“Eu fiquei muito feliz porque foi o resultado de um trabalho coletivo. Houve o reconhecimento desse esforço e da qualidade do trabalho”, afirmou o estudante, logo após tomar conhecimento da avaliação dos professores da banca – Nelson Inocêncio e Luiz Martins, ambos do Departamento de Comunicação Social da UnB, na manhã desta sexta-feira (15/07).
A monografia com o título “Afropress: engajamento e neutralidade” teve como orientadora a professora Dione Moura. A menção máxima, ou SS (Superior) equivale a nota máxima possível, ou seja, 10. Nas avaliações dos trabalhos de conclusão de curso, a UnB não dá notas, mas emite conceitos que podem ser MI (Média Inferior), MM (Média), MS (Média Superior) e SS (Superior), que foi o obtido pelo trabalho. A colação de grau está marcada para o dia 20 de setembro.
Cláudio, que já é formado em História pela própria UnB, disse que escolheu a Afropress como tema porque, sendo negro, tem “uma experiência muito forte a respeito do racismo no Brasil”.
“A partir dessa experiência, quando entrei na Comunicação, também tive essa curiosidade de como o mito da democracia racial se reflete na mídia e, pesquisando, encontrei a Afropress. Sob o ponto de vista da qualidade jornalística não encontrei outro veículo que se assemelhasse, daí a minha decisão de levar adiante a pesquisa”, acrescenta.
Preconceitos
Na tese, resultado de mais de um ano de trabalho, Cláudio entrevistou cerca de 50 pessoas entre jornalistas, professores, educadores e ativistas do movimento negro. Ele observa que, quando comentou com colegas que faria a pesquisa, testemunhou reações de ceticismo.
“Tem esse preconceito com uma agência que milita no combate ao racismo. O curioso é que esse desconforto não apareceu quando se tratava de uma Agência como a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI). De onde vem isso? É uma pergunta necessária que se faz quando se trata de um trabalho científico. É possível ver na imprensa esse mito da democracia racial refletido”, acrescenta.
Durante o trabalho de pesquisa o estudante conta que, ao mesmo tempo em que notou o desconforto em quem não aceita uma Agência de notícias que assume seu caráter militante antirracista, ouviu críticas de ativistas do movimento negro de que “a Afropress tinha de ser mais militante e menos imparcial”.
“Se a Afropress abrisse mão disso [a postura militante, mas comprometida com o Jornalismo] teria um outro uso e um outro efeito. “Eu acho que o trabalho da Afropress se fosse só bem visto teria um problema aí. Se todo mundo vê bem é porque não está fazendo o trabalho que deve. Mas, é importante destacar que mesmo quem questiona não quer que Afropress páre, não quer que Afropress não exista”, destaca.
Segundo Cláudio, essa posição de desconforto de quem não tolera uma atuação militante, e a opinião de setores do movimento negro de que deveria ser “menos imparcial”, é o que torna singular a experiência da Agência.
“Há outros sites de entidades do movimento negro, mas não sites jornalísticos. Eu fico feliz dela existir, mas não gosto dela ser a única”, enfatiza.
Ele disse que essa dupla função lembra a imagem de Janus, a imagem grega de duas faces: um lado militante, outro jornalista. “É uma forma nova, não positivista de abordar a questão. O ser humano é complexo contraditório. Do ponto de vista de uma visão teórica, mais moderna, menos positivista de ciência, essa complexidade essencialmente humana tem de ser refletida no jornalismo”, frisa.
Invisibilidade
Segundo o autor a Afropress também sofre a invisibilidade, porque a agenda do Jornalismo no Brasil não contempla a questão do racismo. “O negro brasileiro não está no movimento negro. Está procurando sobreviver”, afirma, dando como exemplo o fato de o universo das pessoas que conhecem à Agência não ser proporcional à sua importância.
“Eu fiquei muito feliz e muito satisfeito com o meu trabalho. Me sinto satisfeito. Queria muito trabalhar isso e estou satisfeito com o resultado. Por outro lado, estou surpreso com as descobertas que fiz. Essa grande mídia, imparcial, neutra é hipócrita e reflete os esquemas e as estruturas de poder. Todos sabemos que o poder no Brasil não é negro. Negros não compõem a elite financeira, por exemplo. Está de fora da mídia e quando entra é nas páginas policiais. O trabalho da Afropress é importante porque chama a atenção para esse aspecto; de como a mídia reflete o mito da democracia racial”, conclui.