S. Paulo – Vivendo há quase um quarto de século em Nova York, Estados Unidos, para onde se mudou em 1.990, Edson Cadette, 53 anos, o correspondente de Afropress, volta ao Brasil por uns dias para visitar a família – a mãe, Cleusa Pires de Oliveira, e irmãos que vivem na Vila Prudente, Zona Leste de S. Paulo.

Este ano Cadette celebra os oito anos de colaboração ininterrupta assinando a coluna “Impressões de Nova York”, em que fala dos aspectos da cultura e do cotidiano da cidade em que vive, faz entrevistas com personalidades brasileiras e norte-americanas e, eventualmente, cobre fatos marcantes como fez no velório de James Brown, o padrinho da soul music, no legendário Teatro Apolo, e as duas campanhas do Presidente Barack Obama à Casa Branca.

Entre os seus entrevistados ilustres estão o ex-prefeito de Nova York, David Dinkins, o cantor e compositor, ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, os atores Jorge Coutinho e Lázaro Ramos, e o diretor negro Jefferson De.

Esta semana, Cadette, que trabalha para o Sindicato 32BJ, o Sindicato dos Porteiros de Nova York, na área de compras de materiais de escritório, será recepcionado com um jantar em sua casa pelo editor, Dojival Vieira.

Confira a entrevista.

Afropress –  Há oito anos você tornou-se correspondente de Afropress em Nova York. Como você nos descobriu e como foram os primeiros contatos?

Edson Cadette – Comecei a escrever para a Afropress no dia 19 de março de 2006. Portanto, são 8 anos de colaboração continuada. Fiquei sabendo do site por causa de uma matéria na Folha de São Paulo falando sobre mídia social com foco no tema étnicorracial. Entrei em contato por e-mail com o editor, jornalista Dojival Vieira. Disse a ele que gostaria de fazer parte do projeto. Como colaborador enviaria matérias de Nova York. Ele disse que seria uma colaboração sem envolver pagamento pelas matérias. Acertei com ele por telefone que faria as matérias sem o pagamento. Seria colaboração.

Afropress – Há quanto tempo você vive em Nova York e como surgiu a idéia de sair do país e ir viver nos EUA? Você já tem cidadania americana?

EC –  Vivo em Nova York há 24 anos. Cheguei na cidade no dia 21 de Abril de 1990. Como era funcionário da extinta Varig [empresa de aviação brasileira que deixou de operar em 2010]  tive a oportunidade de passar algumas das minhas férias na cidade. Em 1990, recebi o convite de um amigo para passar uma temporada. Ele já estava estabelecido com sua empresa. Aceitei prontamente e mudei para os EUA. Na verdade a intenção não era ficar todo este tempo. Era para ficar, no máximo, 2 anos. Porém, as oportunidades foram surgindo e acabei ficando. Desde 2007 tenho a dupla cidadania.

Afropress – Como cidadão brasileiro e americano como vê o trato da desigualdade racial lá e cá pelos Governos e pelos respectivos movimentos sociais?

EC – Não há como ficar imune à comparação entre EUA e Brasil na discussão do tema étnicorracial. Devemos entender que, tanto nos EUA quanto no Brasil, a mão de obra de africanos usados como escravos foi abundante. Porém, a grande diferença é que, diferentemente do Brasil que acreditou, ou acredita que o problema étnicorracial foi resolvido com a Abolição, em 1888, os EUA seguem debatendo o papel do cidadão negro desde o final da guerra civil, em 1865. Este tema é debatido em nível nacional. E estamos falando de uma população que gira em torno de 12%. É nítida a diferença com que ambos os  Governos tratam da questão.

Por causa de políticas públicas direcionadas à comunidade afro-americana, em especial, as Ações Afirmativas, há uma forte classe média negra nos EUA, que influencia tanto nas áreas da Educação, Economia, Política e, claro, na área cultural. Mas, quero deixar bem claro que este avanço só foi feito porque os afro-americanos se reuniram para lutar por sua aceitação plena pelo Estado.

Diferentemente do Brasil que fingiu ter resolvido a questão com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Nos EUA nunca houve um ministério que tratasse direto da questão. Todas as associações que se forjaram na luta pelos direitos civis nunca tiveram a participação direta do Governo. Aqui está a grande diferença. No Brasil não podemos criticar o Governo porque, afinal de contas, ele criou uma Secretaria com status de ministério para lidar com este tema.

Afropress – Gostaria de pedir que relembre alguns episódios marcantes da cobertura que você fez. Como, por exemplo, o velório de James Brown, o padrinho do soul music, as campanhas do Presidente Barack Obama e o episódio em que você ficou por duas horas esperando a presença numa entrevista agenda pela ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros, num hotel em Nova York?

EC – Prefiro lembrar de fatos positivos que marcaram estes 8 anos de colaboração ininterrupta com a Afropress. Dentre eles, a entrevista exclusiva com o primeiro prefeito negro de Nova York, o senhor David Dinkins, a entrevista com o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, e uma feita por telefone com o ator Lázaro Ramos.

Ter participado ativamente na campanha do então senador Barack Obama para à Presidência do EUA, em 2008, foi realmente um marco. A primeira eleição tem um gosto todo especial porque, como um conhecedor profundo da história norte-americana, eu sei bem que ninguém, em sã consciência, jamais afirmaria em 2004, após Barack Obama fazer o discurso, em Boston, que ele iria se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Afropress – De todas as entrevistas que você realizou qual a que mais gostou?

EC – Sem dúvida, com o ex-prefeito David Dinkins, um diplomata que, certamente, deveria ter sido reeleito para a prefeitura, em 1992.

Afropress – Como colaborador voluntário de Afropress há tanto tempo, como vê o papel da Agência de Notícias focada na temática étnicorracial brasileira?

EC – Colaborar para a Afropress é estimulante. Eu diria até que uma missão. Como veículo independente e preocupado em debater a situação de metade da população brasileira e sua invisibilidade, a Afropress é fundamental. Acho que ela paga um preço alto por não fazer parte de um movimento chapa-branca que se autodenomina representante do movimento negro brasileiro. Não trocaria estes 8 anos de colaboração e aprendizagem por nada.

Afropress  – Quais os planos para o futuro?

EC – Continuar a parceria com a Afropress e publicar um livro com as minhas “Impressões de Nova York”, projeto que já está em andamento.

Afropress – Como vê o movimento negro brasileiro hoje?

EC – Salvo raras excessões, o movimento está moribundo. Exatamente porque está atrelado ao Estado. Devemos cobrar do Estado, mas jamais ficar mancomunado a ele. Se o Estado é seu patrão como irá criticá-lo?

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

EC – Só tenho a agradecer ao editor da Afropress, o jornalista Dojival Vieira, pela oportunidade e por ter acreditado que uma pessoa que não era formada na área de Jornalismo pudesse escrever sobre um tema tão importante. Ele, praticamente, foi meu professor de Jornalismo. Nestes 8 anos de colaboração jamais fui censurado, ou deixei de escrever algo porque fugia da linha editorial do site. Sempre tive total liberdade para escrever sobre diversos assuntos.

 

Da Redação