Brasília – No primeiro dia de debates do Seminário Internacional “Herança, Identidade, Educação e Cultura: gestão de sítios históricos ligados ao tráfico negreiro e à escravidão”, ativistas brasileiros que participam do evento questionaram o projeto “Rota do Escravo” adotado pela Unesco que patrocina o evento em parceria com a Fundação Cultural Palmares.

A professora Zélia Amador de Deus, da Universidade Federal do Pará e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), vocalizou o desconforto entre os participantes – especialmente brasileiros – para quem o conceito de “Rota do Escravo” é um equívoco e reflete uma visão estereotipada do fenômeno da escravidão negra. Para alguns ativistas representa um resquício da visão colonialista e e acaba sendo útil a interesses empresariais interessados apenas na exploração do turismo étnico, sem qualquer preocupação com as consequências para a auto-estima negra, especialmente, das novas gerações.

Tráfico negreiro

O projeto “Rota do Escravo”, de acordo com seu diretor Ali Moussa-Iye, se baseia na linha de pesquisa da Unesco, e desde seu lançamento em 1.994 implementou um programa sobre o tráfico negreiro que marcou as relações entre a África, a Europa e as Américas.

Um dos principais objetivos do projeto é a elaboração de um guia conceitual e metodológico dirigido aos gestores culturais, que facilitará a instalação de turismo de memória em torno dos sítios, lugares, monumentos e museus ligados ao tráfico negreiro e à escravidão. Entre os palestrantes de ontem estavam Paul Lovejoy do Instituto of Harriet Tubman, o próprio Ali Moussa –Iye, e Andrea Camilla Richards, do Centro de Patrimônio Mundial. O evento foi acompanhado por pesquisadores, militantes do movimento negro, religiosos de matriz africana, representantes de quilombos e estudantes.

Cúpulas de Durban e Salvador

Na sua exposição, Moussa falou da importância das Cúpulas de Salvador e de Durban como oportunidades de reconhecimento da justiça e do desenvolvimento para os sítios de memória e também como inspiração para a criação da Década dos Povos dos Afrodescendentes instituída pela Organização das Nações Unidas, a partir de dezembro deste ano.

O seminário reunirá por três dias profissionais de preservação e promoção de sítios e lugares de memória ligados à escravatura, gestores envolvidos em desenvolvimento de políticas públicas, autoridades e especialistas da África, das Américas, do Caribe, do Oceano Índico e Europa.

O Seminário reúne desde segunda-feira até esta quinta (23/08), representantes de países africanos entre os quais Gana, Nigéria, Senegal, Moçambique, Cabo Verde, das Américas do Sul e Central como Honduras, Panamá, Peru e Uruguai, da América do Norte, como Canadá e Estados Unidos, do Caribe, entre os quais Cuba, Haiti, Barbados e Guadalupe. Também estão presentes representantes da França, Portugal, Espanha, Ilha de Reunião, no Oceano Índico.

Da Redacao