém, admitiu que o esforço era minimizar as repercussões do episódio, restringindo os comentários aos termos da nota lançada no dia anterior. Na nota distribuída pela assessoria Matilde diz que trechos da entrevista foram tirados de contexto, causando visão distorcida das duas declarações e “induzindo o leitor a equívoco”. “A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalecente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude – também condenável”, ressalta a nota.

Da Redacao