New York /EUA – Dados da Associação Nacional dos Jornalistas Negros (ANJN) revelam que nos EUA, embora correspondam a cerca de 35% da população, negros, latinos, asiáticos e indígenas, representam apenas 12% dass pessoas que decidem e controlam o noticiário da mídia impressa, falada e televisiva.

A informação é do presidente da entidade, Bob Butler, que assumiu o cargo em agosto passado, na longa entrevista que concedeu ao correspondente de Afropress em Nova York, Edson Cadette.

Segundo Butler, os negros em posição de comando nas empresas de comunicação são apenas 7% – embora representem 12% da população. No caso dos latinos são 4%, embora já estejam perto de chegar aos 16% da população americana. Asiáticos são apenas 1% ainda que representem 6% da população, e os indígenas – os povos originários – que são 1% da população Americana, não tem mais que duas ou três pessoas ocupando lugares de destaque nas redações.

No Brasil, segundo os dados mais recentes disponíveis, embora corresponda a 52% da população, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio do IBGE (PNAD 2012), a presença de negros nas redações dos grandes veículos não chega a 10%.

“Nós ainda somos relevantes porque lutamos para que um dia o número de pessoas negras e outros grupos étnicos nas redações seja proporcional à população – cerca de 35%. Quando você observa as direções das redes de TV, as direções dos jornais, dos rádios, os numeros não são equivalentes ao que representamos na população. Até que isso aconteça nós temos muito trabalho a fazer”, afirmou.

Na entrevista a Cadette, Butler que é reporter da Rádio KCBS, de San Francisco, na Califórnia, disse que a Associação de Jornalistas Negros tem interesse em apoiar associações similares em outros países, inclusive no Brasil, e ressaltou o trabalho de Afropress.

“Eu conheço a Afropress. Já entrei algumas vezes, mas tenho de usar o tradutor Google porque meu conhecimento da língua portuguesa é bem limitado. Acredito que sites como a Afropress são prestadores de serviço público, especialmente para a comunidade afro-brasileira. Um dos problemas que temos nos EUA é que a grande mídia não fala da nossa história e não a conta como deveria fazê-lo. Frequentemente a história é contada com um viés estereotipado. Uma das coisas que observei da primeira vez que estive no Brasil é que se você quer ver uma pessoa negra na televisão, ela ou está dançando ou está sendo presa. Acredito que a Afropress e outras mídias sociais como ela, podem fazer algo. Nós tivemos algo assim aqui chamado “Freedom Journal” (Jornal da Liberdade), afirmou.

Butler é de Boston, porém, viveu em várias cidades porque seu pai serviu a Marinha dos EUA. Ele falou a Afropress após participar da Convenção Annual da Associação Americana dos Jornalistas Asiático-americanos.

Confira, na íntegra, a entrevista de Bob Butler ao correspondente Edson Cadette.

Afropress:  Como começou seu interesse pela  Associação Nacional de Jornalistas Negros?

Bob Butler: É engraçado você me perguntar isso porque hoje mesmo no saguão do Hotel [ele se referia ao Hilton Hotel onde concedeu esta entrevista] eu estava conversando com uma pessoa que faz parte da Associação. Essa pessoa lembrou da época em que foi convencido a fazer parte da Associação Nacional dos Jornalistas Negros (ANJN) na Convencao que aconteceu em 2000. Foi a minha primeira Convenção tambem. Gostei bastante e, desde então, nunca mais deixei de participar. Em 2007, fui eleito para fazer parte da diretoria. Em 2009 passei de diretor regional a vice-presidente e, em agosto deste ano, fui eleito presidente.

Afropress: Quando a ANJN foi criada?

Bob Butler: Em 1975. Na época, há quase 40 anos, eles sentiam que era necessária a criação de um instrumento para fazer a defesa dos jornalistas negros em questões relacionadas ao mercado de trabalho e também a ascenção desses profissionais nas empresas. Eles também queriam influir na linha editorial dos veículos para que as matérias mostrassem a realidade das comunidades afro-americanas de maneira justa e equilibrada. Em 2015 estaremos celebrando 40 anos de luta.

 Afropress: Qual a importancia da ANJN? 

Bob Butler: Nós ainda somos bastante relevantes porque quando você assiste  a televisão, escuta o rádio ou lê os jornais, você realmente não sabe quantas foram as pessoas que decidiram sobre que matérias deveriam ou não ir ao ar. Nós sabemos que pouquíssimas pessoas com poder de decisão se parecem conosco.

Nós ainda somos relevantes porque ainda lutamos para que um dia o número de pessoas negras nas redações, quero dizer o percentual da presença de negros, latinos, asiáticos e indígenas, seja proporcional ao que representam no conjunto da população americana. No momento, esses segmentos representam cerca de 35% da população dos EUA – cerca de 16% latinos, 12% afro-americanos, 6% asiáticos e 1% dos americanos nativos – os indígenas.

Quando você observa as direções das TVs, dos jornais, das rádios, você constata que esses números estão longe de serem proporcionais na população como um todo. Até que isso aconteça temos muito a fazer.

Afropress: Como presidente da entidade, recém eleito, quais são suas metas?

Bob Butler: Minha meta número um é ajudar nossos associados a encontrar trabalho. Você sabe, há muitos associados que trabalhavam nesta área, e perderam o emprego.

Afropress: Você mencionou que a ANJN tem associados em todo o mundo, além dos EUA, claro. Onde mais?

Bob Butler: No Brasil, no Caribe, na Grã-Bretanha e em alguns países da África. Eles se associam à nossa organização porque ela oferece algo que eles não tem em seus países. Ou seja, uma organização de jornalistas negros criada para serví-los, treiná-los, dar suporte e tambem para ouví-los. Muitas vezes, especialmente, aqui nos EUA, quando você consegue um trabalho numa redação, geralmente é a única pessoa negra ou está entre as poucas. Acreditamos que somos uma força para ajudá-los a ter sucesso.

Afropress: Você já esteve no Brasil? Quando e qual a razão?

Bob Butler: Estive no Brasil em 2002. Juntamente com minha esposa conhecemos S. Paulo. Mas antes de viajar consultei um grupo de pessoas na nossa organização responsável pela parte internacional que lida com assuntos jornalísticos. Uma delas me disse: “Há jornalistas negros no Brasil que gostariam de conversar com membros da ANJN. Se voce for até lá, por favor encontre-se com estas pessoas”. Eu fiz exatamente isto. Encontrei-me com pessoas da COJIRA- SP.

Afropress: Quantos dias você ficou São Paulo?

Bob Butler: Uma semana. Depois voltei novamente em 2003. Na minha primeira visita um dos tópicos debatidos foi a dificuldade de jornalistas negros encontrarem trabalho. Assim como nos EUA, só que no caso dos jornalistas negros no Brasil com muito maior dificuldade, porque no seu país era preciso frequentar um curso superior e também obter o diploma para ser jornalista. [À época ainda vigorava a exigência do diploma universitário para o exercício da profissão]. Para muitos jornalistas negros é dificil conseguir dinheiro para estudar numa Universidade como a Universidade de S. Paulo (USP), ou qualquer outra universidade. Mesmo depois de conseguir o diploma, era dificil conseguir emprego. Empresas como a Rede Globo, ou os grandes jornais não os contratariam.

Afropress: A Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo são os dois principais jornais do país.

Bob Butler: Sim.

Afropress: Quando você falou com estas pessoas, qual foi a principal queixa que ouviu?

Bob Butler: Claro, todos mencionaram o racismo. Esta é uma das coisas interessantes no Brasil. Se você é negro e fala sobre racismo, as pessoas brancas o acusam de ser racista porque segundo muitas delas não existe racismo no Brasil. Todo mundo é igual. Porém, parece que as pessoas brancas são mais iguais do que as pessoas negras.

Eles tem mais oportunidades, conseguem os melhores trabalhos e os negros tem mais dificuldades. Conversamos muito sobre isso. Conversei sobre isso no meu trajeto do aeroporto de Guarulhos até onde fiquei hospedado no bairro do Morumbi e observei as grandes placas de propaganda no caminho com pessoas brancas. E em todas estas placas, só havia uma ou duas pessoas negras e elas faziam parte do cenário de fundo. Só havia uma placa com uma pessoa negra bebendo Sprite [refrigerante] com os olhos esbugalhados mostrando um rosto totalmente estereotipado.

Afropress: Você acha possível a existência de uma organização nos moldes da ANJN no Brasil?

Bob Butler: Primeiro, quando você observa os negros nos EUA, nós somos 12% da população. No Brasil, quando estive lá, os negros representavam, mais ou menos, 45% da população. O que eu penso é que quando os negros no Brasil decidirem que já aguentaram o bastante e demandarem oportunidades iguais, eles deverão fazer o que nós fizemos nos EUA, ou seja: protestarem, promoverem marchas para conseguir. Contudo, da mesma maneira que nos EUA, não pode haver somente negros nessas marchas, mas também pessoas brancas, gente de todos os tipos dizendo um "Basta", exigindo oportunidades justas para todos. Até que isso aconteça você não terá uma sociedade verdadeiramente igualitária no Brasil.

Afropress: A elite brasileira diz não haver racismo no Brasil e que o problema é social.

Bob Butler: Bem, os dois estão interligados. É um problema social no sentido de que milhões de pessoas não tem os recursos necessários para ter uma vida melhor. O problema é que a grande  maioria das pessoas sem estes recursos se parece com você e comigo. Então, você não consegue escapar da discussão racial. Se sómente as pessoas negras não conseguem as oportunidades, então você não pode dizer que o problema não é racial.

Afropress: Recentemente houve o julgamento do Caso Trayvon Martin. Como acompanhou esse caso e a que conclusões chegou?

Bob Butler: Evidentemente que Martin foi morto pelo perfil que tinha. Zimmermam básicamente viu alguém caminhando usando um capuz. Era uma pessoa negra e ele considerou aquela pessoa suspeita. Nós não sabemos se se tratasse de um adolescente branco, se Zimmerman teria agido da mesma maneira. Mas o fato é que se tratava de um jovem negro que não representava nenhum perigo e apenas carregava um refrigerante. Nós vemos isso acontecer repetidamente neste país onde se você é uma pessoa negra e está parado por qualquer razão, passa a ser tratada como suspeita. Até mesmo o presidente Barack Obama disse que, antes de se tornar presidente, certa vez entrou num elevador e uma senhora que estava junto segurou sua bolsa contra o peito. As pessoas tem esta imagem do homem negro ser perigoso, estereótipo que nada tem a ver com a realidade.

Afropress: À propósito do que disse, qual sua opinião sobre o programa da Polícia de Nova York de parar e revistar negros?

Bob Butler: É inconstitucional fazer isso, ou seja, parar alguém apenas por causa da cor da sua pele. Quer dizer que pessoas brancas podem carregar armas e matar os outros e tudo bem? Não. O que isso quer dizer é que todos estes homens negros são potenciais criminosos e, portanto, vamos pará-los e revistá-los. Estaremos mais seguros dessa forma, pensam os defensores dessa política. Eles irão encontrar armas com algumas pessoas? É claro que sim. Porem, se eles só encontram armas com as pessoas negras, e não param as pessoas brancas, então, temos um problema.

Afropress: Quando o presidente Barack Obama foi eleito em 2008, muita gente não o considerava “negro o suficiente”.  Muitos argumentavam que ele não tinha crescido entre eles. Obama tem de andar numa corda bamba. Qual sua opinião sobre Obama?

Bob Butler: Ele é negro? Sim. A primeira vez que estive no Brasil estávamos tendo uma grande conversa, e uma das pessoas disse que o problema com os negros no Brasil é que muita gente que é negra não se sente negra. Essa pessoa comentou que conversava com uma colega de trabalho e esta lhe disse: “Minha irmã negra”. Ela então, ficou furiosa: “Eu não sou negra, eu não sou negra”. E ela era tão negra quanto eu, porém, não se sentia negra. Eu, então argumentei: “Ela pensa que não é negra". Se estivesse nos EUA não haveria dúvida alguma sobre sua condição racial porque aqui existe a regra: uma gota de sangue negra o torna uma pessoa negra. Para aqueles que dizem que o presidente Barck Obama não é negro porque ele é miscigenado (mãe branca e pai negro) há um equívoco evidente aí. Pela própria definição do que é ser negro nos EUA ele é negro porque tem sangue negro.

Afropress: Você já ouviu falar na Afropress e o trabalho que essa Agência de Notícias vem fazendo nos últimos oito anos?

Bob Butler: Eu conheço a Afropress. Já entrei algumas vezes. Porém, tenho que usar o tradutor Google porque meu conhecimento da língua portuguesa é bem limitado. Acredito que sites como a Afropress prestam um serviço para o público brasileiro, especialmente, à comunidade afro-brasileira.

Um dos problemas que temos nos EUA é que a grande mídia não fala da nossa história e não a conta como deveria fazê-lo. Frequentemente a história é contada com um viés estereotipado. Uma das coisas que observei da primeira vez que estive no Brasil é que se você quer ver uma pessoa negra na televisão, ela ou está dançando ou está sendo presa. Acredito que a Afropress e outras mídias sociais como ela, podem fazer algo. Nós tivemos algo assim aqui chamado “Freedom Journal” (Jornal da Liberdade) fundado em 1827. O fundador, John B. Russwurm, disse uma vez que, por muito tempo, outras pessoas contaram a nossa história e que nós queremos falar dela da nossa própria maneira.

Afropress: Você gostaria de dizer algo aos leitores da Afropress?

Bob Butler: Se você está lendo esta entrevista provavelmente você é um (a) afro-brasileiro(a). Não preste atenção nas pessoas que acham que porque você está lendo Afropress, provavelmente você é racista. Você não é racista. O que você quer é saber da verdadeira história da sua comunidade e quase sempre a única maneira de conseguir isso é por intermédio da mídia afro-brasileira. Agora, eu não sei se a Afropress é o melhor portal, ou se é o mais exato. Eu não sei, mas se foi colocado no ar por pessoas negras para pessoas negras, certamente sera mais exato nos assuntos relacionados à comunidade afro-brasileira.

Afropress: Obrigado.

Bob Butler: O prazer foi todo meu.

 

 

Edson Cadette