S. Paulo – A revista Veja, da Editora Abril, conhecida pela campanha sistemática contra as ações afirmativas e as cotas para negros e indígenas, assumiu uma nova bandeira: desconstruir a imagem de Zumbi dos Palmares, morto pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, no dia 20 de novembro de 1.695.
Em matéria de duas páginas na edição 2087 – nº 46, de 19 de novembro, assinada pelo jornalista Leandro Narloch, com o título de “O enigma de Zumbi”, a Revista se refere a estudos recentes para afirmar que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares e aponta distorções nos livros didáticos sobre Palmares. “Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época”, afirma Narloch.
Veja também cita os historiadores Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense, e autor do dicionário do Brasil Colonial, e Manolo Florentino, da UFJR (foto) – o mesmo que disse na semana passada no Caderno “Mais” da Folha que o presidente eleito dos EUA Barack Obama não é negro, mas mulato – tese defendida pelo pastor protestante e diretor da Ku Klux Klan, Thomas Robb, para quem Obama é “só metade negro”.
“É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares. Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos”, diz Vainfas, acrescentando não fazer muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII, porque, nessa época esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus e nas culturas africanas muito menos.
Florentino acrescenta que não “não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África”.
A possibilidade de ter havido a prática da escravidão no Quilombo costumeira e habitual tanto na África quanto na Europa, conforme admitem ambos, não é desconhecida de historiadores como Clóvis Moura, que no livro “Rebeliões da Senzala”, na página 187, da LECH – Livraria Editoria Ciências Humanas Ltda. conta. “Os que vinham forçados eram transformados em escravos que trabalhavam na agricultura. Assim se foi desenvolvendo o escravismo dentro da própria “república”, em conseqüência do desenvolvimento das atividades agrícolas”.
O objetivo da Veja, porém, ao tentar tirar o tema do contexto, em pleno Mês da Consciência Negra, quando são lembrados os 313 anos do assassinato de Zumbi – “negro de singular valor, grande ânimo e constância rara”, como é descrito por todos os historiadores, só pode ter um objetivo: desconstruir a imagem de um guerreiro do povo negro e brasileiro e a importância de Palmares – que durante quase 100 anos – abalou os alicerces da ordem senhorial escravocrata e ainda hoje é sinônimo de Liberdade.

Da Redacao