…“o negro tem que ter nome e sobrenome”, Lélia Gonzalez.

Eu saúdo Cidinha da Silva, que mantém acesa a chama de uma escrita opinativa que perscruta o mal do racismo, tão vicejante nestas terras, para reafirmar nossa existência resistente e apontar outros caminhos, que nos levem à superação.

Eu saúdo Conceição Evaristo, que amassa o barro das palavras de mulheres, de mulheres de palavras, e em todos os sentidos molda o substrato de Nanã para nos oferecer belos jarros, nos quais reconhecemos os retratos de vidas desencantadas, arrojos de ser mais, memórias que um dia quararam roupa nas pedras à margem de um rio.

Eu saúdo Carolina Maria de Jesus, que sentou na roda viva para nos contar histórias, e como griô contemporânea repassa os contos que nos deixam com saudades de um futuro preguiçoso, porque lento em nos alcançar. Ah, quanto de espanto, dor e esperança a criança que fui retirava de suas preciosas palavras, flores abundantes a denunciar o branco monturo de pérfida invisibilidade!

Eu saúdo Cristiane Sobral, vizinha no rico deserto de Brasília, de cuja aridez plantou flores, gerou esperança e declama, no papel de poeta, uma vida livre do ódio, no de atora social, um lindo futuro ébano.

Eu saúdo Tati Quebra Barraco, que tantas madrugas me encontrou boladona, até que eu enjoasse logo da noite e, no frio de casa, remexesse e cantasse pras viadas todas que elas não eram bonitas como eu, mas também estavam na moda.

Eu saúdo Eliane Cavalleiro, que a mim e a uma multidão de jovens idealistas envoltas nas brumas do ódio racista, que a educação geralmente é opressora, mas também pode abrir janelas para um mundo mais amoroso, quando reconhecemos o mal que pulsa nas veias das tias e nos engajamos a sará-lo.

Eu saúdo Cida Bento, que acredita na Psicologia, e nos ensinou que não precisamos ser os reprodutores acéfalos de técnicas, os porta-vozes lacaios de elites, os fazem-tudo-pau-mandados, que podemos sim pensar nosso fazer, numa perspectiva (palavra amada e odiada na academia) afrocentrada, ciente do ideário da branquitude e laborando por uma vida menos desigual.

Eu saúdo Fátima Oliveira, que nos mostrou a Medicina como um campo de batalha que pode, e deveria, utilizar suas armas para enfrentar as assimetrias do adoecimento por gênero e raça. Uma guerreira da sáude, não uma saúde como sinônimo de saber médico, mas como fenômeno biopsicossocial numa sociedade racista e machista, que de nós, os que acreditam e trabalham pelo ser humano, exige um olhar que reconhece e valoriza as diferenças.

Eu saúdo Mãe Stella de Oxóssi, que tantas histórias e lições de antanho nos têm repassado, nós, crianças perdidas na imensidão do Aiyê, para que aprendamos a inovar sempre, a encontrar nos mistérios os sinais para estarmos mais perto de casa.

Eu saúdo Sueli Carneiro, que no seu livre filosofar eu escuto a maior pensadora contemporânea sobre as relações étnico-raciais no Brasil, aquela cujo olhar não é intersecional só no rótulo, mas principalmente no pensamento e na ação.

Eu saúdo Lélia Gonzalez, que fez de seu falar uma prece, do seu escrever uma ópera que, unindo saberes das ruas, dos terreiros e das salas de aula, roga-nos a olhar para aqueles lugares pré-determinados e a questionar tais determinações, escurecendo para não deixar nossas existências passarem em branco.

Eu saúdo porque saudar lembra saudade, mas creio que também tenha a ver com saldo, aquele crédito que tantas, conhecidas ou anônimas, aqui ou na éter-nidade, têm por nos darem vida e energia para continuar lutando. Saudar é, igualmente, reconhecer que temos débitos, e que somos gratas – e gratos – por quem tão generosamente nos impulsiona a ser mais humanos. Minhas palavras são de gratidão a essas mulheres de palavra.

Jaqueline Gomes de Jesus