Moro numa encruzilhada de Botafogo, no Rio de Janeiro.

São 10 horas de uma rara noite fria.

A cidade está silenciosa.

Da janela do meu apartamento, no 2º andar, vejo o Cristo.

Como namoradeira, observo a vida que se movimenta.

O morador da calçada no outro lado da rua fala alto consigo mesmo, como de costume. Olha ao redor, puxa algo do monturo a seu lado e aspira, rapidamente. Momento de discrição de alguém que grita quase toda noite.

Eu e ele somos as únicas pessoas negras por aqui, agora. Cada qual no seu lado da mesma rua na qual passa um rapaz de skate e outros homens, todos brancos. Eles se reúnem no delivery aqui perto para beberem, conversarem e se divertirem.

Ainda antes de vir de Brasília para cá, definitivamente, causou-me estranheza como o movimento de moradores de favelas do Rio se via como algo distinto do movimento negro, e vice versa.

Telefonando para a casa de uma amiga, na Zona Oeste, a fim de acertar detalhes de uma parceria de trabalho, o marido dela atende e, naturalmente, pergunta onde moro. Ao lhe responder “Zona Sul” ele comenta que sou rica. Eu rio.

Não posso generalizar, porém outro aspecto me espantou nesta cidade cindida (como também o é Brasília): há cariocas que jamais saíram de seu bairro ou zona, desconhecem a cidade, como um todo.

Como Salvador, esta é uma cidade de maioria negra onde poucos negros circulam em espaços como shopping centers, museus, teatros, universidades e bairros mais ricos.

Não há como dissociar o Rio de Janeiro do que é o Brasil.

Somos um país predominantemente negro no qual o racismo é um eixo estruturante de nossas relações sociais.

Eis o nosso paradoxo fundamental: como pode avançar, ou ao menos persistir, como democracia, uma sociedade que marginaliza mais da metade de sua população?

Estamos em 2016. Temos ciência, a partir de dados, que aumentou o assassinato de jovens negros e o feminicídio de mulheres negras.

Onde estão as imagens e vozes negras, nos meios de comunicação? Não foram convidadas. Tampouco reconhecidas, plenamente, como protagonistas da chamada “primavera das mulheres” (quais), entre outras peças de uma propaganda falaciosamente progressista, estrelado por atores sociais invariavelmente brancos.

Há apenas uma honrosa presença negra nos quadros ministeriais do governo federal. Cadê outros profissionais negros, plenamente capazes? Não foram indicados. A mesma lógica se repete nos governos estaduais, municipais e distrital.

Temos uma Lei federal que reserva vagas para negros nos concursos públicos, a qual é maliciosamente desrespeitada. Há pouquíssimos professores negros nas universidades, e dependendo do campo do conhecimento, nenhum(a). Não foram selecionados.

Tanta teoria sobre relações étnico-raciais, tanto discurso contra o racismo, porém tão pouca ação efetiva para o empoderamento social e econômico da população negra…

Jaqueline Gomes de Jesus