Ele embarcou de volta neste sábado, 25/12, Dia de Natal, no voo 204 da Delta Airlines, que saiu às 0h25, do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos e chegou às 13h deste domingo (26/12), horário de Nova York, depois de uma escala em Detroit.
Durante o mês em que ficou em S. Paulo, com a filha Núbia, de 3 anos, ele passeou, revisitou lugares da infância e celebrou o aniversário de 50 anos, junto com a mãe dona Cleusa, os irmãos Carlos Eduardo, Paulo Henrique, Yara Cristina, e amigos.
Antes de embarcar, Cadette – que, como correspondente, mandou matérias exclusivas da campanha do presidente Barack Obama, e sobre as mortes dos astros James Brown e Michael Jackson – conversou com o editor e jornalista responsável Dojival Vieira.
Durante a semana, ele esteve na Redação da Afropress, no bairro do Butantã, onde foi recebido pelo editor pela coordenadora de Redação, jornalista Dolores Medeiros e pelo jornalista, escritor e consultor do Museu Afro-Brasil, Luiz Carlos dos Santos, para um jantar.
Afropress – Esse foi o período de férias mais longo que você passou no Brasil, após a mudança para NY há 20 anos?
Edson Cadette – É verdade. Nunca, desde que mudei para os EUA, tinha passado tanto tempo. Foram 30 dias em que aproveitei para estar com minha mãe, meus irmãos e amigos – alguns dos quais há muitos anos não via. Foi uma forma que encontrei de comemorar meus 50 anos, na minha cidade, no meu país, com minha família e amigos.
Afropress – E qual foi sua impressão de S. Paulo, depois de 20 anos?
Cadette – Achei S. Paulo uma cidade meio esquizofrênica. Convive com dois pólos. Cresceu muito, grandes edifícios, mas convive com a pobreza de áreas periféricas iguais ou ainda piores que os países mais pobres da África. Com o seríssimo problema habitacional, problemas de saneamento básico. A desigualdade parece que não muda e não se altera. Apesar dos avanços em relação ao consumo, a desigualdade continua.
Afropress – E como foi a volta, o reencontro com os amigos?
Cadette – Foi muito bom. Revi pessoas que não via desde a adolescência, que estiveram no meu aniversário. Senti o carinho que essas pessoas tem por mim. Foi uma celebração dos meus 50 anos, em grande estilo. Foi ótimo.
Afropress – E em relação a situação da população negra em S. Paulo, o que notou de diferente desde que saiu?
Cadette – Destaco como positivo que a comunidade afro-brasileira começa a buscar seus espaços. Já não aceita passivamente a condição de sub-cidadania, está buscando a plena cidadania. E antes isso não existia. Com o advento da Internet, das modernas tecnologias, estamos buscando os nossos direitos. E isso é muito importante, porque no Brasil somos a metade da população, de 190 milhões de habitantes. Somos milhões vivendo com os piores indicadores. As oportunidades para todos neste país ainda não é uma realidade, é uma falácia. Na prática, continuamos invisíveis, mas é possível ver pequenos avanços.
Afropress – Como é sua vida em Nova York, o que faz, onde trabalha e como foi essa mudança para os EUA?
Cadette – Eu trabalhava como agente de turismo na Varig, num balcão no Aeroporto de Congonhas, até 1.990. Foi então, que decidi tentar, mudei. Há 12 anos trabalhou para o Sindicato dos Porteiros e Lavadores de Janelas nos Edifícios de Nova York. Sou responsável pelo setor de compras e material de escritório. O Sindicato tem uma base de mais 100 mil trabalhadores e é muito forte. Desde 2007, me tornei cidadão americano, depois de cinco anos, em que obtive o Green Card. Tenho dupla cidadania e tenho passaporte brasileiro e americano.
Afropress – Você que votou em Obama e fez sua campanha, como está vendo as dificuldades enfrentadas por ele? Ainda é possível manter a esperança?
Cadette – Eu acredito que o Presidente Obama não percebeu, os seus assessores não tinham idéia da situação econômica em que se encontravam os EUA. Era bem mais crítica do que imaginavam, especialmente no setor imobiliário. O sonho do norte-americano médio é ter uma casa. Ele começou a enfrentar esses problemas, as dificuldades naturais de governar, os problemas no Governo para encontrar o meio terno com os republicanos. Os ânimos estão mais acirrados. Porém, eu acredito que a Audácia da esperança, título famoso de um dos seus livros, continua valendo. A idéia, a esperança continua viva.
Afropress – Você acredita que Obama consiga se reeleger em 2012?
Cadette – Acredito, sim, na reeleição. Ele tem grandes chances, sem dúvida, de ser reeleito. Não surgiu ainda um candidato que possa tirar o seu lugar. A aposta dos republicanos, a ex-governadora do Alasca, Sara Palin, não tem gabarito para comandar a potência que continua sendo os Estados Unidos da América.
Afropress – Você tem planos de voltar a viver no Brasil?
Cadette – Essa é uma boa pergunta. A minha estadia aqui, em S. Paulo, me mostrou que posso viver bem aqui como tradutor ou professor de inglês. O Brasil é o meu país, agente sempre tem esse sonho de voltar, mas ainda não tenho isso claro. Não digo que não posso retornar. Saí com 29 anos, hoje tenho 50. S. Paulo é a cidade onde tenho minha família, amigos e grandes recordações.
Afropress – Como avalia o seu trabalho como correspondente de Afropress há cinco anos?
Cadette – Eu continuo muito engajado com Afropress. O trabalho que venho fazendo, espero que esteja sendo útil para abrir os olhos dos jovens, da nova geração. Eu não tive essa oportunidade quando estava aqui. Nada falava sobre essas coisas que eu achava importantes. Eu copiava modelos europeus. Tive de aceitar esses valores. A mudança para NY me abriu os olhos. Serviu para que eu saísse da invisibilidade, ver o Brasil de uma maneira diferente. Lá tive oportunidade de ler, no original, obras sobre Malcom X, Martin Luther King, Rosa Parks, Edgar Ever, isso ampliou muito os meus conhecimento. Meu trabalho é abrir essas janelas para os mais jovens.
Afropress me deu a oportunidade de mostrar ao mundo essa outra parte da sociedade americana. Sou muito grato ao seu editor, que sempre postou meus artigos, com a maior abertura, sem censura alguma, e com todo o profissionalismo.